Fortificação da Cidade

Fortificação da Cidade

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura militar

Os portugueses encontraram em Goa uma cidade portuária opulenta e em fase de expansão, com a malha urbana desenvolvendo ‑se ao longo da ribeira do Rio Mandovi, entre a fortaleza ou castelo muçulmano (a leste) e a zona de estaleiro naval (a oeste). A envolver a urbe pelos lados oeste, sul e leste, abria ‑se um fosso murado em forma aproximadamente semicircular. Todo este perímetro defensivo possuía quatro portas: a Porta do Cais (anexa à fortaleza, do seu lado oeste); a Porta da Ribeira (próxima do estaleiro naval, a oeste da fortaleza); a Porta dos Baçais (a sul da fortaleza, abrindo para o interior da Ilha de Tiswadi); e a Porta do Mandovim (a leste e próxima da fortaleza). Após a primeira conquista da cidade, a 17 de fevereiro de 1510, Afonso de Albuquerque apressou ‑se a restaurar os seus muros e a proceder à limpeza do respectivo fosso. Para além destes reparos, Albuquerque decidiu "atalhar" a fortaleza, ou seja, diminuir a sua área de implantação, ocupando apenas a parte norte ou ribeirinha da estrutura. Dentro deste setor, os portugueses construíram algumas casas para servirem de celeiros e arsenal. Dada a falta de cal, as obras foram feitas com pedra e barro. Estas ações pragmáticas tinham por objetivo fazer frente, com os poucos homens e recursos à disposição, à esperada contra‑ ‑ofensiva e cerco por parte das forças de Adil Khân. Mas não resistiram e tiveram de abandonar a cidade volvidos três meses. A 25 de novembro de 1510, a cidade voltou a cair nas mãos dos portugueses, tendo início nos primeiros dias de dezembro as obras de construção de uma nova fortaleza, feitas no local da desmantelada estrutura muçulmana. A direção desta obra, a cargo de Tomás Fernandes, envolveu a ação de vinte pedreiros portugueses e trabalhadores locais, para além de muitos soldados da armada. É difícil de determinar com rigor a sua implantação sem uma investigação arqueológica. Contudo, sabemos através de descrições coevas que a fortaleza compreendia três redutos principais: uma torre contígua à porta do cais (a oeste); uma torre de menagem (mais a sul, junto do rio); e uma terceira torre, próximo da zona do mandovim ou alfândega (a leste). A partir da torre do mandovim começava uma couraça em direção a norte, que conduzia a um baluarte sobre o rio. Enquanto as torres do cais e do mandovim eram quadradas, o baluarte do rio era em forma de octógono. A torre de menagem, com dois sobrados e provida de artilharia, seria provavelmente retangular. Entre a torre de menagem e a torre do cais foi aberta a porta para a fortaleza. Em redor de todo o recinto foi cavado um fosso que comunicava com o rio. Quando a obra da fortaleza estava avançada, Afonso de Albuquerque ordenou a reparação e fortalecimento dos muros da cidade. Construiu ‑se um novo pano de muralha, a unir a Porta do Cais quase até à Porta da Ribeira, defendendo toda a frente ribeirinha da cidade, e reconstruiu ‑se a cerca muçulmana, fortalecendo ‑a com cubelos "fundados em baixo na cava com bombardeiras, que varejavam todo o muro", segundo Gaspar Correia. A Porta da Ribeira mereceu uma atenção e provimento especial, aí tendo sido colocadas peças de artilharia. O sistema foi posto à prova em 1511 e 1512, quando Goa sofreu vários assédios por parte de forças do sultanato de Bijapur, aquarteladas no Forte de Benasterim. Refira ‑se a alteração gradual dos nomes das quatro portas da cidade. Assim, a Porta do Cais viria a ser conhecida por Arco dos Vice ‑reis, a da Ribeira por Santa Catarina, a dos Baçais por Nossa Senhora da Serra e a do Mandovim como Arco de Nossa Senhora da Conceição. A partir de 1530, com a mudança de capital de Cochim para Goa, a cidade teve um crescimento populacional acentuado e o tecido urbano extravasou o perímetro das muralhas. Por volta de 1550, o fosso da muralha havia sido em grande parte entulhado e a própria muralha encontrava ‑se desmantelada ou arruinada por sectores. O facto de o casario se ter encostado aos muros pela sua face exterior tornava ‑a ineficaz. Tal como a Ilha de Tiswadi, toda a cidade estava mal protegida, o que se agravou com a destruição do império hindu de Vijayanagar (1565). Nesse contexto, chegaram ordens régias para se iniciar um duplo projeto defensivo: a construção de uma muralha ao longo de todo o flanco leste e sudeste da Ilha de Tiswadi; e a edificação de outra muralha para envolver o novo perímetro urbano da cidade de Goa. Apenas a primeira muralha foi iniciada. Como constatou Pyrard de Laval, no início de Seiscentos os portugueses não se empenhavam já em guardar a cidade de Goa da banda da terra, "quer dizer para o interior da ilha, por razão das passagens bem guardadas em que eles se fiam". Na verdade, os maus ventos sopravam agora do mar. Cerca de 1554, a fortaleza tornou ‑se a residência oficial dos vice ‑reis e governadores da Índia. Até 1684 constituiu o símbolo institucional máximo do Estado da Índia. O desde então Palácio (ou Paço) dos Vice ‑Reis sofreu várias intervenções e a partir de meados de século XVIII, foi abandonado e caiu em ruína. A iniciativa pombalina de reconstrução da cidade ainda produziu um detalhado projeto de restauro, mas em 1818 o vice ‑rei conde do Rio Pardo ordenava o seu desmantelamento. Hoje ainda permanecem alguns vestígios dos muros, um ou outro ornamento e o Arco dos Vice‑ ‑Reis.

Sidh Losa Mendiratta

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