Sé e Paço Episcopal

Sé e Paço Episcopal

Macau, Macau, China

Arquitetura religiosa

A atual Sé Catedral é da invocação da Natividade de Nossa Senhora e está implantada numa das zonas mais elevadas da urbe, não muito longe do local onde inicialmente ficava um dos postos alfandegários. Está rodeada - embora a uma distância que a diferença entre o clero secular e o clero regular deveria impor - pela Santa Casa da Misericórdia, pelo Convento de Santa Clara e pelo Mosteiro de São Domingos. Como referência, diga‐se que também se situa no início da subida para São Paulo. Parece assim poder entender‐se que a diocese de Macau desejava apresentar‐se, até de um ponto de vista simbólico, como o centro da atividade religiosa da cidade. Urbanisticamente, e com evidentes implicações nas questões da sociabilidade de tempos idos, no atual Largo da Sé confluem velhas vias estruturantes, aliás portadoras de nomes consolidados, que atestam a eficácia da instituição como pólo atrativo: Rua da Sé, Calçada da Sé, Beco da Sé, etc.
Temos provas documentais de que em 1564 já havia em Macau uma igreja a que chamavam principal, da invocação de Nossa Senhora, mas a dignidade catedralícia só foi conseguida pela bula Super Specula, de Gregório XIII, datada de 25 de janeiro de 1576.
Era então uma construção muito pobre, toda feita de madeira, e não sabemos ao certo qual era a sua situação. É natural que nesta ocasião tenha sido melhorada e deslocada para uma situação mais conveniente, pese embora as dificuldades sempre levantadas pelas autoridades chinesas.
A instituição da diocese de Macau obrigou à construção de uma residência episcopal ou à adaptação de casas já existentes, e ainda à criação de espaços próprios para o cabido, o cartório e outras dignidades e atividades necessárias à vida quotidiana de uma instituição como esta.
A documentação que existe acerca das etapas construtivas, mas que nem sempre é muito explícita, leva‐nos a pensar que a nova igreja era maior que a anterior, embora ainda feita de taipa, e que ficou com a fachada virada para oriente, tendo o pequeno paço episcopal anexo, considerado provisório, a um canto.
Avançando no tempo, anotemos uma carta de janeiro de 1744, que mostra a aflição do bispo devido à ruína iminente provocada pela formiga branca. Dizia o prelado que não tinha dinheiro para a reconstrução e que não deixava de lembrar o rei D. João V das suas obrigações, como padroeiro que era daquela catedral ultramarina. O bispo propunha‐se dar parte da côngrua, mas o estado de penúria da população não permitia adivinhar grandes esmolas. Este estado de ruína encontrara‐o em novembro de 1742 Hilário de Santa Rosa, quando chegou a Macau. Mandou então fazer um teto novo, com o forro pintado, além do telhamento geral. Ficou‐se ainda a dever à sua iniciativa a Capela de Santana.
No ano de 1774, o bispo de Macau esforçava‐se por conseguir autorização para ocupar a Igreja de São Paulo, que pertencera aos jesuítas entretanto expulsos, além de querer também ficar com a paramentaria, alfaias de culto, etc., o que veio a conseguir anos depois. É curioso notar que nesta missiva para a corte é lembrado que acontecera exatamente o mesmo em Salva‐ dor da Baía, o que era um precedente a ter em conta. Na sequência deste pedido foram chamados a dar a sua opinião sobre o estado da Sé Catedral alguns mestres chineses.
Em 12 de dezembro de 1812, o ouvidor Miguel de Arriaga Brum entendeu que era necessária a sua total reconstrução, mas em 1819 a ideia foi abandonada e feitas só intervenções pontuais. Em 1836 a igreja encontrava‐se ainda em estado de grande ruína, destelhada e com o coro derrubado, o pavimento podre ou comido pela formiga branca, ao ponto de as suas funções cultuais terem passado para a igreja do Mosteiro de São Domingos.
Em dezembro de 1844 foi iniciada a reedificação completa do velho e degradado edifício, por iniciativa da Cúria Romana. A fachada foi reorientada para norte. As obras terminaram em 1850, nelas concorrendo muitos habitantes. Foi autor da traça o arquiteto macaense Tomás de Aquino. Em 1873, a Sé Catedral teve novas e importantes obras de conservação, mas um quarto de século volvido o edifício sofreu enormes estragos, obrigando a uma nova reconstrução em 1937.
O estilo por que optaram o encomendante e o arquiteto oitocentistas foi o neoclássico. A frontaria é muito simples, ladeada por duas torres de secção quadrangular, que se elevavam acima do arranque da empena, com sineiras e coruchéus em forma de templete que no fim do século XIX já não existiam. Em altura ficou dividida em três corpos: ao alto, um frontão triangular; a meio, três grandes janelas de sacada, que comunicavam interiormente com o coro‐alto; e em baixo, uma tripla arcada com as respectivas portas. Na vertical, a frontaria era dividida igualmente em três, por pilastras toscanas simplificadas em baixo, ordem também usada nos entablamentos, e jónica em cima, que se repete nas torres sineiras.
O que hoje se vê, posto que tenha uma decoração diferente e até o material de revestimento seja outro, não é muito distinto daquilo que o arquiteto Tomás de Aquino projetou. Lateralmente tinha duas séries de janelas e, ao nível térreo, uma arcaria corrida, que conformava uma galeria. Sobre esse corredor havia um terraço com uma balaustrada. O interior é amplo, embora com uma nave única e duas capelas laterais. A capela‐mor tem planta retangular e é muito funda. O teto é plano e as paredes laterais estão marcadas por pilastras irregulares com capitéis jónicos, sustentando um entablamento corrido sobre o qual se abrem as janelas mais altas. Todo o interior é fortemente iluminado, quer através das janelas das paredes e da frontaria, quer das amplas frestas rasgadas na cabeceira.
Um dos problemas com que em meados do século XVIII o prelado se debatia era a questão da sua residência, já que faltava um paço adequado. No final de 1774 o estado era de continuada ruína, com as paredes abertas pelos tufões e terramotos, tendo o bispo que ir viver para o Seminário de São José. Para obviar à situação, o Senado resolveu alugar umas casas em frente da Igreja de São Lourenço. O edifício foi reconstruído em 1780, o que não evitou a sua total substituição por outro, da iniciativa do ouvidor Miguel de Arriaga Brum, nos anos seguintes a 1812. As obras ficaram a cargo de mestres chineses. O edifício que hoje se conserva é no essencial o que resultou desta empreitada, posto que tenha sido objeto de diversas campanhas de melhoramento e simples conservação. Do ponto de vista estilístico, segue o neoclássico, numa forma que podemos classificar como utilitária.

Pedro Dias

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