Conjunto de Sobrados

Conjunto de Sobrados

São Luís, Maranhão, Brasil

Habitação

São Luís é a cidade do Brasil com a maior extensão, qualidade e homogeneidade de arquitetura civil colonial, à exceção talvez de Ouro Preto e de Olinda. Sem possuir a monumentalidade destas, compensa‐a por ter sido pensada e construída como um todo, onde o conjunto é o monumento; e mesmo os palácios e sobradões (edifícios residenciais "de sobrado", ou andar, de maior porte) raramente ultrapassam a cércea comum - a não ser nos mirantes, para fazer circular o ar e vigiar a chegada dos navios comerciais do proprietário - e quase fazem por passar desapercebidos. É uma arquitetura bem local, de características adaptadas às condições climáticas equatoriais: calor, chuvadas, e humidade o ano inteiro. É numa panorâmica dos telhados que melhor se tem a visão dessa diversidade na unidade (cerca de 3.500 imóveis, dos quais mais de 2.500 classificados pelo estado), adornada pelo arvoredo dos quintais e pequenas praças. Essas características provêm das reformas pombalinas, que lhe impuseram uma feição quase militar, de tipologias térreas rigorosamente hierarquizadas: porta‐e‐janela, meia‐morada (porta com duas janelas), morada inteira (porta com duas janelas de cada lado) e sobrado (dois pisos). Bastará dizer que o centro antigo da cidade tem apenas dois edifícios modernos de dez andares, e que a casa mais alta da cidade velha não ultrapassa os quatro, toda revestida a azulejo. Em planta seguem também um modelo quase único: em forma de "L" com elevado pé‐direito, longo corredor com persianas móveis de madeira voltadas ao pátio interno para arejamento mesmo sob chuva forte, corredor social de entrada (típico de São Luís) conduzindo à(s) sala(s) de visita, isolado da zona privada por uma cancela em madeira ricamente lavrada. Algumas têm figuras de convite em azulejo, representando um sultão a fumar ou sargentos da infantaria portuguesa. As fachadas são planas, à face da rua, com duplo beiral e friso de telhas azulejadas nas casas mais ricas; os vãos tendem a predominar sobre os cheios, com altas janelas, emolduradas por cantaria do reino nos exemplares mais antigos, abrindo para balcões em ferro forjado de desenhos entre o tardo‐barroco e neoclássico (ferro fundido nos casos tardios) e com vergas retas, ou semi‐circulares já no século XIX. As portas térreas à mesma altura indicam uma casa de comércio, com o porão semienterrado para armazenamento de géneros e alojamento dos escravos e com óculos para ventilação, que se repetem sobre portas e janelas a eixo. O sótão, nas casas nobres, pode ter idêntica função: mas geralmente serve de acesso ao mirante e suporte dos forros, em gra‐ ciosas composições geométricas ou de tábua corrida. A grande inovação do século XVII ao XIX é o azulejo de exterior. Segundo Dora Alcântara, que em 1959 recenseou 270 fachadas azulejadas (em Alcântara elas não atingem a meia dúzia...), em 1778 chegavam a São Luís mais de 107 mil peças de azulejo de Portugal, o que indica um uso já comum; terá sido aqui - e talvez também em Belém do Pará - que um construtor civil anónimo "inventou" essa prática, logo generalizada pela sua adequação ao clima e a um novo gosto estético, e nas décadas seguintes os capitalistas luso‐brasileiros levaram‐na ao Porto e Lisboa. "Petite ville aux palais de porcelaine", chamou um viajante francês em 1837 a São Luís; "grades e azulejos", definiu em síntese uma romancista recente a ambiência urbana. Terão aparecido, primeiro ao longo da Rua do Sol e da Rua da Paz, eixos de expansão comercial ao norte do Largo do Carmo em fins do século XVIII, e na Rua da Palma, a última da Praia Grande, saindo nos anos seguintes para fora desses dois eixos ortogonais. É, naturalmente, nas zonas de ocupação mais antigas da cidade que se encontram os mais típicos conjuntos de habitações. Há, antes de mais, que desfazer um mito persistente: o do "estilo colonial", que no Brasil a opinião comum identifica com programas fechados e austeros, de platibandas, arcos e colunas, janelas e portas de vergas semicirculares tapadas com vidros coloridos, grandes telhados e amplas varandas. Este é, na realidade, o "estilo do império" (1822‐1889), pós‐colonial mas nostálgico das influências portuguesas combinadas às novidades de França e Inglaterra. Realmente colonial, isto é, anterior à vinda da família real para o Rio de Janeiro (1808), é uma arquitetura civil singela e aberta, como os casarões da Lisboa seiscentista, sem preocupações de moda ou de erudição. As construções mais antigas reúnem‐se em torno do antigo Terreiro do Paço: datam da segunda metade do século XVII, mas foram muito embelezadas - para não dizer desfiguradas - no início do XX. No ponto mais alto, caindo a pique sobre o mar, num triângulo assente na primeira fortaleza em pedra de 1630, que por sua vez assenta sobre a estacada de madeira do Fort Saint‐Louis, ergue‐se o belo Palácio dos Leões, sede e residência do Governo; ao lado a Casa da Câmara e Cadeia, feita em 1689 pelo sargento‐mor Barros Pereira. Dessa esplanada, cuja vista se alonga sobre o mar, desce‐se por escusas ladeiras e escadinhas - o Beco de Catarina Mina, o Beco do Trapiche (guindaste dos navios), Rua do Precipício, Beco do Quebra‐Costas... - para o Bairro da Praia Grande, núcleo da velha cidade. O centro é a Praça do Comércio, vasto quadrado ordenado pela corte em 1780 como "praça regular de 40 braças de lado": o cais e, nas outras três faces, sobrados iguais. A eixo, a sala angular do sobradão onde funcionava a Bolsa de Comércio apresenta um extenso mural (recuperado pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1991) com uma versão a cores da célebre gravura de 1775 da Praça do Comércio de Lisboa, um ícone pombalino. Todas as ruas e passeios são lajeados a cantaria lisboeta, sendo a mais interessante a Rua Portugal (antiga Rua do Trapiche), onde ficavam a Alfândega e as grandes firmas de comércio em sobradões revestidos de azulejaria de padrão pintada em vários tons de azul (hoje Museu e Secretaria de Cultura). Num cunhal, uma pedra num sobrado marca o ano simbólico de 1801, primeiro do século XIX. Noutro, o de 1807. Nas ruas paralelas e retilíneas que correm por detrás - Rua do Gis, Rua Formosa, Rua da Estrela - onde é mais patente a homogeneidade de concepção, podem percorrer‐se quilómetros a pé sem deparar com uma peça do século XX. O "Projeto Praia Grande" (1990) recuperou até os bancos de pedra e os candeeiros a gás - agora evidentemente eletrificados, com o acerto de passar os fios sob o chão. É aí que melhor se vê o gosto pela unidade urbana, com todas as casas semelhantes excepto nas dimensões e pequenos detalhes decorativos: o Solar dos Vasconcelos em cantaria, a casa da baronesa de Anajatuba em arrojados quatro andares (hoje sede do Instituto do Património), o sobradão dos barões de Grajaú (atual Faculdade de Farmácia) com discretos ornatos rococó. No mais são idênticas, quase todas com azulejos. As datas de construção ou de restauros podem ler‐se nos gradis de ferro da varanda central ou nas bandeiras das portas: 1816, 1817, 1821, 1827, 1830, 1831, 1855, 1860, etc. A continuidade tipológica secular é um facto, como se todas fossem variantes de um mesmo modelo (talvez o deixado em 1615 pelo engenheiro Frias de Mesquita...): o mais antigo imóvel datável da cidade, o Sobrado do Pacotilha, no Largo do Carmo, ostenta numa placa de pedra o ano de 1756 e é um típico sobradão, que foi uma das casas do industrial irlandês Lourenço Belfort, produtor de arroz e grande amigo do marquês de Pombal. No extremo deste núcleo urbano fica a imensa mole (6000 m2) do Convento das Mercês, de 1645, de igreja demolida: é hoje a Fundação da Memória Republicana, com o claustro e salões adaptados a espetáculos musicais, tendo por fundo o belo estuário do Rio Bacanga - e, ao longe, Alcântara. Ao lado do convento ergue‐se a Cafua das Mercês, uma estranha pequena construção retangular, de dois pisos, iluminados por estreitíssimas frestas: era uma "cafua" (casa onde se guardavam os escravos antes de serem postos a leilão), hoje Museu do Negro, onde ainda se podem ver grilhões na parede a que eram acorrentadas as "peças" por pés e mãos. É talvez a única cafua intacta que resta no Brasil.

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