Fortificação

Fortificação

Malacca [Malaca], Malacca, Malásia

Arquitetura militar

Em 1511, após a conquista, Afonso de Albuquerque pôs em prática um programa de fortificação da cidade. Dessa primeira empreitada, a peça mais importante foi indiscutivelmente a torre de menagem, que conhecemos bem através de um desenho feito por Manuel Godinho de Erédia, no início do século XVII. Tinha um coruchéu com perto de dez metros, planta quadrangular e quatro pisos, além do eirado superior. A metade de baixo era mais forte e larga, e estava dotada de canhoneira no piso térreo e de janelas retangulares nos três sobrados superiores. Era coroada por ameias cruciformes de hastes arredondadas e dotada de troneiras.
Dois outros desenhos permitem continuar a análise da fortaleza. A planta era quadrangular, sem portas no andar térreo, e apenas com comunicação com as outras dependências através do adarve. Cada face tinha dez braças, ou sejam vinte e dois metros. A torre avançava virada à barra do rio, fazendo‐se a entrada lateralmente. A porta era defendida lateralmente por um baluarte redondo, dotado de três canhoneiras para o tiro rasante. À direita estava o armazém e à esquerda a escadaria que comunicava com a torre e a casa do capitão, situada ao nível do adarve, como era comum nas fortalezas do tempo. À volta do terreiro, onde estava o poço, distribuíam‐se os alojamentos da guarnição, reservas de mantimentos e armamento e também o tronco, que era a dependência com maior área.
A nova muralha que circundava o núcleo urbano deve ter sido começada cerca de 1526, no tempo do vice‐rei Pedro de Mascarenhas, mas levou tempo a concluir. Só entre 1534 e 1539 é que foi dada ordem expressa para que se levantasse uma muralha do lado de terra. Porém a fortaleza era ainda muito fraca, e Francisco Coutinho viu‐se obrigado a mandar que a mesma fosse feita em pedra, o que aconteceu mal tomou posse, em 1561. As construções mostraram‐se insuficientes, e a coroa viu‐se na necessidade de lançar um sistema moderno, com cortinas boas e fortes e baluartes eficazes, que defendesse o núcleo urbano principal, onde haviam sido construídos os edifícios públicos e religiosos: a Igreja Matriz e a Casa da Câmara, a Misericórdia, o Hospital dos Pobres, o Hospital Real, o Colégio da Companhia de Jesus, o Paço Episcopal, o Convento de Santo Agostinho e o de São Domingos.
Em meados do século XVI havia duas fortificações distintas: a fortaleza propriamente dita, e os dispositivos que defendiam o chamado Bairro da Tranqueira, situado do outro lado do rio. A tranqueira ficou a cerca de trinta metros do Baluarte de São Domingos.
No início do século XVII, o velho castelo construído por Afonso de Albuquerque servia como último reduto e casa do capitão. O baluarte mais forte era o de São Pedro, de cinco faces, muito avançado em relação às cortinas, com dispositivo para fazer fogo à distância, a partir da praça alta, já que não tinha casamata. Ao longo do rio havia um pano reto que ligava ao Baluarte de São Domingos, ainda de planta redonda e colocado no ângulo, ficando a meio um baluarte irregular, apenas um corpo retangular avançado, que defendia a porta que estava em frente da ponte. Este dispositivo aparece também nas outras duas cortinas seguintes, a que ficava para o sertão e a que tinha o Ribeiro de Aerlele pela frente. Nos ângulos estava o Baluarte da Madre de Deus, pentagonal e moderno, e o Baluarte de Santiago, ainda redondo. A esquina virada ao mar, junto aos hospitais, não tinha qualquer baluarte.
Manuel Godinho de Erédia, que atribuiu os planos a João Baptista Cairato, estava a par dos projetos para Malaca e assim no seu outro desenho já apresenta o de modernização, a que chama "traça nova", o qual alterava o formato dos velhos baluartes, substituindo o da Alfândega por outro com orelhões, e transformava o de São Domingos, que ficaria pentagonal e com gola. Uma nova linha dotada com quatro baluartes de orelhão aumentaria o perímetro da cidade, para os lados de Sabac e Lher, e o regato de Aerlele seria aberto até ao rio, de modo a transformar em ilha a terreno de implantação da cidade.
Em 1632, o conde de Linhares informou o monarca português Filipe III da necessidade de se reforçar a defesa da cidade de Malaca, não com mais muros mas com navios, defendendo a necessidade de se mandarem construir galés para esse fim. Ainda nesse mesmo ano, a cidade de Malaca debatia‐se com problemas nas fortificações, e enquanto o capitão‐geral do Sul, António Pinto da Fonseca, desejava construir uma fortaleza na Ilha das Naus, a cidade pedia ao vice‐rei que fizesse primeiro as que eram mais urgentes para o núcleo urbano.
O estado da fortaleza em 1641, no momento em que Portugal a perdeu para os holandeses, é‐nos dado pelo desenho que pertence ao Arquivo Real de Haia, onde a administração da Companhia Holandesa das Índias Orientais, em relatório anexo, propõe em linhas sobrepostas as alterações que pretendia fazer. Essas alterações aparecem a verde e visavam reduzir a zona forte, de modo a torná‐la menor e mais defensável. A vermelho e amarelo está a fortificação portuguesa, provando‐se que o projeto da traça nova de Manuel Godinho de Erédia não foi por diante.
Lê‐se em todas as publicações que a fortificação de Malaca foi desmantelada pelos ingleses, que só deixaram de pé uma porta, no local onde se levantava o Baluarte de Santiago. O que hoje se vê dessa entrada é o resultado de obras holandesas de remodelação, pois tem gravadas a data de 1670 e as armas da Companhia Holandesa das Índias Orientais. No entanto, o vão é em cotovelo, como era habitual nas construções defensivas portuguesas, com possibilidade de tiro através de aberturas nos paramentos laterais, esquema que foi usado até muito tarde. Mas a destruição não foi total; a fortaleza foi inutilizada do ponto de vista militar, dado o interesse de valorizar Singapura, e os britânicos correrem o risco de os malaios a tomarem e, a partir dela, dominarem o Estreito de Malaca, controlando toda a navegação entre a Índia e o Ceilão e a Insulíndia, a China e a Indonésia.
Os alicerces ficaram parcialmente soterrados, enquanto noutros pontos apenas a zona superior das cortinas e dos baluartes foram derrubados, mantendo‐se quase intocadas as mais baixas. Apareceram estruturas portuguesas próximo da antiga Porta de Santiago. São cerca de quarenta metros, vendo‐se o ângulo morto que quebra as duas cortinas, entre os antigos baluartes de São Pedro e de Santiago, que ficava a defender a porta que ainda está de pé. Podemos aperceber‐nos do enchimento da muralha, do seu paramento externo, nalguns casos com mais de dois metros de altura, e também de algumas estruturas que ficavam coladas a ela, do lado de dentro, como o hospital. A Fundação Calouste Gulbenkian assinou em 1991 um protocolo com vista à reabilitação dos vestígios arquitetónicos portugueses em Malaca: a Porta de Santiago e a Igreja de Nossa Senhora do Monte. O projecto não chegou a ser implementado.

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