Palácio dos Santana da Silva

Palácio dos Santana da Silva

Madgaon [Margão], Goa, Índia

Habitação

Provido de altos telhados em tesoura de forte inclinação, o Palácio dos Santana da Silva, em Margão, é o último exemplo de uma tipologia que se constituía como uma característica típica dos grandes palácios e conventos goeses, como podemos comprovar através dos desenhos de Lopes Mendes ou da coleção de fotografias realizadas por Souza e Paul nos finais do século XIX. O palácio perdeu, no entanto, os seus sete telhados, que lhe valeram a designação em concanim: Sat Bunzam’ Gor, apresentando hoje apenas os três que cobrem o corpo da fachada principal. A grandiosidade com que este palácio se ergue é um claro testemunho do poder e preponderância que as famílias brâmanes adquirem na administração do império português a partir de meados do século XVIII. Foi mandado construir, na segunda metade do século XVIII, por Ignácio Sebastião Santana da Silva, personagem que durante décadas ocupa o lugar de oficial maior da secretaria do Governo‐Geral do Estado da Índia. A permanência da família na casa e a sua estabilidade dentro da mais alta nobreza brâmane transformam este palácio num documento único, não só no campo da arquitetura indo‐portuguesa, como no âmbito das artes decorativas. Quanto ao tratamento das fachadas, transparece um antigo esquema maneirista da valorização das pilastras com alternância rítmica de janela‐pilastra, perdurando formas tradicionais instituídas ao longo dos séculos como características típicas da arquitetura civil indo‐portuguesa. De desenho seiscentista são igualmente as varandas das sacadas do andar nobre e as pequenas consolas de apoio, a que o tardo‐barroco goês distraidamente parece esquecer‐se de dar um cunho barroco. O eruditismo do seu programa arquitetónico, se testemunha o alto nível da cultura arquitetónica goesa, sugere, com toda a segurança, a presença de um arquiteto como autor do projeto. A forma como o palácio integra, na estrutura dos interiores, as tradições goesas e muito particularmente os costumes das famílias brâmanes, indica que o autor tinha um vasto conhecimento da cultura indiana. Disto é exemplo a forma como, rigorosamente, dentro das tradições bramânicas, o vasary se interliga no programa interior, ou como resulta a implantação do edifício num terreno inclinado que, embora apresentando uma fachada principal de dois andares, acaba por funcionar no dia‐a‐dia com apenas um piso, mais uma vez na mais pura tradição arquitetónica indiana. A maneira como é enfatizada a capela no programa arquitetónico, ocupando a zona central e estabelecendo‐se como núcleo gerador de todos os espaços interiores, sugere que, para além de goês, o arquiteto seria um padre jesuíta com larga prática na arquitetura religiosa. A localização inusitada da capela, a meio do núcleo das escadarias, transforma os pata‐ mares e lances de escada em espaço religioso, conferindo ao conjunto uma notável monumentalidade eclesiástica e barroca, mas cuja ritualidade se mantém profundamente privada e endógena. No interior da casa e voltada sobre si, a capela é assim claramente interpretada como um pequeno templo aos antepassados, o que a sua invocação a Sant’Ana torna mais evidente ao coincidir com o nome dos proprietários: Santana da Silva. É porém na forma original e cenográfica como a cabeceira da capela é resolvida, abrindo duas janelas por trás, mas a quarenta e cinco graus, que o autor revela sofisticada competência. Ao desenhar‐se em meia‐lua, numa estrutura aberta e separada da parede, o altar é envolvido por uma luz cuja fonte, não sendo perceptível, confere ao espaço um raro efeito de claro‐escuro. A partir deste núcleo central de capela e escadarias desenvolve‐se todo o programa, que se estrutura em torno de um grande pátio interior. Ao longo da fachada principal localizam‐se três salões, situando‐se um quarto salão de maiores proporções sobre a fachada virada a poente. Este salão, que cumpria as necessidades de um grande espaço para reunir os convidados nas importantes cerimónias de casamentos, é, pelo seu afastamento da outra zona dos salões, ainda o sadery tradicional da casa hindu. Bastante significativa é, porém, a longa casa de jantar, colocada perpendicularmente à entrada principal, cujas proporções e forma preservam o mais puro espírito do vasary hindu. Aberto sobre o pátio interior por uma sequência de janelas, na lógica formal das varandas de carepas, o vasary adquire, na intimidade do interior, uma frescura de gosto goês. Sem dúvida revestida de carepas seria a varanda que se localizava ao longo da fachada poente, onde a influência portuguesa é mais evidente. No interior, apresentam‐se tetos falsos vazados com uma sóbria decoração. Estes tetos permitiam a circulação do ar para o forro do telhado, estabelecendo uma refrigeração do ar, que entrava pelas portadas de baixo das janelas, enquanto as superiores se mantinham fechadas. As escadarias e algumas dependências, como o vasary, guardam os tetos primitivos, com interessantes desenhos formando grelhas de ventilação do ar. As atuais pinturas, fruto de sucessivos restauros, afastaram‐se da qualidade estética das primitivas decorações mas evocam os temas decorativos setecentistas e o hábito de pintar as paredes com imitações de tecidos. No arco do portal e nas paredes interiores da capela ainda se podem observar pinturas de grande qualidade estética, reproduzindo motivos de tecidos lavrados. O pátio interior conserva ainda um poço de onde era retirada a água privativa dos senhores da casa. Tanto as lavagens como a preparação dos alimentos eram feitas com esta água, numa cozinha rigorosamente separada da dos criados a fim de impedir qualquer contaminação. Já no século XX, a diminuição drástica do número de criados, que eram em enorme quantidade no século XVIII, levou à demolição de grande parte da zona de serviços do palácio.

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