Muralha e Castelo

Muralha e Castelo

Assilah [Arzila], Norte de África, Marrocos

Arquitetura militar

Ainda no século XV, os portugueses optaram pela realização de um atalho que veio cortar a cidade em praticamente duas partes iguais, deixando de fora a metade mais afastada do mar e que se espraiava pela planície. Arzila portuguesa viu‐se reduzida a 45% da área islâmica herdada, preservando a faixa litoral imprescindível à estratégia de manutenção da praça. Um novo muro, de pedra e argila, traçava uma secante pelos baluartes que hoje se denominam de Tambalalão e Santa Cruz. Tratava‐se de uma muralha linear, apoiada por uma barbacã, numa iniciativa não acompanhada pelo derrube total dos antigos muros árabes. Aquando do cerco Arzila caracterizava‐se ainda pela Vila Velha, a porção da cidade excluída pelo atalho, pela Vila Nova, a urbe portuguesa, e pelo castelo, o reduto fortificado.
O gesto do atalho introduziu uma racionalidade alternativa no conjunto urbano, agora definido por duas figuras geométricas justapostas, tendencialmente retangulares. A direção de obra parece secundária embora se conheçam as nomeações de Álvaro Tristão como vedor das obras de Arzila, em 1472, de Rodrigo Anes como mestre das obras dos lugares de África, em 1473, ou ainda de Vicente de Avelar, também como vedor das obras da vila, em 1484, mas a apropriação e transformação da cidade preexistente respondeu não só a um imperativo superior, como também a uma tradição que se consolidava no Norte de África.
Quando Arzila se vê irreversivelmente cercada pelo exército de Fez, em 1508, a vila perde‐se e esvazia‐se para o castelo. A resposta de D. Manuel I assentou no envio do prestigiado mestre das obras Diogo Boytac, em 1509. Aí permaneceu até ao ano seguinte, tempo suficiente para elaborar um plano global de intervenção assente em três vectores fundamentais para a sustentabilidade e afirmação da praça portuguesa: reforço da cerca, com particular relevo para a muralha do atalho; emergência simbólica do castelo; consolidação urbana da vila. Em 1511, dirigiu‐se para Arzila o mestre biscainho Francisco Danzilho com trezentos trabalhadores, com o intuito de executar os planos traçados por Boytac que, três anos mais tarde, regressava para medir a empreitada com seu escrivão Bastião Luiz. O corpo principal das obras deste triénio incidiu fundamentalmente sobre as zonas do castelo, seus edifícios e recinto fortificado, sobre as portas da Ribeira e Vila e sobre as muralhas voltadas ao mar, constituindo ainda hoje o essencial do legado construtivo de origem portuguesa nesta cidade.
O auto de medição inicia‐se com a inspeção às obras nas casas da condessa, separadas dos aposentos do conde, embora ligadas morfologicamente àqueles, num complexo edificado de planta em L, com frente marítima coincidente com o perímetro do castelo (as casas da condessa) e fachada sobre a praça da vila, para onde se abriam algumas janelas com decoração manuelina (casas do conde), desaparecidas depois dos restauros do século passado. Atualmente, apenas sobrevive, embora metamorfoseada, uma pequena torre cilíndrica justaposta aos antigos aposentos da condessa, a aproximadamente onze braças da vizinha Torre do Alcaide‐Mor.
Prosseguindo o contorno do castelo a partir do Baluarte da Praia, reforçado por comprido pegão, do qual apenas resta o encaixe, toda esta frente de terra dobrava no Baluarte de Santa Cruz para atingir a Porta da Vila. O castelo terminava na Torre do Sino (cilíndrica) que se ligava à Torre de Menagem (quadrangular) e Casa do Capitão através de um muro que delimitava a fronteira entre o castelo e a vila, cujo embasamento assentava sobre alambor contínuo, rasgado pela Porta do Castelo. Preserva‐se o arranque do lado da Torre de Menagem num troço entretanto desprovido das aberturas das ditas casas do conde.
A muralha do atalho viu o seu desenho remodelado, indo ao encontro de uma nova proposta arquitetónica que respondesse à evolução das técnicas militares. Entre o Baluarte de Santa Cruz e o Baluarte do Tambalalão, a cortina fortificada passava a descrever três inflexões ou dentes, permitindo o flanqueamento do tiro e a defesa dos segmentos lineares de norte para sul: a primeira ocorria ainda no adarve do castelo; o segundo dente coincidia com a saliência do baluarte e Porta da Vila (atual Bab Hauma), uma máquina de defesa ativa com uma potente linha de canhoneiras abertas num primeiro piso sobre o túnel em cotovelo da porta que ainda hoje ostenta as armas de D. Manuel I; a terceira inflexão identificava‐se com o Baluarte/ Cubelo de António da Fonseca. Entre estes acidentes formais, os panos de muralha caracterizavam‐se por uma secção vertical ritmada por estreitas ameias e perfurada por seteiras num estrato inferior. Abaixo, um sólido alambor ou talude afundava‐se no fosso que acompanhava toda a muralha, apenas vencido pela ponte levadiça da dita porta.
Um dos investimentos mais fortes do projeto boytaquiano referia‐se aos melhoramentos da frente de mar da vila, com particular ênfase para as suas extremidades nordeste, junto à Porta da Ribeira, e sudoeste, no reforço da couraça. Uma nova couraça, dobrando ligeiramente sobre a muralha noroeste da vila, permitia o tiro sobre embarcações ou tentativas de assalto com origem na água. Na intersecção da couraça com a muralha, erguia‐se o Baluarte da Couraça, sentinela e protecção do flanco de terra. Junto à Porta da Ribeira, a concepção assentou na articulação de duas estruturas: uma plataforma designada Miradouro e um baluarte em pinça denominado Pata ou Perna de Aranha, que retira o nome da forma que sugere. Hoje, encurtado na sua extensão, não faz jus ao avanço tecnológico que então introduzia, qual pinça para varrimento dos flancos com cinco aberturas para bombardeiras.
Entre a couraça nova e o Baluarte da Pata de Aranha apontava‐se ao mar um novo baluarte que, por se situar em frente ao Mosteiro de São Francisco, se chamava dos Frades ou de São Francisco. Tratava‐se de uma estrutura semelhante a uma couraça, com torreão cilíndrico na ponta, possibilitando o disparo sobre as cortinas adjacentes e, como tal, quebrando a longa extensão da muralha marítima da vila.
O percurso amuralhado de Arzila respondia pelas seguintes designações nos seus pontos mais notáveis: Torre de Menagem; Torre do Alcaide‐Mor; Porta do Albacar; Baluarte da Praia; Baluarte de Santa Cruz; Torre do Sino (atual Baluarte de Pite João); Baluarte e Porta da Vila ou de Fez; Baluarte/Cubelo de António da Fonseca; Baluarte do Tambalalão; Baluarte/Cubo da Couraça; Couraça; Baluarte de São Francisco ou dos Frades; Baluarte da Pata ou Perna de Aranha; Miradouro; Porta da Ribeira.

Jorge Correia

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