Habitação

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Diu, Guzerate, Índia

Habitação

A cidade histórica de Diu mantém uma estável unidade urbanística que a caracteriza desde praticamente o seu assentamento, apesar de o núcleo inicial em redor dos templos católicos e edifícios administrativos se encontrar algo fragilizado pela descaracterização, ruína de alguns edifícios fundadores e, sobretudo, pela galopante urbanização de novos bairros incaracterísticos, “invasores” de territórios outrora expostos à paisagem de uma cidade europeia e agora em risco de “dessacralização”. Alguns núcleos ou bairros permanecem contudo estáveis, embora também aí se tenha iniciado a substituição de edifícios de reconhecida qualidade arquitetónica, identitária desta cidade, por outros desqualificadores da unidade urbana. A casa torreada, associada a volume(s) com pátios e açoteias, será sem dúvida a tipologia eleita, porventura a que melhor expressa a arquitetura vernacular deste lugar de encontro de culturas e de sínteses, entretanto aqui apuradas e também difundidas. Métodos, tecnologias de construção e sobretudo modos de habitar associados à expressão da casa configuram uma identidade própria a esta tipologia fortemente marcada pelo islão, ainda que o hinduísmo tenha também uma ancestral e pujante presença na cidade, havendo assim influências mútuas. A casa torreada identifica‐se pela elevação sobre os demais de um volume de base quadrangular, ainda que, numa fase posterior, por associação de novos compartimentos, também surja longitudinal. A proximidade entre casas desta tipologia na unidade de quarteirão constitui um dos aspectos mais relevantes na expressão urbana. Por vezes circulamos por labirínticas vielas que terminam frequentemente em becos, rodeados de torreões. Apenas dois núcleos urbanos distintos integram esta tipologia, respetivamente junto ao Mercado e antigo Largo da Alfândega, constituindo o núcleo de casas de famílias abastadas, e o núcleo de casas de menor dimensão e condição social junto à porta poente. Estas casas‐torre, da tradição dos portos mediterrânicos, ganharam o título de “avista‐navios” nas ilhas atlânticas e nalguns portos portugueses; em Diu estão também relacionadas com a vida marítima, funcionando como indispensáveis mirantes de mar. No bairro antigo, junto ao mercado, anda persistem algumas importantes casas‐torre como a da família Bhasuber Grina Parsiwada, exemplo perfeito da casa aristocrática hindu de Diu. A espacialidade encontra‐se devidamente hierarquizada a partir da sala de entrada, onde se recebem as visitas resguardando a intimidade da casa numa sucessão de espaços. No piso térreo, o(s) pátio(s) regula(m) parte dessa hierarquização, principalmente as atividades domésticas, permitindo ainda a ventilação dos compartimentos, sendo um destes, ainda não há muitos anos, para alojamento da vaca (que fornecia leite fresco). O torreão constitui, na continuidade do átrio, o núcleo nobre da casa, e nesse sentido tanto as paredes como os tetos, principalmente as imponentes vigas de madeira, acolhem delicadas e coloridas pinturas decorativas. A maior curiosidade destes torreões será o piso intercalar, com 1,10 metros de pé‐direito entre a sala do piso térreo e o quarto do dono da casa, para guardar os cereais. Funciona como sequeiro com ventilação transversal, garantida através de frestas protegidas com rede, e por se encontrar sobrelevado do plano da rua, ficando assim também protegido dos roedores e de outras pragas. As escadas “esculturais” desenvolvem‐se com altos e estreitos degraus até alcançarem o alçapão de piso. Um último degrau, de canto, com a dimensão de um pé, assinala o patamar do quarto “mirante”. As açoteias, utilizadas para secar especiarias e outros produtos, recolhem também as águas pluviais, comunicando entre si por orifícios junto ao pavimento, apesar dos muretes elevados por unidade. Estas casas são elevadas em alvenaria de pedra branca calcária e os pisos constituídos por grandes vigas de madeira onde assentam placas da mesma pedra argamassada e por vezes ladrilhada. A porta da rua, como algumas do interior, é engradada, formando favos quadrangulares delicadamente lavrados, recebendo a porta da rua pequenos pingentes em latão. No exterior, destacam‐se os baldaquinos ou molduras superiores, repletos de composições profusamente lavradas com temas hinduístas; curiosamente alguns exemplos, construídos em meados do século XX, integram temas art nouveau reinterpretados. Estas portas, tal como outros aspectos desta tipologia com e sem torre, transferiram‐se para a Ilha de Moçambique, onde se instalou uma importante colónia de famílias provenientes de Diu. A casa‐torre de Diu terá ainda uma identidade fundadora difusa europeia, presente em alguns exemplos observados, nomeadamente na casa integrada no convento quinhentista de Santana, e no Fortim de Patelwadi. Em ambos os casos, a torre organiza a construção em termos defensivos, localizando‐se em elevações de nítida vigilância sobre o território. No caso conventual, a sua localização estará articulada com a própria fortaleza da cidade, como ponto de observação privilegiado sobre o vasto oceano, contra a possibilidade de um ataque corsário. Outro tipo marcante é o das casas hindus com forte influência da art nouveau europeia, que representam uma parte significativa da atual identidade arquitetónica e histórica de Diu, formada no século XX. Da miscigenação cultural e respectiva estabilização de uma certa gramática formal terá surgido um período fulgurante, cuja presença física quase exclusivamente se localiza no Bairro da Porta, a poente da cidade. Casas de dois e três pisos apresentam varandas e alpendres profusamente decorados com frisos, balaústres e relevos figurativos, abstratizantes e realistas, além de elementos de composição oriental/hindu. Pátios com arcadas de colunas e lintéis exuberantemente decorados, balcões autonomizados de delicada filigrana dependuram‐se nas fachadas e elegantes alpendres com beirais rematados por lambrequins de madeira. Interiormente, estas casas mantêm a tradição tipológica, quase sempre com pátio, ainda que tenham assimilado discretamente algumas nuances espaciais, principalmente ao nível da circulação horizontal e vertical. As salas e salões apresentam‐se profusamente decorados, fundindo a arte moderna com a tradicional arte oriental, onde o mobiliário procura acompanhar a expressão arquitetónica. As portas neste bairro atingem detalhes excecio‐ nais: por um lado mantêm a solidez de uma fortaleza, mas por outro acolhem delicados rendilhados deco‐ rativos, tanto na caracterização das madeiras como nas molduras alpendradas. As cores exuberantes combinam‐se num caprichoso jogo de tonalidades, acentuando a presença da casa no plano da rua. Estas casas pertencem a ricas famílias de comerciantes, atualmente a viver em Bombaim, encontrando‐se quase praticamente encerradas desde a integração de Diu na União Indiana. Esta arquitetura vernacular combina diversas fon‐ tes, provavelmente de forma empírica e por vezes ingé‐ nua; contudo, imprimiu uma nova matriz identitária a este lugar, ao reinventar a ancestral arquitetura urbana local numa perspectiva de modernização da lingua‐ gem formal, na introdução de novas escalas e harmo‐ nias, impondo ainda uma revisão tipológica, atuando como catalisador de um novo e derradeiro tempo de mudança sociocultural.
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