Casa Proença

Casa Proença

Calangute, Goa, Índia

Habitação

No seu conjunto, a Casa dos Proença de Calangute apresenta ‑se como um interessante caso de tipologia de fachada principal de dois andares, com piso nobre marcado por uma sequência de janelas de sacada que, entroncando numa antiga tradição da casa senhorial portuguesa, se irá diluir no século XIX face às tradições da arquitetura doméstica hindu, em que se constrói com apenas um piso sobrelevado. Se tais características nos permitem situar a construção desta casa no século XVIII, a sua morfologia apresenta ainda uma rara varanda em forma de torreão com telhado de quatro águas, adossada à fachada principal. Revestida de carepas ao nível do primeiro andar, o embasamento deste torreão ostenta ainda interessantes bases de colunas de desenho manuelino, sugerindo a existência de uma torre inicial, transformada posteriormente em varanda, e a influência de modelos ligados com os desaparecidos palácios da nobreza portuguesa. Ao centro da fachada, o portal de entrada dá acesso, através de um corredor, a um pátio interior onde se desenvolvem as escadarias que levam ao andar nobre. O lance único de início destas escadarias desdobra ‑se depois em dois lances simétricos, manifestando um claro sentido barroco. Na estrutura destas escadas integra ‑se, por sua vez, um vasto alpendre que repousa sobre elegantes colunas de pedra oitavadas com capitéis toscanos. O patamar superior do alpendre forma uma galeria de acesso aos salões, nela se distribuindo bancos corridos. Todo o espaço semi ‑aberto propicia a livre circulação de ar, acusando uma sofisticada adaptação ao clima quente e húmido da Índia. Caso raro, o interior do edifício apresenta uma planta particularmente erudita com um programa retangular simétrico, envolvendo o pátio central, em que os espaços e o desenho de portas e janelas se apresentam rigorosamente iguais. Traduzindo uma acomodação às tradições da casa tradicional hindu, o corpo do edifício situado nas traseiras estrutura ‑se em um piso térreo, sendo marcado, ao centro, por uma tradicional casa de jantar vasary de proporções estreitas e compridas, que concentrava a vida quotidiana da casa, apoiada pelos compartimentos de serviços distribuídos no piso térreo, relegando os salões do andar nobre para situações especiais de representação. No seu conjunto, a casa dos Proença de Calangute revela na fachada de dois pisos e na erudição do desenho arquitetónico um modelo de casa senhorial implementado pelos portugueses, onde pequenas variações traduzem uma cuidada adaptação ao clima e aos costumes das grandes famílias brâmanes e chardós goesas.

Helder Carita

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