Arquitetura Religiosa

Arquitetura Religiosa

Macau, Macau, China

Arquitetura religiosa

Os edifícios religiosos cristãos que hoje podemos ver na cidade de Macau são relativamente recentes, ou foram muito renovados durante o período de prosperidade que o território conheceu no século XIX. No entanto, como aconteceu em todos os lugares em que os portugueses se estabeleceram com a intenção de aí permanecer para sempre, foram erguidas capelas e igrejas. Inicialmente eram pequenas e construídas com materiais pobres, adequados à população que serviam - quando muito umas dezenas de fiéis e os seus servidores, normalmente convertidos por conveniência. Com o passar do tempo, com o aumento das comunidades e o seu enriquecimento e enraizamento à terra, foram engrandecidas. A Cidade do Santo Nome de Deus não foi neste campo uma exceção em relação às outras urbes da grande aventura portuguesa. Possuímos iconografia credível, que nos permite saber com segurança como eram os edifícios religiosos no início do século XIX e, em alguns casos, em tempos mais recuados.
A religiosidade sincera dos homens dos séculos XV, XVI e, pelo menos, até ao XIX, levava a que não dispensassem a assistência religiosa, pois a crença era uma verdadeira âncora em caso de aperto, aflição, ou quando a morte se aproximava. A vida eterna, tal como o cristianismo a apresentava, exigia a presença de padres e símbolos cristológicos como veículos seguros e infalíveis para o lugar vago no Céu, para acalmar as angústias do quotidiano e tranquilizar a consciência a esses aventureiros após ações bélicas ou de pura rapina, quando não mesmo da mais crua barbárie.
Quando Fernão Mendes Pinto passou por Macau, em 1555, já havia aí uma igreja a que chamou matriz, com vigário e beneficiados. Era uma construção com paredes de madeira e cobertura de colmo, que terá sido construída pelo padre Gregório González pouco tempo antes.
No entanto, foi a Companhia de Jesus que mais se distinguiu na missionação desta parte do mundo, e não é de estranhar que muito cedo os padres jesuítas tenham fundado aqui três igrejas ou capelas, uma delas em 1563, designada como Igreja Matriz, então dotada com um altar dedicado a Nossa Senhora.
A arquitetura religiosa portuguesa na China, e em Macau em particular, teve características muito diversas consoante as épocas de edificação, a população que servia e até os condicionalismos políticos. Certo é que foi sempre um desejo dos responsáveis pelas congregações religiosas, pelo clero diocesano e mesmo das autoridades político‐administrativas construir à maneira do reino, não só porque conheciam melhor esse modo, como também a transposição para além‐mar de ambientes que se podiam encontrar em Roma ou Lisboa valorizava a missão de espalhar o catolicismo. A liturgia obrigava igualmente à existência de espaços com características próprias, se bem que por vezes o culto se realizasse em condições muito precárias, fosse na coberta de uma nau, ao ar livre, numa cabana de ola e colmo ou mesmo numa cela de prisão.
A procura de impor a marca ocidentalizante das igrejas está claramente demonstrada, ainda no século XVI, na adoção do estilo clássico, de que a Igreja de Nossa Senhora da Assunção do Colégio da Madre de Deus da Companhia de Jesus, vulgarmente conhecida como Igreja de São Paulo, é o melhor exemplo. No século XVIII houve também obras barrocas, mesmo num barroco erudito, como é o caso da excepcional igreja do Seminário de São José, mas já o estilo neo-clássico não esteve tão em voga como na arquitetura civil, posto que a Sé Catedral e a nova Igreja de São Lázaro nele se integrem plenamente.
Curiosamente, e certamente por influência britânica, dada a proximidade e as relações com Hong Kong, no século XIX o neogótico foi adotado, nomeadamente na construção da capela católica do Cemitério de São José e na capela anglicana do Campo Santo dos ingleses. Esta moda acompanhou outras obras revivalistas marcantes, das quais o Hospital de São Januário era a que mais se impunha.
Devemos ter em conta que no interior estas igrejas eram frequentemente decoradas de forma alheia à tradição purista ocidental, já que no campo decorativo faltavam em Macau artistas formados na Europa, sendo por isso preciso recorrer a autóctones, cuja mão estava afeiçoada a outras formas, frequentemente mais rebuscadas, mais pesadas e mais coloridas. Os desenhos antigos que temos da igreja dos jesuítas, por exemplo, provam isso mesmo, reportando os padres nas suas cartas e relatórios obras de artífices chineses que encantavam os locais e até os próprios religiosos, já aculturados ou há muito longe do reino.
De vários outros templos só há notícias vagas e dispersas da fundação, de obras e pouco mais, nada se sabendo do seu aspecto, do estilo, do maior ou menor apego aos modelos europeus ou da incorporação de elementos de influência chinesa. Fica claro, através da documentação que se conhece, que a traça das igrejas e demais edifícios religiosos católicos e anglicanos se ficou a dever a europeus, mestres‐de‐obras mais ou menos hábeis, numa primeira época, e a eruditos da Companhia de Jesus, alguns com boa formação em desenho, como o padre Carlo Spinola, que esteve em Macau em 1601 e 1602.
Alguns planos foram seguramente totalmente feitos ou então aperfeiçoados na Europa, como terá sido o caso da Igreja de São José, já do século XVIII, altura em que os engenheiros militares também entraram em ação, traçando plantas e alçados de igrejas e capelas. No século XIX executaram‐se obras tanto projetadas por arquitetos profissionais quanto por curiosos. No primeiro caso, temos como exemplo a Sé Catedral, desenhada pelo macaense Tomás de Aquino, e no segundo a Capela do Cemitério de São Miguel, traçada pelo barão do Cercal. As empreitadas foram invariavelmente dirigidas por mestres macaenses chineses, sendo igualmente chinesa a generalidade da mão‐de‐obra, aliás, de grande qualidade, quer no campo da pedraria quer no da carpintaria, dos estuques e da pintura decorativa.

Pedro Dias

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