Habitação

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Daman [Damão/Damaun], Guzerate, Índia

Habitação

Em Damão Pequeno, a tardoz do Forte de São Jerónimo, e nas ruas mais antigas, localiza‐se um ancestral núcleo muçulmano. Apesar do desaparecimento ou transformação dos mais significativos exemplares de varandas alpendradas, balcões, portas e colunas de madeira de teca, profusamente decoradas por exímios carpinteiros, são contudo ainda estas as mais notáveis construções do conjunto urbano. As casas desenvolvem‐se em profundidade com o andar sobradado, avançado sobre colunas e/ou arcaria de modo a ensombrar a entrada e zona exterior de estar e transição, com bancos e plataformas para receber e dormir nas noites de calor. A cozinha localiza‐se no piso térreo, com todos os seus apetrechos expostos em pequenos suportes de madeira, bem como os potes e ceirões de arroz. O lume de chão anicha‐se numa for‐ nalha de barro, e mesmo nas casas mais abastadas come‐se sentado no chão. Uma segunda divisão acomoda a latrina e por vezes a zona de banho, quando esta não se encontra instalada no logradouro junto à casa. O pavimento é bosteado ou ladrilhado, conforme as posses da família. Uma escada de madeira ou mista, de madeira e argamassa, acede ao piso sobradado que ressalta na fachada e/ou avança sobre colunas. Nos casos mais expressivos surgem os balcões rendilhados como muxarabis, praticamente em extinção. Um conjunto de divisões forma os quartos de dormir, com camas de madeira; algumas destas casas têm aproveitamento de sótão para arrumos diversos. Para além do citado bairro muçulmano de Damão Pequeno, é na aldeia de Varacunda que estas casas têm maior expressão numérica e em qualidade arquitetónica, ainda que em desaparecimento. É também nesta aldeia que se nota uma estrutura urbana coesa, enquanto nas restantes aldeias, e apesar de organizadas por bairros, as casas encontram‐se autonomizadas como casais agrícolas resultantes ainda de aforamentos antigos, onde os colonos por tradição contratavam trabalhadores sazonais que habitavam nas casas por si construídas, podendo desmontá‐las e transportá‐las quando terminavam as colheitas. Já quase totalmente desaparecidas, eram estruturas precárias, enquanto as casas dos colonos têm carácter permanente. Estas casas de um só piso, reduzida compartime tação e integramente bosteadas, destacam‐se pelas quatro águas de telha cerâmica e pelos alpendres que lhes dão continuidade. As paredes exteriores são maioritariamente em tijolo cerâmico rebocado e pintado. A mobília é esparsa e mantém‐se o lume de chão na cozinha, onde se come e por vezes se dorme. As casas hindus das aldeias do interior, de um modo geral, surgem como que camufladas na paisagem, mantendo a tradicional técnica de paredes em armação de bambu aberto em lâminas, por vezes entrelaçado e amarrado com fibras resistentes, corda de coco, sendo preenchidas por uma argamassa de terra e bosta diluída. Uma armação primária de madeira sustenta a cobertura. Esta tipologia predomina para além do território envolvente; uma das suas características mais relevantes será a remoção temporária do revestimento, destacando‐o da armação de bambu, junto ao lintel da cobertura e na sua periferia para aumentar a ventilação no período de maior calor, voltando a ser parcial ou totalmente tapada noutros períodos. Espacialmente, não apresentam compartimentação rígida, contudo tabiques de fibras vegetais compartimentam sem os encerrar totalmente, recorrendo por vezes a panos para maior resguardo. Raramente estes espaços têm teto, ficando em desvão para a armação da cobertura. A cozinha localiza‐se num dos ângulos com o tradicional fogo de chão, saindo o fumo por entre as telhas e pelas frestas junto ao lintel. As redes suspensas e as esteiras de chão são os tradicionais leitos da casa, embora nas casas de pescadores mais perto do mar e nas mais abastadas existam camas de madeira com teia de corda de fibras de coco. Os pavimentos das casas mais pobres, tal como em Goa, são ainda bosteados, apesar de este uso se encontrar em declínio. Na Praça de Damão Grande, sede de poder administrativo, localiza‐se o bairro cristão com os principais edifícios identitários, respectivamente a Casa da Câmara, o Palácio do Governador, construído sobre uma fortaleza muçulmana, a Sé, as igrejas e os conventos. As casas integram‐se numa estrutura urbana regular formando grandes unidades de quarteirão: nalguns casos as construções esboçam tímidos planos marginais de ruas de casas contíguas, contudo a maioria recolhe‐se no interior das parcelas com tipologias isoladas. Verifica‐se uma certa descontinuidade na maioria dos quarteirões, com exceção da rua central entre as portas de mar e de terra e da rua do Convento de Santo Agostinho. Algumas destas casas destacam‐se pela dimensão e pelos grandes alpendres que prolongam as coberturas de duas águas, bem como pelas janelas e portas de carepas com provável influência de Goa, tal como a mobília e a própria tipologia. O pequeno território da praganá de Nagar‐Havelly, junto a Damão, rico em florestas de teca, sua principal riqueza, integra um pequeno conjunto de aldeias maioritariamente hindus e ainda algumas famílias católicas. As casas resguardam‐se do calor sob a sombra de frondosas e protetoras árvores. Na aldeia de Nardi, a caminho de Silvassa, ainda predominam as casas de armação vegetal preenchida com terra e argamassa, por vezes integrando bosta e/ou palha. Algumas apresentam forte cor alaranjada, acentuando a sua presença entre o verde do arvoredo. Nalguns casos, o alpendre protetor do calor e da chuva é integralmente construído, talvez numa evolução tipológica recente, ficando apenas a porta central para acesso. De um modo geral, as coberturas são cerâmicas de duas águas, e as zonas superiores das empenas mantêm só a estrutura de madeira para ventilar, mas protegidas com olas. A organização espacial mantêm‐se idêntica às outras aldeias de Damão.

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