Fortificação

Fortificação

Aguada, Goa, Índia

Arquitetura militar

A Península de Aguada, localizada no lado norte da barra do Rio Mandovi, foi escolhida para a edificação de uma das maiores fortificações construídas pelos portugueses na Índia, comparável em dimensão às praças de Baçaim ou Diu. A sua localização geográfica e características arquitetónicas apresentam fortes analogias com a Fortaleza de Mormugão, que defendia a embocadura do Rio Zuari. Iniciada em 1604 pelo engenheiro Júlio Simão, é provável que o essencial das extensas obras em Aguada estivesse concluído em finais do século XVII, embora tenham existido várias reformas ou reconstruções pontuais em datas posteriores. Atualmente continua em funcionamento uma prisão, aproveitando as construções de origem portuguesa. Desde muito cedo que as embarcações que demandavam o Rio Mandovi se reabasteciam de água nas nascentes do atual Morro de Aguada. Em 1604 uma armada holandesa, composta por sete velas, fundeou durante um mês numa baía perto daquela península, não tendo os navios sofrido qualquer dano provocado pelos tiros da Fortaleza dos Reis Magos ou pela artilharia do Forte de Gaspar Dias. Este incidente demonstrou a fragilidade defensiva dessa zona da barra. Consequentemente, o vice ‑rei Aires de Saldanha ordenou de imediato a edificação de uma nova fortificação que defendesse não apenas a zona de reabastecimento de água, mas também todo o flanco sul da península, de modo a guardar eficazmente a embocadura do rio e permitir a circulação de embarcações ao abrigo do varejamento da sua artilharia. Em 1606 já se encontrava operacional a denominada Fortaleza Real, na zona ribeirinha do flanco sul da península, tendo sido concluída seis anos mais tarde, conforme uma inscrição no local. Detinha um extenso parapeito (cerca de cento e quinze metros) de traçado irregular, a partir do qual poderiam disparar dezanove peças em seis ângulos diferentes. Na parte norte da estrutura situavam ‑se as casas de sobrado do capitão, dispostas em redor de uma edificação principal, orientada a este ‑oeste. Integrada nesta edificação, e a eixo dela, situava ‑se a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem. Mais para leste ficava o armazém de munições, mais tarde convertido em prisão militar; próximo deste edifício localizava ‑se ainda a Porta do Rio, sob uma estrutura que servia de aquartelamento de tropas. No extremo oposto da Fortaleza Real ficava a Porta Norte, protegida ainda por um baluarte cavaleiro. Coroando todo o complexo, numa elevação cerca de cento e setenta metros a norte, erguia ‑se um farol, equipamento que figura já num mapa datável de 1615. Concluída a construção deste primeiro núcleo lançaram ‑se, a partir da Fortaleza Real, várias muralhas ou couraças, tanto para norte, em direção à elevação do farol, e onde mais tarde se edificou a cidadela, como para oeste e leste, ao longo da orla da península. De notar que, após 1961, a Fortaleza Real foi transformada na principal prisão do território de Goa, tendo as suas estruturas sofrido várias alterações, embora mantivessem no essencial a implantação e volumetria do período português. Pouco tempo depois de se iniciar a Fortaleza Real, construiu ‑se uma cortina ribeirinha em direção a leste, até à zona das nascentes de água potável. Estas foram canalizadas, em 1624, para uma fonte monumental que figura na vista das terras de Bardez incluída no códice de António Bocarro. Esta área, situada cerca de duzentos metros a nordeste da Fortaleza Real, acabaria por congregar ainda a Bateria ou Baluarte do Mar, junto do qual se edificaram aquartelamentos e outras estruturas de apoio ao cais de desembarque que, em 1635, ainda não estava concluído. Para o lado oeste da Fortaleza Real partia outra cortina, acompanhando o desenho da orla numa extensão de aproximadamente setecentos metros e conduzindo até ao baluarte de oeste. No lado noroeste da península, já sobre a praia de Candolim, foi edificado um baluarte de forma semicircular, unido à terra firme por aterro. Conhecido posteriormente como Baluarte de D. Maria, foi provavelmente edificado antes de 1635 mas sofreu intervenções posteriores. A restante secção de muralha, que viria praticamente a unir o Baluarte de D. Maria ao Baluarte do Mar, rodeando os flancos norte, leste e sudeste da península, aparenta ter sido obra iniciada após 1635 e executada a ritmo mais lento. Incluía outros cinco baluartes e duas portas, sendo que a principal se integrava no Baluarte da Cava e era acedida por uma ponte levadiça. Mais a leste, situavam ‑se os baluartes de Mamam e de São Lourenço, entre os quais havia uma extensão de orla não fortificada. Todo este perímetro defensivo, situado à cota baixa da Península de Aguada, totalizava catorze baluartes e estendia ‑se por cerca de quatro quilómetros e meio, compreendendo aproximadamente cento e cinquenta canhoneiras. A robustez deste perímetro defensivo era variável; contudo, as secções mais desenvolvidas, dos lados sul e noroeste, permitiam o transporte de peças de artilharia entre os baluartes. Na zona mais elevada do Morro de Aguada situa ‑se a fortificação outrora designada por Cidadela, unida à Fortaleza Real através de duas cortinas e ligada a outros pontos estratégicos da península por estradas. De forma aproximadamente quadrangular, este forte compreendia três baluartes regulares e um quarto reduto, no canto sudeste, onde se localizava a torre do farol. As dimensões desta fortificação e o traçado dos seus baluartes têm claras afinidades com o Forte de São Jerónimo, em Damão. Provavelmente, resultam da mão do arquiteto Júlio Simão em ambas as obras. Sabemos através de António Bocarro que o essencial da fortificação estava concluída por 1635, embora o fosso que a envolve aparente ser de uma data posterior, dado o desenho elaborado da sua contra ‑escarpa. Os dois baluartes voltados a norte são os mais desenvolvidos, apresentando orelhões e casamatas de flanqueamento. No reduto sudeste, no qual está o farol, situa ‑se a porta principal, defendida por duas canhoneiras. A sul deste reduto situava ‑se o paiol. Daqui partiam as duas couraças que acompanhavam o declive da encosta até à fortificação ribeirinha. Estas detinham baluartes a cotas intermédias. No interior do recinto da cidadela localiza ‑se ainda uma grande cisterna de forma quadrada. Para além destes dois grandes grupos de estruturas - perímetro ribeirinho e cidadela - existiam várias outras estruturas no interior da Península de Aguada, construídas a partir do século XVII. Destas, destacam‑ ‑se a Igreja de Sinquerim e a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, para além de diversos edifícios de aquartelamento ou armazenamento. O sistema fortificado de Aguada manteve algum do seu valor estratégico até meados do século XIX. Não só providenciava sinalização e água às embarcações que cruzavam a barra do Mandovi como mantinha ainda a prisão militar e estruturas para exercício das tropas. Foi uma das três posições a ser ocupada pelos ingleses durante as guerras napoleónicas, entre 1804 ‑1813, conjuntamente com Mormugão e Nossa Senhora do Cabo. A extensão e complexidade deste sistema defensivo constitui um dos exemplos mais interessantes de todo o universo do antigo Império Português, resultando numa verdadeira lição sobre os modos e métodos de fortificação empregues pelos seus engenheiros militares.

Sidh Losa Mendiratta

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