Equipamentos e Infraestruturas

Equipamentos e Infraestruturas

Macau, Macau, China

Equipamentos e infraestruturas

Até 1911: Quando os portugueses chegaram a Macau, encontraram na estreita península do delta do Rio das Pérolas apenas três pequenas aldeias de pescadores, idênticas a muitas outras que existiam no sul da China, e com as quais já vinham tendo algum contacto. Instalaram‐se de forma precária, certamente sem qualquer perspectiva de aí ficar por muito tempo. As suas moradas eram pobres, e para as levantar não eram necessários grandes conhecimentos técnicos. Também não poderiam ser muito diferentes disto, devido às dificuldades colocadas pelos mandarins, que tentavam travar o aumento desses acampamentos. Lembremos que no sul da China, bem como na região entre a Indochina e no Japão, as habitações eram normalmente construídas em madeira, dando os naturais mais importância ao sítio. A madeira era um material barato e facilmente substituível quando das destruições provocadas pelos frequentes tufões.
Na península de Macau foram estabelecidas, durante a dinastia Ming, instituições chinesas que devem ter seguido os modelos construtivos locais. Destacamos quatro: o Tidiao, o Beiwo, o Xunji e o Yixiting, que tratavam dos assuntos de coordenação, da defesa contra os japoneses, das matérias fiscais e administrativas, e dos assuntos referentes ao mar. No mapa de Yixitin incluído nos Breves Registos sobre Macau está um desenho que mostra o edifício onde estava instalado este último, fundado entre 1583 e 1585, onde se reuniam os mandarins com os portugueses, e que aparece como uma construção tipicamente chinesa.
A partir de 1685 foram estabelecidos pelas autoridades chinesas postos alfandegários, cuja representação é bem visível nas vistas em xilogravuras esquemáticas incluídas no Ao Mun Kei Leok, da autoria de Cheong U Lam e Iam Kuong Iam, mostrando o fácies tradicional das construções seiscentistas e setecentistas do sul da China Qing. No fim do seu tempo havia três destes postos: o de Damatou ou Cais Grande; o de Nanhuan, ou da Praia Grande; e o de Niangmajiao, na Ponta da Barra. Outro prédio feito, seguramente, ao modo chinês era a Jianduxingtai ou repartição e residência do inspetor da Alfândega, situada na Rua da Tarecena, mas que em 1865 já estava transformada num aquartelamento de militares chineses.
Após as primeiras décadas de permanência mais ou menos intermitente, os portugueses adotaram um sistema que desse garantias de perenidade, usando a alvenaria, a pedra, o barro e o chunambo, uma cal obtida através da calcinação das conchas de bivalves e mariscos. Este material era fabricado fundamentalmente numa unidade industrial situada no Porto Interior.
A documentação seiscentista já referencia casas telhadas, que deviam pertencer aos principais mercadores e oficiais portugueses. Também havia hortas ou quintais, onde os portugueses plantavam vegetais e árvores de frutos, e tinham criação de animais domésticos. Já as casas dos chineses continuavam, em pleno século XIX, a ser construídas com materiais pobres e, em média, a sua duração era de quinze anos. Isto levou a que surgissem regulamentos sobre construção e, em dado momento, o Senado optou por infraestruturar as novas ruas, construindo os alicerces a partir dos quais os proprietários fariam subir as paredes, depois de aterrar todo o interior, até ao nível da via. Foi o que aconteceu nos bairros de Volong e de São Lázaro.
Insistia‐se na pedra em vez do tijolo, a maior parte das vezes feito apenas de lodo seco, incrementando‐se os meios de combate à formiga branca, um grande flagelo que punha constantemente em perigo as moradias. No entanto, a população chinesa reagiu mal e não adotou a pedra, tendo ainda assim que se sujeitar à disposição legal de caiação anual de residências e de estabelecimentos. Não podemos nunca esquecer que o apertado controlo das construções era efetuado pelos mandarins por formas artificiosas, o que desmotivava tanto os proprietários como os empreiteiros.
A arquitetura civil e, particularmente, a arquitetura doméstica de Macau é aquela onde mais se nota a interação das duas sociedades, dos distintos modos de vida e, obviamente, das duas estéticas. A casa, e também a casa‐estabelecimento, fosse industrial ou comercial, reflete sempre uma sociedade e um determinado tempo. As construções precárias correspondiam às necessidades mais elementares e provisórias, ou teoricamente provisórias, já que, em muitos casos, houve gerações que nasceram e morreram em barracas ou barcos, dificilmente se enquadrando num conceito de habitação.
Até locais de espetáculo, como o teatro, tão do agrado dos habitantes asiáticos da península de Macau e dos chineses em geral, eram feitos com materiais perecíveis e altamente inflamáveis. Podemos dar como exemplo o Teatro Sing Song, junto à água, com a estrutura integralmente em madeira e bambu e a cobertura de colmo, todo iluminado com candeias e balões, e enfeitado de grandes faixas de tecido com elementos caligráficos multicolores.
Nos palácios ou grandes mansões de chineses encontramos elementos que mostram que a comunidade local incorporou elementos do modo português. No entanto, as classes mais altas, quer as de etnia chinesa quer as de etnia europeia, parece terem tido durante Oitocentos uma fixação na estética neoclássica, por certo em emulação do que se fazia noutros centros europeizados do sul da China, como Hong Kong, Cantão e Xangai.
Nos séculos XVI e XVII, a maioria dos edifícios civis tinha características fundamentalmente portuguesas e as construções chinesas eram raras e de pouca importância. Nos tempos seguintes, nos séculos XVIII e XIX, houve um decréscimo dos prédios de origem portuguesa, e os que foram erguidos mostram uma simbiose entre influências ocidentais e autóctones.
Se tivermos em conta apenas os tipos de planta das residências, vemos que há fundamentalmente dois: um em que o rés‐do‐chão é usado como arrecadação e alojamento dos serviçais, com a zona nobre no primeiro andar; outro em que a habitação fica no piso térreo. O primeiro tipo é de inspiração portuguesa e surgiu como começo das construções definitivas, talvez ainda no fim do século XVI; o segundo tipo, que é o mais comum, é extensivo na comunidade chinesa e radica numa profunda tradição local. No entanto, houve uma evolução desses tipos ao longo dos séculos, sendo que a distinção das moradas de chineses e de portugueses ou luso‐descendentes se manteve clara, mesmo quando as casas foram feitas de raiz para as classes altas. Um elemento que parece ter sido introduzido pelos portugueses foi a cave, que não era conhecida nesta zona da China. Também de marca europeia são as varandas e balcões, quase sempre na parte da frente das casas ou em volta dos pátios.
Outro elemento comum na arquitetura residencial macaense, onde a simbiose arquitetónica está bem presente, é o balcão com suportes avançados nas fachadas. Outros testemunhos de mestiçagem estética estão patentes na ornamentação, como nos parapeitos das varandas, de influência europeia, e na aplicação de cerâmicas vidradas.
Sem desejarmos ser exaustivos, temos que fazer ainda referência a outros elementos recorrentes na arquitetura civil de Macau. Um deles é a arcaria contínua de volta perfeita, suportada por pilares quadrangulares ou retangulares pouco alongados, com pilastras adossadas e em andares sobrepostos, numa tentativa classicizante. Foi um esquema que se manteve, e até teve grande êxito no início do século XX, sendo hoje muito marcado na Praça do Leal Senado. O Hotel Boa Vista e o Hotel Riviera, na Avenida da Praia Grande, ambos datados de cerca de 1890, são outros excelentes exemplos. Mas estas arcarias em tijolo rebocado ou alvenaria, depois pintadas, podiam ter uma função muito prática no piso térreo, criando zonas de circulação ao longo das ruas. Em zonas como o Porto Interior, este expediente possibilitou também a ocupação de uma área maior do que a dos andares superiores.

A partir de 1911: Os equipamentos e infraestruturas erguidos ao longo da primeira metade do século XX não sofreram influência direta da arquitetura chinesa, tal como sucedeu com a produção da habitação, onde é patente o hibridismo sino‐português. Pelo contrário, os edifícios de equipamentos ou as grandes obras públicas na época de afirmação do Estado Novo traduzem uma importante dinâmica, constituindo notáveis exemplos da produção portuguesa construída em diversas partes do mundo, da metrópole às ilhas, de África à Ásia. A partir de finais da década de 1940 essa expressão monumental é patente na edificação de escolas, hospitais e tribunais.
Por exemplo, o Hospital de São Januário é um dos casos de uma obra construída inicialmente em 1874, que foi substituída por uma nova e moderna construção na década de 1950. Em 1994 é construído um novo e maior conjunto, não restando vestígios de nenhum dos anteriores. Neste quadro de acelerada mutação das estruturas construídas em Macau importa referir duas outras obras de grande presença pública que foram demolidas na década de 1980, não tendo assim aqui direito a entradas específicas: o Hospital Conde de São Januário, em 1955, e o Liceu Nacional Infante D. Henrique, em 1958.
A partir da década de 1960 assiste‐se a uma contaminação de influências que se estende à obra pública, nomeadamente ao universo do equipamento coletivo, em obras concebidas por arquitetos da elite portuguesa, como é o caso de Raul Chorão Ramalho ou Manuel Vicente. Uma aproximação ao local no quadro de uma expressão regionalista crítica é então desenvolvida com qualificada originalidade, que decorre não só de razões puramente linguísticas, mas sobretudo da atitude dos arquitetos, apostados em responder às condições locais de clima, materiais disponíveis, mão‐de‐obra e, certamente, também em interpretar o espírito do lugar.
No quadro dos grandes equipamentos, importa referir que a partir do início da década de 1980 Macau foi um território que atraiu sucessivas gerações de arquitetos formados na escola de Lisboa, os quais serão responsáveis por muitas das mais qualificadas obras erguidas até ao fim da administração portuguesa. É o caso de Vicente Bravo Ferreira, com importante obra (Subestação Dona Maria II, 1988; Complexo Desportivo da Universidade de Macau, 1993‐1995; Retiro de Religiosos Cristãos), Paulo Sanmarful (Centro de Saúde, 1990), António Bruno Soares (Edifício das Finanças, 1987) e, finalmente, do início da estimulante produção de Carlos Marreiros (Centro de Saúde de Tap Seac, 1991) ou da pesquisa singular de Adalberto Tenreiro (Bombeiros da Taipa, 1994‐1996; Ponte Pedonal do ZAPE, 1991; Piscinas do Carmo).
Se ao longo da primeira metade do século XX a aposta na transformação das infraestruturas se concentra no redesenho do porto e na abertura de grandes vias, no final do século o grande impulso é dado após o 25 de Abril, com a construção das extraordinárias obras de arte que constituem as pontes Nobre de Carvalho e da Amizade, bem como o Aeroporto.

Ana Tostões

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