Arquitetura Religiosa

Arquitetura Religiosa

Daman [Damão/Damaun], Guzerate, Índia

Arquitetura religiosa

Dos quatro conjuntos conventuais maiores que foram fundados pelo clero europeu (jesuítas, dominicanos, franciscanos e agostinhos) em Damão e existiam ainda em meados do século XIX, só o dos agostinhos subsiste, mas com outro uso e muito alterado. Mantêm‐se em bom estado, pelo contrário, as principais igrejas não‐conventuais de Damão Grande, nomeadamente a Igreja Matriz, da invocação do Santíssimo Nome de Jesus, a de Nossa Senhora do Rosário, a igreja da freguesia dos Remédios, situada imediatamente a sul da cintura abaluartada da povoação, a Capela das Angústias, também nesta freguesia e, em Damão Pequeno, a igreja do Forte de São Jerónimo, Nossa Senhora do Mar (esta dotada de uma fachada recente). Sabemos muito pouco sobre as igrejas conventuais. Podemos assumir com alguma segurança que eram todas de nave única, coberta de telhado e capela‐mor abobadada. Subsistem as paredes da grande Igreja de Nossa Senhora da Vitória do convento dos dominicanos, situada a poente da cidade, a capela‐mor e a fachada da igreja do convento dos agostinhos no quadrante oposto. As ruínas da igreja dos jesuítas, integrada no Colégio das Onze Mil Virgens, conhecido popularmente desde o século XVIII como de São Paulo, estarão por reconhecer no perímetro da casa oficial do governo de Damão, situada no centro da povoação. O convento dos franciscanos, a norte, junto à porta de terra, já tinha desaparecido por completo na década de 1920, com exceção das ruínas da igreja que desapareceram depois. Pela cartografia de Pedro Barreto Resende junta ao relatório de António Bocarro, de cerca de 1635, por uma planta de Damão do final do século XVIII existente no Arquivo Histórico Ultramarino e pelas ruínas dominicanas, podemos supor que as igrejas conventuais dominicana e jesuíta se situavam na esquina de quarteirões. Teriam a capela‐mor a norte, abrindo quando isso era possível uma porta axial e uma porta lateral à rua, exatamente como sucede, aliás, com a igreja matriz, tirando assim partido da malha regular e ortogonal da cidade. Já a igreja agostinha, a Capela do Rosário, e talvez a igreja dos franciscanos, adotando outro partido possível, estão ou estavam orientadas axialmente a uma só rua. São muito características as empenas axiais de perfil triangular muito agudo com um óculo redondo aberto a meio que vemos na matriz, na igreja dos agostinhos, no Rosário, nos Remédios e nas Angústias, e certamente o mesmo modelo existia na capela do Forte de São Jerónimo antes da renovação da fachada. Sendo exclusivo em Damão, este desenho da fachada frontal pode ver‐se também em muitas igrejas - talvez as mais antigas - no distrito das Ilhas em Goa e em várias da Província do Norte. É um tipo de fachada experimentado por construtores portugueses na Índia entre meados das décadas de 1540 e 1580, ao qual correspondiam certamente telhados de pendente muito mais inclinada que os atuais, embora não tão inclinada como o são as empenas. É até possível que o elevado número de igrejas e casas portuguesas da Idade Média e da primeira Idade Moderna tivessem telhados muito inclinados, como sucede por toda a Europa atlântica, e que, com as chu‐ vas da monção em mente, tivesse sido esse o modelo para os primeiros edifícios construídos na Índia. A explicação terá, por certo, também uma fundamentação de natureza construtiva. Os escritos de Moniz Júnior dão a informação, todavia não documentada, de que a maior parte das esculturas em madeira dos retábulos e púlpitos de Damão foi feita por artífices de Baçaim. Se assim era, os interiores damanenses permitem‐nos reconstituir mentalmente o aspecto que teriam as igrejas da capital do Norte, Baçaim, antes da sua queda em 1739. As fachadas frontais das igrejas de Damão distinguem‐se pelo campanário situado ao lado e acessível por escada exterior. O da matriz chamou de tal modo a atenção de Pedro Barreto Resende que este o representou com grande exatidão no seu desenho de Damão.

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