Palácio dos Vice-Reis

Palácio dos Vice-Reis

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Habitação

Durante mais de três séculos, o Palácio dos Vice‑Reis marcou a imagem da cidade de Goa, erguendo‑se num conjunto de altivos volumes sobre as águas do Mandovi. Integrando todo um conjunto de infraestruturas administrativas, o palácio desenvolvia‑se em vários edifícios à volta de uma praça, designada Terreiro dos Vice ‑Reis. Para o lado do rio, o palácio erguia uma fachada amuralhada sobre uma outra praça: o Cais do Vice ‑Rei, que se abria sobre as margens do Mandovi. Esta fachada integrava‑se nas antigas muralhas da cidade. As duas praças comunicavam entre si através do Arco dos Vice ‑Reis, hoje o único testemunho formal de todo este vastíssimo conjunto arquitetónico. Pela sua estética, tanto arquitetónica como urbana, o palácio apresenta ‑se ainda como um paço real do tardo‑manuelino, vivendo como um complexo quase autónomo dentro da cidade, sem contacto direto com o Mandovi, a não ser pelas vistas das altas janelas e varandas. Conhecido normalmente pelo nome de Palácio da Fortaleza, o edifício integrava‑se na antiga fortaleza da cidade de Adil Shah, encostando ‑se a um pano das suas muralhas. Após a conquista da cidade pelas tropas portuguesas, Afonso de Albuquerque mandou restaurar a dita fortaleza e o primeiro capitão da cidade, Rodrigo Rebelo, habitou‑a. Em 1554, o vice ‑rei Pedro de Mascarenhas instalou ‑se ali, abandonando o Palácio do Sabaio, que fora na primeira metade do século XVI a residência dos vice‑reis. O local, junto às margens do Mandovi, com vista sobre o estuário, aproximava ‑se mais da situação do Paço Real da Ribeira, o que terá influenciado a permanência dos vice ‑reis no Palácio da Fortaleza e o desenvolvimento desta residência em palácio oficial. Arquitetonicamente, o palácio caracterizava ‑se por um conjunto de diferentes volumes que se sucediam organicamente, integrando a Cadeia do Tronco e os Arma zéns Reais, que serviam para depósito de munições e armaria. O edifício adquiria uma certa sumptuosidade, referida por vários viajantes, mais pela escala e proporções que por um elaborado desenho arquitetónico. O levantamento do palácio, realizado em 1779, dá disso testemunho. Do desenho transparece uma tendência para a arquitetura chã, e um sentido de organicidade acentuada por um conjunto de altos tetos de tesoura que, simultaneamente, lhe conferiam uma marcada monumentalidade. No seu programa distributivo o palácio recolhia ‑se sobre um pátio murado, sendo a entrada marcada por um vasto alpendre com dois lances de escadas coberto de telhado de quatro águas repousando em grossas colunas de pedra. De cada lado do alpendre abriam‑ ‑se, por sua vez, a toda a largura do alçado, duas largas varandas de colunas, solução que, mais tarde, viria a ser adotada nas grandes casas do século XVIII. Como refere Pyrard de la Valle, este pátio assumia importantes funções de representação, sendo onde se reunia toda a aristocracia, a cavalo ou em machilas, nas cerimónias oficiais ou quando o vice ‑rei se deslocava para fora do palácio. Como paradigma de palácio real, o edifício agregava uma vasta capela com tribuna, cuja ligação com o interior do palácio a dotava de características de capela palatina. No seu complexo interior, o palácio era dotado de duas grandes salas, uma primeira com funções de antecâmara, onde permanecia no dia‑a‑dia a guarda pessoal do vice ‑rei, e uma segunda reservada para o conselho e as grandes recepções. Na primeira sala estavam pintadas todas as armadas que desde Vasco da Gama tinham aportado na Índia, referindo Pyrard de la Valle como pormenor que todos os navios eram apontados com o seu nome e respectivo capitão, sendo ainda anotados os naufragados. Esta sala dava acesso a uma ainda maior, decorada por sua vez com os retratos em corpo inteiro de todos os vice ‑reis, preciosa coleção que se encontra, hoje, no convento dos franciscanos da cidade de Goa. Em 1695, devido à epidemia que assolava a cidade o conde de Vila Verde vê‑se obrigado a abandoná‑la e fixar residência no Palácio da Casa da Pólvora, em Panelim, nos arredores de Goa. Já no século XIX, os vice‑reis instalam‑se, por sua vez, em Pangim, na sequência das grandes obras efetuadas nesta localidade e da sua passagem a capital do Estado da Índia. Mesmo depois de o Palácio da Fortaleza ter deixado de ser residência dos vice‑reis, durante muitos anos a grande sala de audiências ainda era utilizada como local de recepções oficiais. Kloguen, na sua estadia em Goa, em 1812, ainda refere o facto, pouco tempo antes da demolição do que restava do palácio, em 1820.

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