Missão do Sagrado Coração de Jesus

Missão do Sagrado Coração de Jesus

Soibada, Manatuto, Timor

Arquitetura religiosa

Fundada em finais do século XIX por sacerdotes jesuítas - a que se associariam, na função de educação de raparigas, as irmãs canossianas - a Missão do Sagrado Coração de Jesus em Soibada, localidade do sul da Ilha de Timor (região onde a implantação do catolicismo era residual), veio dar continuidade ao importante trabalho de evangelização levado a cabo pelo bispo António Joaquim de Medeiros. Este assumira em 1877 a vigararia geral das missões de Timor, que retomara o esforço missionário comprometido pela extinção das ordens religiosas em 1834.
Inicialmente instalada em barracões provisórios, iniciar‐se‐iam em 1900 as obras de construção de uma igreja e uma residência para os missionários, bem como de dois colégios. O Colégio Nuno Álvares, para rapazes, seria inaugurado quatro anos mais tarde e o Colégio da Imaculada Conceição, ou das Madres, para raparigas, estava em fase de conclusão aquando da implantação do regime republicano, cuja política militantemente laicista motivou a interrupção, por algum tempo, da atividade missionária.
Sede do Vicariato‐Geral da Contra‐Costa, desde a sua criação em 1900 a Missão de Soibada tornar‐se‐ia o principal centro de formação religiosa e escolar dos timorenses durante várias décadas. Com efeito, funcionavam no complexo, além dos dois colégios, a Escola São Francisco Xavier, destinada à formação de professores‐catequistas, bem como, a partir de 1936, o Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima.
A missão escapou à ação destruidora dos japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial, graças à intervenção do régulo local, Raimundo Doutel Sarmento. Entraria, porém, em declínio depois da Guerra, na sequência da transferência da escola de professores‐catequistas e do seminário para Díli, bem como da criação da diocese de Barique.
Todavia, a Missão do Sagrado Coração de Jesus deixaria uma forte marca em Timor, pois foi nas suas escolas que se formou parte da elite timorense, num período em que a função educativa do Estado era ainda incipiente.
De construção segura, em alvenaria ordinária de pedra, o conjunto que forma a missão foi erigido no declive da encosta, com corpo principal em dois pisos e águas‐furtadas, em que entroncam outros corpos que vão ligando às cotas do terreno, definindo galerias com alpendres. Dispõe de um pequeno claustro e espaço com grande escadaria exterior de pedra disposta de forma teatral, formando conjunto ao modo mosteiral beneditino dos finais do século XIX. Nas apresentações mais visíveis do exterior, vislumbram‐se formas geométricas puras e galerias encerradas por persianas, formando sistema de dupla pele assegurando a melhor habitabilidade nas condições climáticas da região, com sistema de galeria simples de métrica rigorosa em escala mais chã formando alpendre contínuo no miolo íntimo definido pelos edifícios.
O volume do corpo principal constitui uma peça forte de grande massa de alvenaria caiada, à qual foram subtraídos os vãos, de verga reta na primeira ordem do piso inferior e de verga em arco perfeito no piso superior, equipados com persianas em madeira pintada em tom castanho‐escuro e aplicadas à face exterior do vão e no plano da fachada. Assim se cria uma ambiguidade de cheios e vazios consoante a posição aberta ou cerrada, que enriquece a apreciação do edifício, pela desordem resultante da movimentação das persianas e pela espessura revelada quando abertas.
Para a criação e definição da plataforma que recebe as grandes massas de alvenaria usou‐se um sistema de socalcos em pedra insossa, cuja massa define um poderoso embasamento de altura superior à das edificações, mas que, pela sua interligação com as espécies vegetais e arbóreas próximas, ou neles implantadas, define uma espécie de acrópole na qual as massas brancas dos edifícios surgem como flutuantes no espaço.
Este sistema permitiu também criar, no espaço exterior de miolo definido pelos edifícios, uma grande escadaria com degraus retos acompanhando os socalcos, aberta sobre patamar também em pedra, servido por três pequenos lances de escada situados nos topos e no eixo principal.
Destaca‐se, no piso superior do corpo principal, um pórtico com frontão triangular e duas colunas, que emparelham com outro par adossado à fachada, permitindo ao conjunto suportar o alpendre de duas águas que define e caracteriza o acesso principal aos dois pisos do edifício. O acesso ao piso inferior faz‐se através de vão aberto no volume das escadas e no eixo de simetria do edifício, ascendendo‐se ao piso superior através de escadaria dupla e simétrica, com dois lances de degraus de cada lado. Estes formam desenho sinuoso e destacado da fachada, com balaustrada constituída por elementos verticais do tipo pináculo em alvenaria caiada, encimados por pinhas esféricas e piramidais, com corrimão e balaústres em madeira pintada, protegendo assim cada lance de escadas pelos dois lados.

Edmundo Alves

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