Arquitetura Religiosa

Arquitetura Religiosa

Diu, Guzerate, Índia

Arquitetura religiosa

No texto de enquadramento de Diu ficou assinalada a relevância que os edifícios religiosos tiveram para o lançamento e marcação do que se pretendeu que fosse a cidade portuguesa a instalar entre a fortaleza e a cidade gujarati preexistente. Nos textos relativos aos conjuntos franciscano e jesuíta que se seguem caracterizam‐se os exemplares mais relevantes, sendo o último surpreendente e único na sua estrutura compositiva e esfuziante decorativismo, na realidade, um dos mais importantes itens neste volume. Impõe‐se, contudo, uma referência aos demais ainda existentes, começando por deixar claro que, apesar da exiguidade do território e da presença demográfica portuguesa, a arquitetura católica de Diu - de origem portuguesa, por conseguinte - não se restringe ao conjunto urbano, pois não podemos deixar de registar a existência da Igreja de Nossa Senhora de Fudam. A exiguidade da comunidade católica acabou por impor um relativamente baixo número de exemplares, mais ainda o desaparecimento na segunda metade do século XIX de alguns, de que se destacam, fora da fortaleza, a Igreja de Nossa Senhora da Esperança e as casas de São Domingos e de São João de Deus, esta com o Hospital Real, que tinha a cargo. Da igreja dominicana da Madre de Deus guarda‐se uma representação numa gravura que dá conta de um edifício modesto mas interessante, com uma torre sineira rematando a capela‐mor. Compreensivelmente, a evangelização foi sempre mais difícil e menos bem sucedida em territórios de predominância islâmica, mesmo quando a tolerância se logrou instalar, como é o caso de Diu. Com o fim da soberania portuguesa em 1961 e, assim, com a saída dos já poucos portugueses que ali permaneciam em serviço, essa comunidade está reduzida a um número ínfimo, o que leva a que apenas um dos conjuntos, São Paulo, mantenha o culto religioso como paroquial e a sua escola, aliás frequentada por crianças e adolescentes de diversas confissões, tendo as demais sido adaptadas a outros usos. Além dos edifícios franciscano e jesuíta, dentro da cidade apenas existem a Matriz de São Tomé e o Reco‐ lhimento de Santana, este sem especial relevância histórica ou arquitetónica. A primeira Igreja de São Tomé, erguida dentro da fortaleza em 1536 por iniciativa do governador Nuno da Cunha, desapareceu. Dela relata Gaspar Correia nas Lendas da Índia que era "posta no alto, muy forte, que d’ella se podia tirar artelharia, se comprisse: os muros de vinte pés de largo, os cubelos abertos por dentro, moçiços até o primeiro andar d’artelharia, e descobertos, argamassados, muy fortes, que em cima tinhão outra artilharia". Ali por perto, também as capelas de São Martinho (fundada em 1548 para celebrar a vitória de 1546) e São Tiago (1623, sobre uma ermida das primeiras décadas) erguidas no interior da fortaleza soçobraram, o mesmo sucedendo com a Misericórdia, erguida em 1542 e desmoronada em 1825. De tudo isso restam apenas ruí‐ nas que não permitem a sua caracterização significativa, com exceção para São Tiago, que mantém intacta toda a volumetria, incluindo a bordadura superior de pináculos, mas sem a abóbada de canhão que cobria a desenvolta nave única e cujo extradorso estaria exposto. Com a capela‐mor à altura da nave, apresenta‐ ‐se ainda com a escala de uma igreja, não de uma capela. Como se encontra axialmente na continuidade do baluarte do mesmo nome e com um dos alçados laterais sobre a cortina da muralha que desce até ao oceano, a entrada é feita lateralmente através de um portal efusivamente decorado em baixo relevo, do qual se destaca num grande medalhão a figura de São Tiago cavaleiro. A Igreja de São Tomé foi construída extra‐muros em 1598 por ordem do arcebispo Frei Aleixo de Menezes, devendo funcionar como paroquial da cidade. Implantada sobre uma colina isolada, com a capela‐mor orien‐ tada a poente (como todas as igrejas de Diu), tem a frontaria virada ao mar, impondo‐se como o elemento edificado de maior impacto paisagístico da cidade, depois da fortaleza, claro. Impõe‐se pela escala das suas duas torres da frontaria, rematadas por uma estrutura decorativa que contrasta com a fachada da nave, quase sem ornamentação. São uma espécie de estelas de sineira, prolongamentos do paramento fronteiro de cada uma das torres, funcionando como simulação de remate em calote esférica, falsa por conseguinte. É particularmente relevante o facto de a cobertura da nave denunciar no exterior a abóbada, com um extradorso visível e cintado, todo ele caiado. É uma solução que, além de São Tiago, faz lembrar igrejas que se encontram no Coromandel, designadamente as ligadas aos locais de martírio e sepultamento do orago, São Tomé, em Meliapor (Madras), embora aqui o lançamento vertical seja muito superior, longe do atarracamento daqueles modelos. Mas na realidade é uma solução que se encontra em todas as igrejas existentes em Diu e que, por certo, encontrará justificação e ori‐ gem mais óbvia em tradições construtivas e expressivas locais. Por exemplo, as coberturas em telha são quase inexistentes, imperando as coberturas em terraço. Volumetricamente, a Igreja de São Tomé surge assim como uma arca, apenas ultrapassada pelas torres e por uma coluna de claro sabor islâmico, que irrompe a meio da frontaria sobre o arco, aliás igual às que rematam as torres. Para quem se aproxima da ilha por leste, sobrepõe‐se à fortaleza como uma espécie de remate e farol de uma alvura conspícua. O interior é absolutamente despojado, para o que contribui o facto de já não ter culto. Funciona desde 1904 como museu arqueológico, onde estão recolhidos múltiplos elementos arquitetónicos e lápides de edifícios relevantes que têm vindo a desaparecer na cidade. Também como paroquial foi erguida a Igreja de Nossa Senhora de Fudam, aldeia situada a meio da costa marítima da ilha. Não logramos encontrar qualquer informação sobre o edifício, o que só pode ser falha nossa, pois dada a sua escala e expressão por certo deixou registos documentais da sua fundação, não podendo ter deixado de chamar a atenção de quem se interessa por estas matérias. Pela sua gramática e composição terá sido erguida no século XVII. A fachada tem uma expressão peculiar, pois encontra‐se dividida em três partes sensivelmente iguais, sendo que a fachada da nave, de estrutura retabular, ocupa o espaço equivalente ao de cada uma das torres, bem lançadas, mas rematadas de forma demasiado contida, desproporcionada em relação ao todo. Remate que, aliás, repete a solução dos congéneres da Igreja de São Tomé da cidade. É muito interessante o contraste da expressão simultaneamente chã e imponente das torres com a singeleza decorativa e a expressão algo esmagada do corpo central, para o que contribui o facto de em altura se desenvolver em apenas cerca de dois terços do lançamento das torres. No seu conjunto, a arquitetura religiosa de Diu não dispõe de exemplares suficientes para se poder fazer uma apreciação de conjunto, estabelecendo relações e determinando especificidades, como a das coberturas das naves em abóbada de canhão aparente. Merece, contudo, que se faça a reflexão da sua inserção no contexto da arquitetura religiosa portuguesa/católica da Província do Norte do Estado da Índia, o que por razões de estrutura e vocação desta obra aqui não pode acontecer.

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