Correios

Correios

Bissau, Guiné-Bissau | Golfo da Guiné | São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau

Equipamentos e infraestruturas

A Sede dos Correios, Telégrafos e Telefones (C.T.T.) insere-se numa estratégia geral de intervenção do Estado Novo, durante o período em que Sarmento Rodrigues era Ministro do Ultramar (1950-1955), que releva a importância das ligações telegráficas com o propósito de dotar o território guineense de uma infraestrutura de equipamentos e serviços públicos adequados.

Lucínio Cruz desenha em 1950 a primeira versão e em 1955 o projecto final do Edifício dos C.T.T.. O edifício ocupa o lote inicialmente previsto para construção da Câmara Municipal, um projeto do mesmo arquiteto apresentado em 1948, que acabará por não se concretizar.

A localização é proposta para o eixo monumental, em frente à Sé, onde se encontram diversos equipamentos públicos.

O lote de terreno retangular, é ladeado por três artérias, sendo a principal a antiga Avenida da República, hoje Avenida Amílcar Cabral. Ao programa inicial do anteprojeto de 1950 (remetido pela Província) foram introduzidas algumas alterações no projeto datado de 1955, nomeadamente ao nível da volumetria do conjunto.

A nível funcional a versão final segue a distribuição do programa inicialmente proposto para o rés-do-chão. Os acessos principais são feitos pela antiga Avenida da República, enquanto o serviço de transportes e malas seria efetuado lateralmente. O projeto define-se pelo traçado funcional das plantas, tendo em consideração o serviço interno das várias dependências e as suas ligações quer horizontais, quer verticais.

O edifício organiza-se em torno de um pátio de aproximadamente de 1000 m2, ladeado por uma galeria coberta e elevada (o equivalente a 4 degraus) que estabelece o acesso aos vários espaços interiores, excepto no alçado tardoz. Neste corpo, à garagem com acesso direto da rua seguem-se a carpintaria, a serralharia e as oficinas de grandes vãos (2,80 m) abertos ao pátio, quebrando o ritmo da sequência de pilares distanciados 1,2 m que marcam os restantes blocos. No edifício principal, junto à entrada, localizam-se as dependências abertas ao público, assim como a sala de registos e a secretaria. Lateralmente, acede-se à central telefónica, central telegráfica e central radiotelegráfica e ao núcleo de escadas, que leva aos serviços administrativos, direção e biblioteca no piso superior. Além dos espaços propostos inicialmente, introduziu-se uma escola, estúdios, gravação e locução o que fez aumentar a volumetria do conjunto, adicionando-se mais um piso ao corpo lateral. Deste modo, a planta el “L” inicialmente prevista pra o segundo piso dá lugar a uma conformação em “U”, criando um volume mais equilibrado e simétrico.

Os alçados do projeto final são desenhados, segundo o autor, “com o carácter oficial e uma dignidade que convém ao próprio edifício e local”, percetível através do recurso ao pórtico na fachada principal. Inscrevendo-se no ciclo da arquitetura do Estado Novo, representa a utilização de uma linguagem historicista, ainda que muito aligeirada, que caracteriza as obras de promoção do estado, portadora de “um sentido de grandeza... [que] está a ressurgir”. A versão final confirma opções estéticas tomadas em obras de igual programa projetadas pelo mesmo arquiteto para outros territórios ultramarinos portugueses. Lucínio Cruz desenvolve o projeto até ao detalhe, desenhando desde secções ampliadas de zonas especificas, o detalhe das caixilharias, aos pormenores dos portões da fachada principal, produzindo peças desenhadas à escala natural. Nas suas obras persiste um apurado sentido de caracterização dos ambientes interiores, ainda que recorrendo a materiais modestos.

Neste tipo de edifícios, desaparecem as varandas para ensombramento das fachadas e a ventilação cruzada faz-se agora através de janelas tripartidas, com sistema de abertura basculante. Confirma-se a regra generalizada aplicada aos edifícios administrativos que não inovam tipologicamente em relação aos seus congéneres oitocentistas, apresentando uma composição baseada em volumes depurados e representativa da organização interna. Apesar de derivarem de uma arquitetura monumental e propositadamente figurativa, são em Bissau – talvez por influência dos princípios incutidos por Sarmento Rodrigues (grande durabilidade; forte resistência aos maus tratos, baixos custos de manutenção), bastante simplificados nos seus esquemas ornamentais.

O edifício encontra-se em utilização e sofreu obras pontuais de conservação que alteraram o projeto original.

Ana Vaz Milheiro

(projeto GCU, FCT ref.ª PTDC/AUR-AQI/104964/2008)

Loading…