Igreja de Nossa Senhora da Piedade

Igreja de Nossa Senhora da Piedade

Divar, Goa, Índia

Arquitetura religiosa

Conta Gaspar Correia nas Lendas da Índia que, regressando Afonso de Albuquerque de Ormuz a Goa no dia 27 de dezembro de 1515, muito doente, ao ser avisado que aparecia no horizonte Nossa Senhora de Divar à entrada da barra de Goa, "se alevantou da cama, e sobraçado chegou á porta da câmara, em que se encostou com o hombro, e se abaixou que vio a casa de Nossa Senhora: alevantou as mãos, e fez oração, e se tornou à cama". Faleceu pouco depois. Ainda hoje todos aqueles que entram a barra do Mandovi ou lhe sobem pela margem vêem Nossa Senhora de Divar muito ao longe, branca e isolada no alto da única colina da ilha, o perfil longínquo dos Gates azulado pela bruma. Em 1517 era uma pequena ermida, fundada pouco antes pelo capitão Rui Dias de Silveira. Em 1625 foi reconstruída com a invocação de Nossa Senhora da Piedade. Entre 1699 e 1724 recebeu a forma que presentemente tem. A par de Santana de Talaulim, a cuja história está intimamente ligada, é uma das mais importantes igrejas de Goa, da arquitetura católica na Índia e do mundo de língua portuguesa. Num pequeno livro publicado em 1902, Cipriano da Cruz Gomes, natural de Divar, dá conta da rivalidade entre os projetistas das Igrejas de Nossa Senhora da Piedade e da Igreja de Santana. O padre António João de Frias (1664‑1727) tornou ‑se bastante conhecido em Goa e em Portugal por razões que nada têm que ver com a arquitetura: foi o autor da Aureola dos Indios & Nobiliaria Bracmane, um livro publicado em Lisboa em 1702 que é um elogio dos brâmanes em geral e dos brâmanes católicos em particular. Recorde ‑se que o responsável pela obra de Santana de Talaulim também foi um sacerdote brâmane, Francisco do Rego, igualmente autor de um tratado não publicado, elogiativo dessa casta. Seja verdadeira ou fantasiosa a rivalidade entre os dois padres projetistas, a história de Cipriano da Cruz Gomes como que torna obrigatória a comparação entre as duas igrejas. A planta da Igreja da Piedade é diferente da de Santana. O arquiteto escolheu um partido com grande prestígio na tradição europeia mas que tinha sido pouco utilizado em Goa: a igreja de nave única com capelas laterais inter comunicantes por passagens abertas nas paredes separadoras (recorde ‑se, em Velha Goa, a Sé e Nossa Senhora da Graça). Este partido pode ter sido escolhido, não devido ao prestígio dos antecedentes mas porque o padre Frias - se acaso foi ele de facto o projetista - comparou os simples nichos de Santana com o sistema de descargas de peso posto em prática na Sé, onde as paredes separadoras das capelas laterais acrescentadas às três naves são um verdadeiro sistema de contrafortes. Também diferentemente de Santana, o projetista da Piedade dispensou o clerestório e a igreja tem apenas uma galeria correndo dos dois lados sobre as capelas laterais. Situa ‑se aliás aqui o verdadeiro tour de force da obra: estas galerias são altas, muito largas, parecendo verdadeiras loggias palacianas, dotadas de elegantes arcadas voltadas à nave que admitem uma generosa quantidade de luz. A respiração assim conferida às galerias e arcos não é o único efeito tirado pelo arquiteto do partido planimétrico. Também é diferente de Talaulim o tipo de nave: a Igreja da Piedade é um largo salão e não uma igreja ‑túnel, tanto mais que o sistema de abóbadas é mais parecido com o dos franciscanos em Velha Goa do que com o dos jesuítas em Margão: a nave da Igreja de Divar está coberta por cinco abóbadas de arestas com penetrações entre arcos, quadradas, ligeiramente rebaixadas, uma no cruzeiro, duas na capela ‑mor. Os arcos descem acentuadamente sobre o espaço da nave realçando a sua amplitude lateral. A largura das capelas laterais e das galerias que correm sobre elas permitiu ao arquiteto disfarçar o contrafortamento lateral da igreja, inserindo ‑o dentro de uma caixa de tipo tradicional. A igreja apresenta ‑se exteriormente como um edifício de dois andares com janelas coroadas por frontões triangulares. A articulação ornamental interior é mais caprichosa que a de Santana, e até mais escultural. O arquiteto escolheu a coluna pseudo ‑salomónica como elemento arquitetónico a utilizar tanto na ordem inferior como na superior, juntamente com capitéis compósitos com folhas de palma alongadas e o friso e cornija jónicos tradicionais em Goa desde meados do século XVII. A fachada principal, virada a poente e à foz do Mandovi, é uma réplica da fachada da igreja jesuíta de Margão, mas com a articulação ornamental utilizada no interior.

Paulo Varela Gomes

Loading…