Complexo Jesuíta: Igreja de Nossa Senhora das Neves, Igreja de Santo Inácio de Loiola e Seminário

Complexo Jesuíta: Igreja de Nossa Senhora das Neves, Igreja de Santo Inácio de Loiola e Seminário

Rachol, Goa, Índia

Arquitetura religiosa

O perímetro fortificado de Rachol é um dos mais vastos complexos fortificados europeus na Ásia primo-moderna. Dele não sobra praticamente nada: duas igrejas, o Seminário, panos dispersos e não reconhecidos de muralha, os restos indistintos da grande fortificação que envolvia a Igreja de Nossa Senhora das Neves, e uma porta monumental situada perto do Seminário, datável do início do século XVII.
A primeira representação conhecida do perímetro e seus edifícios é a de Pedro Barreto Resende, no relatório de António Bocarro, de cerca de 1635. Em matéria de arquitetura religiosa vemos nesse desenho o que ainda hoje existe no terreno: a nascente, a Igreja de Nossa Senhora das Neves, "matriz de todo Salsete por ser a primeira", como escreveu o padre Francisco de Sousa, abraçada pelas muralhas da fortaleza e da casa apalaçada e fortificada que seria provavelmente a do capitão de Rachol.
A poente, no outro extremo do perímetro, dominando uma colina e a entrada principal da muralha, situa‐se o antigo Colégio jesuíta (hoje seminário). Sensivelmente a meio, está a Capela de Santo António.
Informa o padre Sousa que a Igreja de Nossa Senhora das Neves, localizada fora da fortaleza "mas juncto a ella", foi fundada em 1576 pelos jesuítas. Foi a primeira de Salcete, erguida em época ainda incerta, requerendo a proteção da fortaleza. Já havia dentro de muros desde 1566 uma casa da Companhia com uma capelinha. A igreja de 1576 foi feita de taipa. A igreja de pedra e cal fez‐se entre 1584 e 1596 e é, grosso modo, aquela que lá está hoje, uma pequena igreja de nave única larga e baixa, coberta de telhado, capela‐mor de abóbada de canhão, fachada do tipo original (embora de coroamento alterado em época posterior) com três tramos e duas ordens, torre única anexa a norte, de terceira ordem provavelmente tardia. A torre protege uma galeria que estabelece a ligação aos edifícios paroquiais. A sul há um tramo lateral protegendo outra galeria.
O conjunto é esplêndido, visto de poente para nascente no seu isolamento contra a colina arborizada que esconde as ruínas da fortaleza. Em frente, o terreiro com o cruzeiro e a vastidão da planície aluvial. Ao fundo, as elevações nuas da terra firme, o antigo território inimigo do lado de lá do Zuari que, neste sítio de raia, passa atrás da igreja e do antigo forte.
O Colégio de Rachol, hoje Seminário Episcopal, localiza‐se no extremo oposto do perímetro, onde este era protegido por uma muralha de pedra e não de taipa, de acordo com o desenho de Pedro Barreto Resende anexo ao relatório de António Bocarro, que regista a posição respectiva da igreja e dos restantes edifícios do Colégio como se apresentam ainda hoje, a igreja de fachada virada a sul‐nascente, alçada na colina através de uma escadaria frontal, hoje um jardim, o Colégio estendendo‐se para norte em volta de um grande pátio, exatamente como hoje.
De acordo com o padre Francisco de Sousa, a primeira pedra do Colégio foi lançada pelo padre Gaspar Soares em 1606, e a primeira missa na igreja (dedicada a Todos‐os‐Santos) teve lugar em 1609, tendo o Colégio sido inaugurado em 1610. Era vice‐rei Frei Aleixo de Menezes, que benzeu a igreja, o Colégio, o Hospital, um seminário de meninos pobres, a casa de catecúmenos e a escola de doutrina, os vários programas que preenchiam o complexo.
Mas a igreja original do Colégio de Rachol não sobreviveu. A informação - incerta embora - é de que foi substituída por uma construção que teve lugar entre 1622 e 1640, respondendo, supomos, aos efeitos da canonização, em 1622, de São Francisco Xavier e Santo Inácio de Loiola - a quem, precisamente, a nova igreja foi dedicada.
O desenho dos alçados da igreja é característico da arquitetura monumental da Velha Goa da época, designadamente a Sé Catedral. É uma igreja de nave única coberta de telhado, capela‐mor com abóbada de canhão decorada de caixotões, coro alto sobre a entrada sustentado por magnífico arco em asa de cesto. A fachada frontal é larga e baixa, como um retângulo deitado. As duas torres que enquadram os três tramos da secção central ficam abaixo do frontão que traça o prumo à fachada.
Erguendo‐se sobre uma colina, a igreja vê‐se de longe, por quem vem de Margão. É mesmo a primeira coisa que vê o viajante que se aproxima de Rachol. No passado, sobressaía certamente por cima do perímetro amuralhado. Não admira, portanto, que o arquiteto tenha composto o alçado poente com o mesmo requinte do frontal e que todo o exterior da igreja seja rebocado e caiado. Correm em baixo janelas com frontões retos, em cima janelas de molduras mais simples, articuladas por ordens sobrepostas de pilastras absolutamente canónicas mas traçadas com a mais rigorosa simplicidade. Um classicismo minimal digno de nota. O interior é articulado por sistema idêntico, exceto na cabeceira onde, entre arco triunfal, revestimento das paredes da capela‐mor, altares e retábulo podemos ver um dos mais espetaculares conjuntos de talha indo‐portuguesa existentes na Ásia.
Uma ala do Seminário de Rachol abrigou, de 1994 a 2001, um museu de arte sacra organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Atualmente o acervo encontra‐se em exposição no Convento de Santa Mónica, em Velha Goa (Museum of Christian Art).

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