A Casa Tradicional

A Casa Tradicional

Diu, Guzerate, Índia

Habitação

A planície domina praticamente todo o território, quer na ilha, quer na pequena porção do continente que até 1961 esteve sob dominação portuguesa. Nessas grandes extensões de terreno aberto a escassez de água faz ‑se sentir, devido à porosidade do solo, de tom amarelado, resultante da desagregação dos calcarenitos oolíticos, pelo que os poços são a alternativa na obtenção de água para rega, tornando extremamente difícil a agricultura. Nalgumas localidades observam‑se grandes eiras circulares e respectivas debulhas. Pequenas matas de diferentes espécies cercam os campos e aí se acolhem as aldeias ou pequenos aglomerados. As palmeiras Garli e outras espécies bordejam grandes extensões dunares, interrompidas pontualmente por salinas. Os núcleos mais significativos, como Pódramo, Bunxivará, Brancavará e Gogolá, desenvolveram ‑se enquanto estruturas urbanas irregulares, destacando‑se nalgumas delas a igreja, o respectivo adro e o acesso enquanto elementos estruturantes; nalguns casos terão constituído um tímido núcleo embrionário de uma organização administrativa, onde a igreja desempenhava uma função determinante na coesão social, destacando ‑se das demais Fudam e Brancavará. As tipologias rurais são predominantemente de piso térreo, com alpendre ao correr da fachada, por vezes parcialmente ocupado com a adição de um compartimento num dos lados. Genericamente, as coberturas são de duas águas, proporcionando em algumas o aproveitamento do desvão para arrumos diversos, através de um improvisado estrado de varas e pranchas que se apoiam em esteios e frechais de madeira, formando o suporte da armação principal. No caso das aldeias de Malála e Nagoá, as casas agrupam ‑se encostadas entre si, formando planos de ruas muito estreitos para proteção solar e da chuva da monção. São os alpendres fronteiros que permitem maior desafogo e consequentemente um lugar de convívio entre familiares, saudação e conversação entre vizinhos. Um singelo muro de alvenaria corrido, paralelo à fachada, não só delimita o espaço exterior coberto privado como serve de banco e de suporte das colunas em alvenaria rebocada, ou em toros de madeira. As casas são elementares na sua estrutura tipológica: praticamente são divididas entre a zona de confecção, ou seja, a cozinha sempre com fogo de chão em pequena elevação formando uma fornalha e respectiva área de comer em redor, tendo no lado oposto uma zona dividida por um tabique rebocado. Nesta área guardam‑se haveres diversos, como roupa, recipientes com produtos da terra, etc. Em ambos os espaços se observam camas de estrado de corda tensionada entre travessas, formando um quadro com pés de madeira. Em algumas casas e apenas sobre a zona oposta à cozinha, o estrado superior, quando totalmente compacto, permite a sua utilização, através de um alçapão, para arrumos mais valiosos e pontualmente para dormir. Nas aldeias de Patelwadi e Buchiwadi, as casas de dois pisos destacam ‑se das demais pelas varandas corridas em madeira. Nesta como nas outras aldeias, as atividades artesanais mantêm uma importante linhagem de família de artesãos, com destaque para os carpinteiros. Nas casas de sobrado, a escada é interior em madeira e a compartimentação mantém ‑se elementar. O piso sobradado é composto por vigas de madeira colocadas no sentido da menor dimensão, recebendo pranchas de forro ou placas de cantaria argamassada sobre o vigamento, como nas casas da cidade de Diu. As coberturas são de duas águas e por vezes rasgam‑se vãos nas empenas em ambas as tipologias, respectivamente de piso térreo e sobradadas. A elevação das paredes exteriores e interiores, quando estruturais, é feita em alvenaria de pedra calcária local, que se prepara com instrumentos de corte manual, como sucede em Goa com a laterite, seguindo ancestrais bitolas. As argamassas tradicionais de areia e cal estão atualmente a ser substituídas pelo cimento, mantendo ‑se contudo as tintas de pigmento misturadas na cal de cores fortes, ainda que o branco predomine. A casa linear modesta de empena com porta e duas águas, em acentuado desaparecimento, constituirá o testemunho de uma tipologia primitiva associada às hortas, aos campos da lavoura e respectivas eiras. Extremamente baixa, esta casa mais parece um abrigo temporário, ou um celeiro como os de Goa em laterite; no entanto, até há bem pouco tempo constituía uma prolífera tipologia, que com grande probabilidade terá sido o modelo básico das tipologias elementares. Na aldeia de Patelwadi, observamos esta pequena construção localizada fora do núcleo e junto do mesmo, onde a porta da fachada de empena curiosamente transita para a fachada lateral, proporcionando um pé ‑direito mais favorável, em virtude da necessidade de altear os frechais laterais. Ainda na mesma aldeia observamos o que parece ser a continuidade da inovação da mesma casa, em termos de escala, proporção e compartimentação, com a introdução de um simplificado alpendre. O território de Diu engloba ainda a península e a aldeia de Gogolá, densamente povoada, com o núcleo fundador junto ao arco da aldeia sobrepujado por uma casa ‑torre, e o cruzeiro, símbolo do cristianismo neste lugar. A maioria das casas é de piso térreo com cobertura de duas águas, ainda que na zona central tenha dois e três pisos, algumas com varandas e outras com açoteias.

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