Capela de Santa Catarina

Capela de Santa Catarina

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura religiosa

A Capela de Santa Catarina foi erguida junto à porta da muralha de Goa muçulmana, por onde em 1510 as tropas de Afonso de Albuquerque penetraram na cidade. A capela situava ‑se igualmente perto do local do desaparecido Hospital Real, que se erguia a norte do Convento de São Francisco. Originalmente uma modesta construção de taipa e de cobertura de palha, foi reconstruída em 1550 por ordem do governador Jorge Cabral. Esta informação é ‑nos confirmada por uma lápide colocada na parede oriental da capela: "AQUI NESTE LVGAR ESTAVA A PORTA PORQVE ENTROU O GOVERNADOR Å DALBOQUERQUE E TOMOU ESTA CIDADE AOS MOUROS ˜e dIA DE SANTA CATARINA ANO DE 1510 EM CVJO LOVVOR E MEMORIA O GOVERNADOR JORGE CABRAL MÃDO FAZER ESTA CASA ANO DE 1550 À CUSTA DE S A" Em 1607 a capela voltou a sofrer obras, das quais resultou o edifício que os fotógrafos D’Souza e Paul registaram e que conhecemos através de um postal. A articulação em grelha usual nas fachadas de igrejas goesas, com pilastras e entablamentos classicamente bem definidos, estava aqui patente e exemplarmente simplificada e adaptada à escala da capela. Dos cinco tramos, usuais nas igrejas com torres na fachada, existiam apenas três, ainda que as pilastras menores da articulação da janela central introduzissem alguma ambiguidade nesta estrutura. Apenas os panos axiais da fachada tinham aberturas - portal no piso térreo, janela no segundo piso - assim como os andares de topo das torres. A Capela de Santa Catarina foi o primeiro edifício a ser intervencionado pelo arquiteto Baltasar de Castro, numa mega‑operação de restauro e saneamento da velha cidade, como preparação para a exposição do corpo de São Francisco Xavier em 1952. A acreditarmos na descrição de Francisco Xavier Costa, Baltasar de Castro, um alto funcionário da Direcção‑Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, procedeu da maneira habitual daquela instituição pública e pouca da substância histórica da capela terá ficado intocada: abóbadae parede sul da capela ‑mor, varanda a poente e escadaria, assim como a sacristia, foram apeadas e reconstruídas com os materiais originais. Ainda segundo Francisco Xavier Costa, a parede do corpo da capela do lado do evangelho foi também ela apeada, com exceção de um troço em volta da porta da muralha muçulmana, por onde terão entrado as tropas de Albuquerque. Também a fachada sofreu alterações, tendo sido a destruição do entablamento entre os seus dois pisos exteriores a mais gravosa. Hoje, as duas ordens de pilastras sobrepõem ‑se através de absurdos troços de entablamento entre elas, evidenciando um desrespeito pelas regras clássicas que nunca existiu na composição de articulações arquitetónicas das igrejas goesas. Para além disto, esta situação simula uma ordem colossal, algo igualmente nunca visto em fachadas de edifícios religiosos do século XVI e de princípios do século XVII. Deste modo, deixou de ser evidente a filiação desta fachada no tipo de fachadas de igrejas goesas. Todas estas obras de restauro condicionaram grandemente este edifício enquanto documento histórico, do mesmo modo que as intervenções da Direcção‑Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais o fizeram em inúmeros monumentos em Portugal. Independentemente desta situação, a Capela de Santa Catarina, juntamente com a Capela de Nossa Senhora do Monte e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, ilustra o primeiro modo de cristianização do território goês (mas ao contrário desta última igreja, as reconstruções posteriores das referidas capelas não lhes alteraram o carácter de objeto votivo, uma vez que não foram ampliadas para outras funções, como a de igreja paroquial). Este modo consistiu na marcação do território através de capelas votivas, para agradecimento do que se considerava serem graças divinas, concedidas na conquista desse mesmo território. A sua localização é, portanto, sempre simbólica, ligada ao ato da conquista e/ou da promessa. A história associa a fundação ou o compromisso da construção destes três edifícios religiosos ao conquistador de Goa, Afonso de Albuquerque. A ocupação religiosa do território através da materialização do testemunho da Graça pelo edificado acontecia ainda antes da estruturação do território em termos da organização hierárquica em dioceses e paróquias.

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