Igreja da Assunção de Nossa Senhora ou de São Paulo

Igreja da Assunção de Nossa Senhora ou de São Paulo

Macau, Macau, China

Arquitetura religiosa

Quando os jesuítas chegaram a Macau, fundaram as pequenas igrejas de São Lázaro e de Santo António em estrutura de colmo, as quais foram incendiadas pelos chineses. A sua primeira residência, documentada em 1565, era constituída apenas por "umas casinhas térreas", como lhe chamava o padre Organtino, e tinha tabiques de madeira, pelo que até as conversas se podiam ouvir de uma sala para a outra.
Outro relato muito sintético foi o do padre Montanha, que afirmou ser feita de "palha, como eram todas as casas de Macau", e "como os chinas lhe punham fogo para furtarem [...] acudiram os moradores e fizeram a igreja de madeira e coberta de telha". Esta operação parece poder situar‐se por volta do ano de 1582. Apesar de pobre, ainda assim destacava‐se dos outros edifícios a ponto de ter havido reclamações dos mandarins cantonenses, mas tudo se resolveu sem problema de maior. Tinha um alpendre, um altar, um púlpito, um coro e até um orgão, e durante as festas da Paixão o corpo da igreja era coberto com panos pretos, que tinham pintados os últimos momentos da Vida de Cristo. Já na Páscoa, os ornamentos usados eram, essencialmente, constituídos por panos ricos da China e da Flandres.
Em 1579 chegou a Macau o padre Miguel Ruggieri, que construiu um catecumenato e uma capela da invocação de São Martinho de Tours, ambos destinados em exclusivo a chineses. Como testemunhou o visitador Alessandro Valignano em 1580, os jesuítas tinham então em Macau uma residência terminada no ano anterior, onde se vivia ao modo de casa professa e dotada com dez aposentos e as necessárias "oficinas", que podiam acolher até uma dúzia de padres. A igreja já estava pronta há mais tempo, mas teve que ser feita de novo devido ao facto de o seu plano não ser adequado.
Podemos concluir que, em dado momento, os jesuítas decidiram abandonar o seu assento primitivo e mudar‐se para uma zona mais alta, onde se levantou a Igreja da Assunção de Nossa Senhora, anexa e privativa do Colégio da Madre de Deus. Como os jesuítas eram apelidados pelo povo de "paulistas", a igreja ficou conhecida entre a população como Igreja de São Paulo.
Segundo o padre Montanha, foram o Leal Senado e os mais ricos moradores que contribuíram para a nova construção, cuja edificação obrigou à criação de uma plataforma artificial. Um incêndio ocorrido em 1601 destruiu a igreja e a maior parte do colégio, pois as paredes de taipa não aguentaram as altas temperaturas. Os padres decidiram então fazer construções mais sólidas.
O plano da igreja é da autoria do padre Carlo Spinola, que esteve em Macau em 1601 e 1602, altura em que a documentação e a pedra fundamental confirmam o começo do novo templo. Na pedra fundacional está escrito: VIRGINI MAGNAE MATRI CIVITAS MACAENSIS LIBENS POSVIT AN 1602. A consagração do novo templo teve lugar na Véspera de Natal de 1603, e a primeira missa foi celebrada pelo padre‐visitador Alessandro Valignano, após a transferência do Santíssimo Sacramento, que estava na igreja velha.
Carlo Spinola partiu para o Japão sem que a obra estivesse terminada. A frontaria que podemos admirar e que é praticamente a única parte íntegra do edifício foi construída mais tarde, a partir de 1636. No entanto é mais que provável que o projeto inicial incluísse também o pequeno adro fronteiro e a escadaria monumental.
A 25 de janeiro de 1835, um incêndio destruiu quase por completo a Igreja da Assunção de Nossa Senhora, o Colégio da Madre de Deus e as instalações contíguas, ficando apenas de pé a fachada, paredes laterais e fundações de algumas das dependências que ficavam à direita, para o lado da fortaleza do Monte. Graças às campanhas arqueológicas, sabemos mais acerca da estrutura da igreja do que aquilo que se extraía da documentação antiga.
Dois desenhos de George Chinnery permitem perceber alguma coisa do que foi o seu interior, mas há também descrições pormenorizadas feitas quando o edifício ainda estava íntegro. A mais importante é a Notícia da Igreja deste Colégio de Macao, um manuscrito do Arquivo Histórico Ultramarino. A igreja era composta por três naves e três capelas de cabeceira, atingindo o comprimento de cerca de trinta e nove metros, e uma largura de vinte, e as paredes laterais chegavam aos 12,5 metros. Havia dois altares no cruzeiro, um dedicado a Jesus e outro às Onze Mil Virgens, ficando ainda, entre o arco da capela‐mor e este, o do Espírito Santo com o santuário de relíquias, ao qual correspondia do outro lado o altar de São Miguel. Eram todos de pedra branca lavrada.
O teto era o que mais chamava a atenção de quem entrava e também o que mais fugia à tradição europeia, pois estava pejado de imaginária e elementos ornamentais executados por artistas chineses. Nas paredes e altares havia algumas pinturas, tanto europeias como feitas por artistas japoneses, nomeadamente por Jacob Niva, discípulo do italiano Giovanni Nicolló, que trabalhou nos seminários e residências do Japão. O retábulo‐mor é visível nos desenhos de Chinnery, de barroco exótico, mas incorporando elementos tipicamente chineses.
No entanto é a frontaria da igreja que mais fascina, devido à sobreposição de esculturas e de relevos de fatura chinesa a um esquema arquitetónico que mergulha nas lições do tratadista e arquiteto clacissista Jacopo Barozio da Vignola, a que foram acrescentadas estátuas de metal alusivas aos principais construtores da fama de santidade da Companhia de Jesus. A frontaria da Igreja da Assunção de Nossa Senhora é do tipo comummente chamado fachada‐retábulo, com voga e expressão pelo mundo católico no período de vigência do classicismo.
O emprego das colunas exentas, com uma correta sobreposição das ordens canónicas, a começar pela jónica na fiada inferior, o que se deve ao facto de a igreja ser de invocação feminina. No segundo registo, usou‐se a ordem coríntia e nos dois superiores a ordem compósita. Esta repetição pode justificar‐se pelo facto de ambas as séries de colunas deste tipo terem dimensões muito mais reduzidas do que as outras e se incluírem todas no corpo alto, no grande e monumental frontão de coroamento.
Iconograficamente, a frontaria divide‐se essencialmente em quatro fiadas horizontais e nove verticais. As duas secções horizontais mais baixas ocupam toda a frontaria, enquanto as duas superiores se reduzem à medida que aumenta a sua distância do solo, devido à necessidade de se conformarem com a terminação triangular. Nas duas fiadas de baixo há elementos geométricos e estátuas de vulto, combinadas com estruturas arquitetónicas, e nas fiadas de cima a iconografia avantaja‐se, com a subalternização dos elementos arquiteturais. Estes dois registos correspondem a outras tantas demonstrações: a da Igreja Triunfante, em cima, e a da Igreja Militante, em baixo. A complexidade do programa é extraordinária e demora muito tempo até que possa ser totalmente decifrado, tal a quantidade de elementos.
Assim, na zona reservada à Igreja Triunfante, encontramos a Concessão da Graça, pelo Espírito Santo, no frontão; Cristo Redentor Salvador do Mundo, na quarta fiada; e o Triunfo de Nossa Senhora da Assunção, a Mãe de Deus Imaculada. No espaço da Igreja Militante, apresenta‐se‐nos a glorificação da Companhia de Jesus, na segunda fiada; e a alusão clara a que o colégio e a igreja eram como "Casas de Deus" e "Fortalezas da Fé". O talhe das esculturas em relevo deve‐se a artistas chineses, feitas a partir do esquema prévio, que teve que ser muito bem pensado, por um verdadeiro teólogo. As estátuas de bronze foram fundidas por Manuel Tavares Bocarro, que estava em Macau desde 1625; eram inicialmente douradas e tinham as mãos e os rostos pintados de vermelho.
Pelo estilo escolhido e pela força do programa iconográfico, este é um dos melhores exemplos da arquitetura da Igreja Reformista dos princípios saídos do Concílio de Trento. As marcas da arte de raiz clássica são absolutamente supérfluas, sem implicação nas questões estáticas. Têm, isso sim, valor estético e simbólico. É aqui, talvez como em nenhum outro monumento do mundo, que o Oriente e o Ocidente mais se interligam num só edifício.
Em 1760 o governo do marquês de Pombal ordenou a entrega às autoridades macaenses das igrejas e dos colégios pertencentes à Companhia de Jesus. Em 1788 foram destruídas partes das instalações residenciais, abrangendo diversas oficinas e até a preciosíssima casa da livraria. Durante os primeiros anos do século XIX, houve várias tentativas para instalar quartéis nos espaços remanescentes do extinto colégio. Na noite de 26 para 27 de janeiro de 1835 deflagrou um incêndio que reduziu a cinzas o que ainda restava da outrora próspera e monumental igreja e dos seus anexos. Trabalhos arqueológicos relativamente recentes tornaram óbvia a possibilidade da respectiva musealização (> Museu das Ruínas de São Paulo).

Pedro Dias

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