Igreja de São Paulo

Igreja de São Paulo

Goa [Velha Goa], Goa, Índia

Arquitetura religiosa

A destruída Igreja de São Paulo foi a segunda do colégio do mesmo nome, também conhecido por São Paulo dos Arcos, fundado pelos jesuítas junto do Seminário de Santa Fé. Este seminário tinha sido instituído em 1541 por Diogo de Borba e Miguel Vaz, vigário‑geral da Índia, e erguido junto à Carreira dos Cavalos, uma estrada que ainda hoje liga Velha Goa a Pondá. Diogo de Borba conseguiu no ano seguinte convencer Francisco Xavier, recém‑chegado a Goa, a envolver a sua comunidade na gestão do seminário, de modo a garantir um número mínimo de religiosos que pudessem ensinar os rapazes da terra destinados ao sacerdócio católico.
Após o falecimento de Vaz e de Borba em 1547, o Seminário de Santa Fé passou inteiramente para a posse da Companhia. A partir desta data, os jesuítas ampliaram não só o edificado, mas também multiplicaram as instituições neste local. Primeiramente fundaram o Colégio de São Paulo (separando a residência do seminário), e posteriormente uma escola primária, um orfanato e até um hospital. Já na década de 1580 instituíram‑se um noviciado e a casa professa, que contudo rapidamente foram transferidos para outros edifícios no centro da cidade e no Monte Santo.
A Igreja de São Paulo foi começada em 1560, por iniciativa do padre António Quadros e em substituição do templo original de 1541, e viria a ser sagrada em 1572, no dia de São Paulo, 25 de janeiro. O corpo de Francisco Xavier, que repousava na igreja velha, foi trasladado para a nova Igreja de São Paulo, onde permaneceu até à sua canonização em 1622, data em que foi novamente trasladado. Dois anos depois, em 1574, deu‑se uma epidemia com grande mortandade entre os membros da comunidade de São Paulo. Talvez por este motivo, posteriormente a esta data pouco mais se edificou no complexo de São Paulo. Em 1581 faleceu o prefeito das obras de São Paulo, o padre João de Faria, que deixou inacabados os quatro arcobotantes adicionais, construídos para reforçar as abóbadas da igreja, que já apresentavam uma grande fenda. A morte de Faria agravou a carência de membros da Companhia com competências em construção.
A insalubridade do local do Colégio de São Paulo, que tinha originado queixas dos habitantes pelo menos desde 1554, levou ao abandono gradual do colégio e das suas dependências até à sua extinção definitiva, com a expulsão dos jesuítas dos territórios portugueses, em 1759. Resta hoje a ruína da parte central da fachada da igreja, cujo restauro, possivelmente em 1948‑1952, a consolidou mas também a desfigurou.
A Igreja de São Paulo foi uma das mais antigas igrejas jesuítas fora da Europa, sendo anterior às igrejas portuguesas de uma só nave da Companhia, construída somente dois anos após as primeiras diretivas para as suas edificações, que, contudo, não mencionavam a arquitetura das igrejas. São Paulo de Goa inseria‑se assim ainda no tipo medieval de igrejas mendicantes. Era uma igreja sem transepto, cujas três naves culminavam na cabeceira em três capelas de planta retangular. As naves estavam separadas por robustas colunas dóricas de granito, das quais ainda se encontram vestígios no local onde se ergueu o corpo da igreja. A capela‑mor profunda e o coro alto (elementos pouco frequentes em igrejas jesuítas europeias contemporâneas) eram testemunho importante da ação missionária dos jesuítas em Goa. Estes, ao aperceberem‑se do poder de persuasão das representações teatrais e da música na conversão da população local, dotaram a igreja dos espaços necessários a estas atividades no contexto de cerimónias religiosas.
Não obstante o tipo arquitetónico, o projeto de São Paulo refletiu inteiramente o novo modo de edificar "ao romano". Toda a igreja foi fechada com abóbadas (de berço?) com caixotões. Embora não se conheça o autor do projeto inicial, sabe‑se que a obra foi acompanhada por diversos membros da Companhia, que se alternavam nestas funções. Há, por exemplo, notícia do jesuíta espanhol Martin Ochoa ter ali trabalhado a partir de 1567. Ochoa, que já vinha da Europa com experiência de escultor, tinha igualmente conhecimento de livros de estampas, assim como de livros de perspectiva e de portais (não identificados) de Vignola. Foi ele possivelmente o autor do portal principal, cujo modelo se encontra na representação do arco de triunfo romano de Pula (Croácia), que Serlio incluiu no seu Libro III. O portal de São Paulo tornou‑se por sua vez no modelo de portal principal para a arquitetura religiosa cristã de Goa.
A grande novidade da igreja para esta arquitetura de Goa foi a composição da fachada e a articulação exterior. De carácter modular, expandia ‑se pelas superfícies de paredes e fachada, numa grelha de pilastras toscanas e entablamentos, onde em cada pano se abria apenas uma janela ou portal. Tal articulação materializava no exterior a estrutura espacial e tectónica do interior (naves, tramos, coro alto), criando uma estabilidade formal na arquitetura através da imutável repetição do seu módulo‑base (duas pilastras e entablamento). Em Goa, esta foi a linguagem arquitetónica adequada a um contexto missionário, onde o cristianismo necessitava de apresentar uma imagem de ortodoxia inequívoca num meio que o desconhecia. Deste modo, não houve lugar aqui tanto para o exercício de instabilidade tectónica e hibridez do maneirismo italiano, como para a depuração e redução da linguagem das ordens clássicas a um mínimo estrutural da arquitetura chã portuguesa. Ainda que destruída, o que resta da Igreja de São Paulo é o testemunho mais antigo do fenómeno da introdução do Renascimento europeu num contexto de missionação cristã/católica no Oriente.

António Nunes Pereira

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