Igreja de Nossa Senhora da Conceição

Igreja de Nossa Senhora da Conceição

Mandapeshwar (Manapacer, Mount Poinsur), Área Metropolitana de Mumbai (Bombaím), Índia

Arquitetura religiosa

A data de fundação da Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, situada alguns metros a sul, deve ter ocorrido pouco depois de 1552. O conjunto conventual e colégio estendia‐se desde a igreja até alguns pátios e claustros, provavelmente três, com corpos edificados à sua volta, situados sobre a plataforma rochosa debaixo da qual estava o antigo templo. Ainda existem atualmente ruínas dos edifícios sobre a plataforma. As estruturas do colégio, contíguas à igreja, foram ampliadas ou reconstruídas entre 1630 e 1660. Cerca de 1630, o colégio de Manapacer integrava cem rapazes, aos quais se ensinava a ler, escrever e cantar, e ainda órgão e gramática. Aos missionários competia prover às viúvas e desamparados da aldeia. A paróquia ou reitorado de Manapacer compreendia cinco aldeias: Manapacer, Dainça, Simpol (ou Simpor), Caneri e Casi (ou Cassor), segundo Frei Paulo da Trindade. Em 1680, o colégio franciscano de Manapacer contribuía anualmente para as despesas das obras efetuadas na Igreja do Espírito Santo em Goa, o que parece significar que as suas próprias obras estavam concluídas. A aldeia dos indianos convertidos desenvolveu‐se no sopé da elevação imediatamente a nascente ou sul da igreja. Segundo Gerson da Cunha, ainda se viam as ruínas da aldeia no fim do século XIX. O convento, o colégio e a igreja foram saqueados pelas forças maratas em 1737, tendo sido votados ao abandono. Não podemos reconstituir precisamente o modo como o templo foi apropriado por Frei António do Porto e os seus companheiros, porque o sítio deve ter sido alterado algumas vezes entre o século XVI e a primeira descrição de que dispomos, do francês Anquetil du Perron, que visitou Manapacer em 1760, já depois da conquista marata e do regresso da gruta ao culto hindu. Anquetil publicou a primeira planta do sítio.(a segunda foi elaborada no âmbito do projeto BBB, Bombaim antes dos Ingleses... em 2007). Em 1882, a Gazeta da Bombay Presidency informa que os católicos tinham acabado de regressar a Mandapeshwar: "a gruta foi adaptada a uma igreja portuguesa com um altar muito simples e uma imagem de madeira da Virgem Maria sentada, localizada no extremo sul, e um púlpito a meio da parede oeste". E de facto, uma fotografia tirada em 1908 e outra feita sessenta anos depois, com a igreja já abandonada, mostram‐nos o pórtico do templo fechado, um altar a sul, um púlpito a oeste. Outras fotografias, tanto de 1908 como de 1968, dão a ver uma imagem de Nossa Senhora da Piedade colocada no altar. Atrás do altar, bloqueando a câmara ao fundo e a fechar o pórtico, as paredes parecem feitas de materiais leves, provavelmente tijolo ou taipa. No interior, a parede ao fundo bloqueia um espaço antes usado como capela‐mor da igreja antiga (de facto, a Gazeta de 1882 dá notícia disso, referindo também um gradeamento como em qualquer igreja). A localização da antiga capela‐mor na câmara a sul aproxima‐a de um grande espaço retangular aberto na rocha que tem um banco de pedra a toda a volta, e pode ter sido a sala do capítulo ou o coro dos frades. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição é de uma só nave, coberta por telhado de pendente aguda. Tem transepto, o que é muito raro na arquitetura da Província do Norte. Tanto a capela‐mor como o transepto estão cobertos por abóbadas de berço com caixotões. As imagens que podiam ser imediatamente presentes a quem entrava na igreja foram destruídas: vêem‐se ainda os traços de uma escultura irreconhecível do lado norte da entrada. Todas estas informações confirmam observações feitas por Anquetil du Perron mais de um século antes. Em 1806 um viajante britânico chamado Henry Salt, que mais tarde se tornaria um egitólogo famoso, mencionou "uma reentrância à esquerda quando entramos onde há a pintura de um santo ainda bem visível na parede", e continuou, escrevendo que não podia deixar Mandapeshwar sem "tomar nota de que não há outro sítio no mundo onde imagens católicas e pagãs estejam em contacto tão estreito como aqui - onde um mosteiro português tem um templo de hindus por fundação e onde as proezas do seu deus terrífico estão esculpidas de um lado e a forma de um manso santo cristão do outro". Alguns viajantes do início do século XIX e a Gazeta de 1882 referem paredes construídas para bloquear a vista das esculturas hindus mais importantes, em espe‐ cial o grande grupo de figuras culturais de Shiva, que se encontra na câmara utilizada como capela‐mor da igreja. Estas fontes também descrevem imagens cobertas com cal nos dois nichos que ladeiam a câmara axial. O autor do texto da Gazeta suspeitou que as imagens esculpidas nos pilares do pórtico teriam sido des‐ bastadas de modo a deixar somente os capitéis sobre fustes finos, de modo a tornar as colunas mais clássicas e europeias. De facto, se compararmos os pilares de Manapacer com os de Elephanta - de longe o mais conhecido templo da área de Bombaim - que têm o mesmo tipo de capitéis, podemos imaginar como teria sido o pórtico original de Mandapeshwar. Os edifícios situados sobre a plataforma rochosa ficaram arruinados mais depressa que a igreja e o claustro. Em 1839 um observador britânico escreveu: "As ruínas de Manpesir consistem numa grande igreja e torre e um pátio quadrangular, de que se conservam ainda os arcos de pedra". Esta descrição ainda se aplica ao que vemos hoje no local, com exceção da torre da igreja, situada ao flanco da capela‐mor, e dos arcos do claustro. Tudo isso desapareceu, mas ficou registado numa fotografia datada de 1908. A igreja foi restaurada em 1888 por uma comissão de católicos de Bandra dirigida pelo vigário da Vara de Taná, João Braz Fernandes, como diz uma placa em português afixada no interior. Foi feito o telhado, um pavimento novo, o altar gótico, pináculos góticos na fachada principal, um coro alto. O local foi visitado e documentado em 1968 pelo fotógrafo Walter Spink, pouco antes de a gruta ter sido completamente reconvertida ao hinduísmo e se terem obliterado quase todas as marcas do período católico. De facto, depois de várias intervenções de organismos administrativos do estado indiano e da recente reinstalação de um templo hindu da câmara central e no pórtico da gruta, o único sinal que resta da antiga igreja é uma cruz num nicho, provavelmente esculpida a partir de um motivo cultual de Shiva.

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