Cemitérios

Cemitérios

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Equipamentos e infraestruturas

Não sabemos se existem cemitérios católicos como os de Goa noutras partes do mundo. Em Goa vêem-se ainda por toda a parte: são cemitérios cobertos por telhados de duas grandes águas, estruturados como igrejas de três naves baixas e largas, separadas por pilares, com a capela funerária ao fundo como se fosse a capela-mor e, à frente, uma fachada de alvenaria de pedra rebocada e caiada, composta como verdadeira fachada de igreja. Com o tempo, o cemitério cresceu para além da área coberta e há muito mais campas em volta. Em geral corre um muro ao redor do perímetro, por vezes articulado por pilastras e pilares de cunhal com pináculos. Estes cemitérios apareceram no século xix, provavelmente nas décadas de 1840 e 1850. Até então, os enterramentos faziam-se nas igrejas ou nos seus adros. Escrevendo em 1927, o "norteiro" Braz Fernandes usa a expressão "in the style of old Portuguese cemeteries'' para se referir a estruturas industriais do mesmo tipo arquitetónico. As primeiras ordens régias e do governo da Índia para acabar com os enterramentos nas igrejas datarão de 1783 mas, segundo apurou Casimiro Cristóvão de Nazaré nas Mitras Lusitanas do Oriente, foi em 14 de janeiro de 1801 que o arcebispo Frei Manuel de Santa Catarina (1780-1812), através de um decreto episcopal, mandou fazer os cemitérios. Todavia, decorreram várias décadas até aparecerem os primeiros cemitérios cobertos: o chamado Cemitério Velho de Assolná em Salcete, dos poucos seguramente datados, foi feito em 1844, mas as primeiras campas noutros cemitérios são por sistema da década de 1890 e até essa altura continuavam a verificar-se enterramentos nas igrejas, como atestam alguns levantamentos de inscrições funerárias. O Cemitério Velho de Assolná é dos mais notáveis de Goa. Tem três naves separadas por pilares quadrados, cobertas por um único telhado de largas abas. Os lados são abertos por arcadas. A fachada foi desenhada como se fora para uma pequena igreja: um tramo onde abre a porta, ladeado de duas torres entre as quais se ergue um complexo frontão contracurvado e com volutas. Às naves laterais correspondem partes mais baixas da fachada, composta em pirâmide. O cemitério limita a norte o terreiro de Assolná, situado à ilharga nascente da igreja e hoje muito alterado pela estrada e outros acidentes. Era frequente o cemitério desempenhar um papel importante na composição do conjunto formado pela igreja, os edifícios paroquiais, o cruzeiro, e a casa do pároco. Por vezes, a posição axial do cemitério face à igreja é muito marcada: é o caso de Assagão, Santa Cruz, Loutolim. Os cemitérios são cobertos provavelmente devido ao clima de monções, sobretudo às violentas chuvadas da monção de sudoeste, de junho a outubro, que requeria a proteção das campas em terreno aberto, e fizeram-se em forma de igreja provavelmente como uma espécie de reafirmação do princípio dos enterramentos em solo sagrado. Encontram-se também frequentemente cemitérios em que foi desmontada a cobertura e ficou apenas o perímetro murado e a capela ao fundo. As circunstâncias em que tal sucedeu explicam também o fim dos cemitérios cobertos em Goa. Vejam-se os casos seguintes. Em 1897, o major Fernando Leal, oficial encarregado pelo governo de Goa de apresentar um relatório sobre o desenvolvimento de vários concelhos de Salcete, entre os quais Assolná, pede o desmantelamento do cemitério devido à sua situação no centro da povoação, ao pé da estrada e da igreja e em particular por razões de saúde, defendendo a existência de "um simples recinto murado" sem cobertura, com uma capela ao fundo se assim as pessoas quisessem. Tudo isso seria "mais bonito, e até mais religioso, um campo santo sob o céu, plantado com flores, banhado pelo sol durante o dia e, pela noite, sob [...] o firmamento adornado de estrelas brilhantes" A seguir, num tom bastante mais sombrio e, ao mesmo tempo, claramente influenciado pela imaginação orientalista, o major Leal descreve o cemitério coberto como um "terrível caravanseralho dos mortos, habitado tão-somente por morcegos, corujas e aranhas'! Em Assolná não se passou das intenções aos atos mas em Benaulim, também em Salcete, exatamente quatro décadas depois, em 1937, o cemitério coberto foi de facto demolido. Em outubro desse ano, o delegado de saúde de Salcete visitou o cemitério que desde 1914 se achava ser pequeno demais (tinha 293 campas), e descreveu-o como "um verdadeiro subterrâneo húmido e infecto, onde se sente um bafio mefítico e nauseabundo. Um horror!" O cemitério foi demolido e substituído por um cemitério aberto, que é aquele que hoje vemos e no qual só a fachada existente deve ter sobrevivido à vontade de luz e ar puro do delegado de saúde de Salcete. Nestas circunstâncias, poderá talvez concluir-se que nenhum cemitério coberto deve ter sido construído em Goa a partir do início do século xx e muitos terão sido demolidos: o ciclo que deu origem a obras tão curiosas e por vezes notáveis durou afinal menos de meio século.

Paulo Varela Gomes

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