Igreja e Convento da Ordem Primeira de São Francisco

Igreja e Convento da Ordem Primeira de São Francisco

Salvador, Bahia, Brasil

Arquitetura religiosa

Este magnífico conjunto arquitetónico materializa aspectos determinantes na formação da mentalidade e identidade dos habitantes de Salvador, assim como as diversas etapas que representou em sua conformação física. Situado originalmente no interior das muralhas que cercavam a cidade, possui a fachada principal da sua igreja direcionada para um adro alongado, onde se localiza o cruzeiro, elemento importante para a liturgia franciscana e para a demarcação de um espaço urbano considerado sagrado. Da primitiva pobreza construtiva, característica dos primeiros tempos da ordem franciscana e presente nas suas primeiras instalações edificadas no local entre os séculos XVI e XVII, o conjunto vai perdendo o despojamento dos edifícios, na medida em que estes, ao longo dos anos, vão sendo substituídos por outros mais adequados aos novos tempos, em que o enriquecimento decorativo faz esquecer a austeridade pregada pela Igreja, no primeiro momento da Contra‐Reforma. Em 20 de dezembro de 1686, dia da festa de Santo António de Argoim, foi lançada a pedra fundamental da atual estrutura conventual. As obras tiveram início imediato, com a construção da quadra dos corredores. Os livros dos Guardiões do Convento informam que em 1707 as obras do convento já estavam concluídas, sendo neste caso considerada toda a parte estrutural e alguns acabamentos como a enfermaria e a sala do capítulo, à época já forradas e azulejadas. Ao lado da severidade determinada pelo discurso franciscano, a presença do luxo e da riqueza ornamental amparava‐se na lógica de que, para os espaços destinados ao culto divino, todo o refinamento e riqueza eram poucos. O claustro, símbolo da vida conventual, era um local de convergência comunitária e de meditação, espécie de continuação da igreja. Nele também eram realizadas atividades litúrgicas, como procissões internas, e por isto era um dos espaços de maior esmero quanto ao acabamento construtivo. Foi executado a partir de 1707, contudo só totalmente concluído em 1748, com a colocação dos painéis de azulejos que recobrem todas as suas paredes. A igreja do convento franciscano de Salvador é considerada uma das mais ricas e luxuosas do Brasil. Sua construção foi iniciada com grande festa em 1708 e em cinco anos já apresentava condições para a realização de missas. No entanto, a estrutura completa da nova igreja, com seu frontispício, só foi concluída em 1723. Ela possui nave única, curta em relação à largura, com capelas laterais intercomunicantes, distinguindo‐se das demais construções franciscanas do Nordeste brasileiro. Os trabalhos em talha do seu interior, embora possivelmente frutos de um mesmo projeto, prolongaram‐se pelo menos até meados do setecentos. O resultado final configura um exemplo claro do barroco nacional português; nele o ornamento não é um elemento dissociado da estrutura, que pode ou não ser acrescentado à construção. A verdade, neste caso, é que a arquitetura é simultaneamente estrutura e decoração. O frontispício da igreja também difere das construções franciscanas do Nordeste, já que tem duas torres e não possui galilé. Em lugar dessa última, a porta central aparece ladeada por duas outras menores, em forma de arco de triunfo. Também observada na Igreja do Colégio dos Jesuítas de Salvador, atual Catedral Basílica, a solução da fachada dividida em cinco partes, no sentido vertical, aqui resulta em uma composição bem mais movimentada e barroca, onde se destaca o jogo de volutas que compõem o frontão. A imagem de São Francisco, esculpida em mármore branco - atualmente recoberto por camadas de tinta -, foi colocada no nicho da fachada, sob o brasão da ordem franciscana, no final da primeira metade do século XVIII. Também é de época posterior o revestimento com azulejos lisos das torres, o que acentua ainda mais a presença do corpo central da fachada, esculpido em arenito escuro.

Eugénio Ávila Lins

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