Arquitetura Militar

Arquitetura Militar

Macau, Macau, China

Arquitetura militar

A ideia de estabelecer uma fortificação ou castelo no sul da China remonta ao tempo do final do reinado de D. Manuel I, estando documentada na carta de nomeação de Martim Afonso de Melo como capitão, em 1521. No entanto, as informações que havia em Lisboa sobre as condições no delta do Rio das Pérolas e na China em geral não eram corretas e, chegado à zona de Cantão, o nobre português viu‐se impedido de cumprir as ordens régias.
As defesas primitivas de Macau foram umas muralhas ou simples muros, que cortavam a península segundo uma linha sudeste‐noroeste e protegiam a povoação nascente de eventuais ataques vindos do interior do território. É que a defesa costeira era feita por barcos bem armados para o tempo, que não tinham rivais ali naquela época. Esta primeira muralha ainda existia em 1637, como se constata por documentação gráfica de então. Depois deu‐se a tentativa de fortificar alguns pontos altos ou saliências na costa, certamente por terem começado a aparecer embarcações holandesas na região, como aconteceu em 1601. Porém, as autoridades chinesas opuseram‐se sempre a estas construções. Foi, neste contexto, um verdadeiro braço de ferro, tanto que uma defesa construída pelos portugueses no Porto Interior, o chamado Forte de Patane ou da Palanchica, teve que ser destruída, em 1604.
Mais importante e a interessar tanto os portugueses como os chineses, para delimitar com precisão o território onde os europeus podiam viver com segurança e com a aprovação das autoridades locais, foi a Muralha do Campo. Era um muro que cortava a península de mar a mar, tendo ao centro o Forte do Monte. Dividia claramente a zona habitada por portugueses e chineses. Lembremos que foram as autoridades chinesas que em 1573 fecharam o istmo e abriram no muro as Portas do Cerco, que inicialmente só eram franqueadas uma vez por semana. Após 1645, eram quatro as portas abertas.
Recuando no tempo, temos documentado que em 1617 foi iniciado o Forte do Monte, que já ofereceu alguma resistência em 1622, aquando do mais violento ataque holandês de sempre. Só então foi decidida a construção de um conjunto coerente de fortificações, iniciando‐se a segunda fase do sistema defensivo de Macau, concluído no essencial em 1638. O cronista António Bocarro informa que em 1635 estavam já ati‐ vos o Forte de Santiago, o Baluarte de Nossa Senhora do Bom Parto, o Baluarte de Nossa Senhora da Penha de França, o Forte de Nossa Senhora da Guia e o Forte de São Paulo.
Em Macau não havia diferenças substanciais de concepção relativamente às fortalezas do Estado da Índia, sendo o material de construção era frequente‐ mente outro, mas nem por isso menos resistente. Os engenheiros conheciam a fortificação regular, mas aqui havia que contar com as características do terreno, que era muito acidentado, e por isso o pragmatismo venceu a teoria, não havendo uma única fortaleza canónica.
Num documento datado de 1740, o capitão‐geral Manuel Pereira Coutinho enumerava as fortificações da cidade que, além das já antes referidas, incluíam também dois baluartes, o do Bom Parto e o de São Pedro, e três casas‐fortes, que apenas tinham interesse como vigias. O estado geral era de ruína, devido à sistemática falta de manutenção, isto segundo o citado relatório.
No entanto, no início do século XIX parece que as defesas já estavam capazes de enfrentar os inimigos e, em 1809, as autoridades chinesas não só autorizaram como incentivaram a construção de uma muralha entre os fortes de São Francisco e de Bom Parto, já que essa era uma zona de praia muito extensa, que apenas possuía um muro baixo sem características defensivas, e por onde no ano anterior tinham entrado os marinheiros ingleses. Lembremos que a Inglaterra era nessa época a principal preocupação da China.
O ano de 1849 deu início a uma nova fase nas construções defensivas macaenses, dadas as alterações no estatuto da cidade, ocorrendo a destruição das Portas do Cerco ao mesmo tempo que as repartições que ficavam do lado norte foram transformadas num simples posto de polícia. Também o Forte de Mong‐Ha foi construído a partir deste ano, no âmbito da política de autonomização da cidade em relação à China. O monte onde está o Forte de D. Maria II foi ocupado em 1852 com a intenção de substituir o de Mong‐Ha, com o qual se veio depois a conjugar para a defesa da zona da Baía de Cacilhas.
Em agosto de 1870, as autoridades portugueses começaram a levantar um arco triunfal para marcar o limite dos territórios, passagem que continuou a ter o mesmo nome, que ficou acabado a 31 de outubro de 1871, dia da sua inauguração. Foi neste ano que se deu início à Bateria 1.º de Dezembro, situada logo por baixo do Forte de São Francisco.

Pedro Dias

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