Casa Tradicional

Casa Tradicional

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Habitação

A casa tradicional goesa, tal como a identificamos atualmente, construída pelas comunidades rurais hindu, católica e muçulmana, terá surgido enquanto identidade específica, com os seus modelos repetíveis nas suas tipologias, proporções, expressões formais e tecnologias construtivas, num período relativamente próximo, talvez a partir dos séculos XVII-XVIII. Contudo, as suas raízes ancestrais, profundamente associadas à formação dos territórios denominados das velhas e das novas conquistas, fundam especificidades sociopolíticas e sociorreligiosas, cujas expressões culturais terão transportado influências necessariamente próximas às da origem dessas comunidades miscigenadas, por via de um longo convívio antes e após a chegada dos portugueses.

No território das velhas conquistas e zonas limítrofes, constituído essencialmente por ilhas, ter-se-á assim aprofundado um tempo de encontro de culturas milenares, tendo estas memórias superado a alternância de ciclos económicos, políticos e culturais. A introdução de mais uma identidade cultural, de cariz europeia, veio trazer uma nova organização social, novos hábitos, nova religião e novas materialidades, a par da permanência das velhas culturas. Provavelmente muitos dos modelos agora identificados serão sínteses resultantes de um complexo sistema de organização social das três comunidades, com especial relevo para a hindu, que por sua vez se estrutura em subsistemas. A própria especificidade da paisagem rural tal como a conhecemos atualmente deriva de novas políticas introduzidas no virar do século XVIII, de que resultou uma reorganização dos campos, principalmente com a introdução da cultura do arroz. Esta nova realidade não só terá influenciado o perfil psicológico das comunidades como terá configurado mudanças significativas na produção do artesanato, das alfaias e, consequentemente, novas tipologias das casas e construções associadas. A própria reorganização sociocultural em redor da vida religiosa e respectivas celebrações das diferentes confissões é fundamental para compreender a alma da casa goesa enquanto lugar geométrico do agregado familiar, mas também do seu posicionamento no conjunto aglomerado.

Parte da atual paisagem onde se implantam aldeias será resultante da drenagem dos sapais, da reconfiguração de canais e dos esteios que alimentam os grandes rios como o Tira- col, o Chaporá, o Mondovi e o Zuari, ou outros de menor dimensão. Um novo tempo económico emergiu e permitiu uma nova realidade rural, determinada pelos extensos arrozais, rodeados de plantações de coqueiros definidores dos lugares de eleição, dos assentamentos para proteção solar e consolidação das plataformas e respectivas cotas altimétricas.

Este ciclo, a par da introdução de grandes extensões de cajueiros, terá garantido uma nova e duradoura estabilidade económica, que fez de todas as outras atividades rurais suas subsidiárias em praticamente todo o território goês, apesar das diferentes geografias de um pequeno território cuja constituição geológica é predominantemente de solos lateríticos.

As casas comuns são genericamente unifamiliares e quase elementares, respondendo às necessidades básicas da estrutura económica rural. As aldeias são essencialmente rurais, compostas por casas individuais disseminadas entre um forte arvoredo protetor de clima e fornecedor de frutos e materiais indispensáveis à vida quotidiana. São muito raras as situações de casas encostadas entre si a formar bandas, também denominadas cháles.

A organização económica, baseada na produção rural ou, no caso de aldeias marítimas, nos rios e oceanos, apoia-se ainda no saber coeso dos artesãos que mantêm uma ancestral atividade de construção de alfaias agrícolas, instrumentos domésticos em madeira e fibras vegetais, curiosamente de grande similitude com a construção de barcos de madeira e dos seus aprestos

A tradição, apesar de algumas inovações entretanto introduzidas, mantém ainda hoje a identidade e a expressão da arquitetura rural goesa. As tradicionais esteiras - olas - manufaturadas a partir de folhas entrançadas de coqueiro, os arados de tipo radial, as grades para desterroar as terras da lavra dos arrozais, bem como a carpintaria das casas e do mobiliário doméstico adquirido à beira das estradas em carpintarias improvisadas, revelam-nos o saber dos diversos mesteres ligados à construção das casas, dos templos, dos barcos. Estes traços identitários permanecem vivos, ainda que alguns materiais estejam a desaparecer na edificação, como a taipa, o adobe, as soluções de entrelaçados vegetais revestidos a terra e bosta, permanecendo contudo a pedra de laterite e em parte a madeira. Entretanto, nos grandes centros o cimento vai ganhando terreno, com forte incidência na reconstrução de templos e também das novas casas. A madeira utilizada na construção de barcos, uma arte milenar notável ainda presente em estaleiros de borda-rio, vai também cedendo ao aço para navios de grande porte e, mais recentemente, à fibra de vidro para os barcos de menor dimensão.

A casa tradicional goesa rural de pequena e média dimensão terá em muitos casos uma forte relação com a arquitetura urbana, com especial incidência no território das velhas conquistas. A linha de fronteira será difusa, tanto no assentamento como por vezes nas relações construtivas formais e mesmo nas tipológicas, ainda que neste último caso as dimensões e proporções sejam distintas. Alguns dos modelos considerados na nossa pesquisa são clarificadores desta interação, pois em muitos casos, mesmo nos mais elementares, observamos que transportam expressões dessa contaminação mútua, tanto mais que em vilas e aldeias de maior dimensão as zonas difusas entre centro e periferia ou, de um modo geral, entre zonas cujos aglomerados formam unidades físicas ou especificidades sociorreligiosas, esta realidade torna-se mais evidente.

Em consequência, ao pretendermos estabelecer o quadro tipológico para a casa tradicional goesa rural, considerámos também os modelos urbanos, das vilas e cidades, no sentido de não dissociarmos os exemplos de indiscutível inter-relacionamento destacando-se de forma evidente dos casos autónomos sem qualquer aproximação.

Contudo, advertimos que a aparente simplificação do agrupamento das tipologias da casa goesa rural resulta sobretudo do propósito de estabelecer bases para a sua identificação. Algumas delas resultam de antigos modelos portadores de uma génese sociorreligiosa específica. São casas de influência que derivam de uma linhagem potencial evolutiva, sendo de um modo geral de média e por vezes de grande dimensão, maioritariamente em alvenaria de pedra laterítica e algum adobe, ou associando ambos. As armações da cobertura são o elemento distintivo, pela complexidade e qualidade das assemblagens, que nalguns casos interligam um frechal comum a uma estrutura de colunas de madeira independente das alvenarias. O prolongamento das armações das coberturas forma longos beirais e alpendres protetores de balcões quase sempre associados à entrada, local de acolhimento e convívio.

Neste grupo, identificámos a casa de planta longitudinal (casa-bloco), a casa de planta centralizada e a casa-pátio. Enquanto a primeira se desenvolve a partir da sucessão de compartimentos, a segunda resulta de um compartimento central a partir do qual se acede a todos os restantes dispostos ao seu redor. Ambas apresentam variantes com especial relevância nas coberturas e respectivos alpendres/balcões. A casa de planta centralizada caracteriza-se pela elevação da estrutura central, que por vezes se assume como um torreão habitável com acesso interior por escadas ou apenas se eleva de modo a regular a ventilação e temperatura da casa.

A casa-pátio agrupa a compartimentação em redor de um espaço aberto, tradicionalmente quadrado. Contudo, por vezes temos um pátio axial rodeado por muros e telheiros em que a casa se organiza em esquadria ou formando um bloco linear, por vezes duplicado, implantado num único quadrante.

Estas três tipologias surgem a partir de uma fileira de casas elementares no plano construtivo, espacial e formal, atingindo uma grande complexidade e dimensão, quer se desenvolvam em piso térreo ou em sobrado.

Destacamos ainda um segundo grupo de casas cujas características assentam em estruturas menos perenes, como as armações mistas de fibras vegetais e madeira com cobertura de folhas de palmeira, incorporando por vezes pastas de barro com palha e/ou bosta de vaca. Neste grupo integramos as casas-tenda de palha de cana-de-açúcar e de arroz, ou mesmo a sua evolução tecnológica para cobertura de fibras artificiais e plástico. Pela elementaridade destas tipologias, praticamente de um só compartimento ou integrando pequenas divisórias de entrelaçados vegetais, incluímos neste grupo as já raras casas escavadas na laterite.

A casa rural goesa revela-nos grande diversidade, riqueza de expressão, tecnologias e espacialidades próprias, mantendo-se incorrupta sobretudo pela permanência da estrutura socioeconómica e sociorreligiosa das comunidades suportadas nas diversas linhagens de artesãos que asseguram a continuidade da herança cultural.

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