Igreja de São Tomé

Igreja de São Tomé

Palai, Kerala, Índia

Arquitetura religiosa

A par da grandiosidade das suas linhas arquitetónicas, a Igreja de São Tomé de Palai apresenta‐se como um dos mais antigos exemplos de uma inédita tipologia de igreja tropical, desenvolvida por influência portuguesa no Kerala durante o século XVII e que se caracteriza por um alargamento da fachada principal, que passa a articular‐se com duas galerias que correm a toda a largura dos flancos das empenas laterais, formando um corpo de fachada de cinco tramos. Adossadas ao correr das fachadas laterais, as galerias‐varanda funcionam como um elaborado sistema de proteção solar e arejamento da nave.
Como elemento peculiar e caracterizador, esta igreja apresenta um corpo torreado sobre o altar‐mor, com uma cobertura de telhado de quatro águas, denominado em malaiala madubaha, cuja decoração apresenta claras afinidades a uma estética manuelina, visível nas janelas geminadas e nas colunas torsas dos cantos.
A fachada da igreja apresenta um interessante e complexo programa iconográfico, onde se destacam dois dragões integrados nas aletas. Alusivos ao mito de Indra e do dragão Vitra, aparecem aqui como entidades protetoras, jorrando da boca as águas primordiais de regeneração do universo.
No interior, a igreja apresenta um programa de nave simples, com as paredes laterais compartimentadas em dois andares e com apainelados. Na passagem para o altar‐mor, um arco triunfal emerge no espaço através das suas proporções e molduras fortes, com decoração semelhante à do portal de entrada. A partir dos capitéis deste arco desenvolve‐se uma sanca que, correndo ao longo do interior da capela‐mor, lhe imprime um marcado sentido arquitetónico.
Digno de nota é o retábulo do altar‐mor que, embora do século XVIII, denota uma antiga filiação nos modelos maneiristas portugueses do século XVII. Com dois andares divididos por colunas enquadrando nichos com imagens de vulto perfeito, este esquema adquire uma nova dinâmica com o coroamento do ático em grandes volutas e anjos que, adquirindo um gosto barroco, se aproximam da sensibilidade indiana, de grande acentuação decorativa. A existência, por trás do retábulo do altar‐mor, de antigas pinturas murais com belas cenas bíblicas, atesta o facto de a capela‐mor, no seu programa inicial, ter sido decorada apenas por uma grande pintura mural, como acontece ainda hoje nas igrejas sírias ortodoxas, onde perdura uma antiga tradição iconoclasta que proibia o uso de imagens de vulto.
O coro alto, junto à fachada, apresenta uma estrutura de madeira na tradição da marcenaria local que encontramos nos templos do Kerala. O terreiro da igreja, embora muito alterado, apresenta ainda uma grande casa paroquial com vasta varanda de madeira e uma pequena casa para músicos, com varanda fechada por engradado em madeira, idêntico ao que encontramos em Ramapuram e em outras igrejas de cristãos de São Tomé. Um cruzeiro de granito no eixo da entrada completa o conjunto arquitetónico.

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