Casas

Casas

Bicholim, Goa, Índia

Habitação

As tipologias tradicionais apresentam algumas diferenças entre casas hindus e muçulmanas. Contudo, é apenas internamente, na organização do edifício e no seu uso quotidiano, que as diferenças se fazem notar. A casa muçulmana tem o poço encostado, junto tribunal Foto: alice santiago Faria à cozinha, e a extração da água ocorre por uma janela, devidamente resguardada por um telheiro baixo, por vezes quase interiorizando a boca do poço. A zona de lavagem de roupa e de banhos associa ‑se ao poço com acesso exclusivo pela cozinha, não existindo assim comunicação direta com o exterior. O espaço reservado à mulher na organização social da casa tem nesta tipologia um sentido subtil. Contrariamente a outras aldeias e vilas de Goa, não se detectou a tipologia de casa ‑pátio, tanto de famílias muçulmanas como hindus, prevalecendo a casa de quatro águas com um esboço de torreão central (apenas uma estreita fresta contínua elevada para ventilar o compartimento central). Na vila de Bicholim, é o espaço do torreão que tipologicamente hierarquiza a casa. Construtivamente, prevalece a taipa nas casas antigas, tal como nas aldeias envolventes, com destaque para Lamegão, Naroa e Assnora. Contudo, as novas construções são em alvenaria de laterite. As casas de torreão quadrangulares ou retangulares são também comuns, assim como alguns núcleos de casas de duas águas. Notáveis pela dimensão e qualidade arquitetónica são as casas da aldeia hindu de Naroa, com o seu imponente Templo de Sri Saptakotesh War. Ali as casas das famílias dominantes são de taipa, geralmente rebocada e pintada numa ou mais fachadas, apoiada num sólido embasamento de laterite, por vezes trabalhado com relevos geométricos, como o expressivo exemplo da casa pertencente à família Chandrakant Narvekav. O alpendre, servido por uma generosa escadaria com expressivas colunas, integra ‑se na fachada, conferindo à construção uma fachada nobre. São casas de torreão central retangular, de grandes dimensões cujas regras de proporção, aspectos construtivos e expressão arquitetónica estarão relacionadas com as "casas dos templos". Nessa tipologia, o torreão é habitável e dispõe de escada interior de madeira, que acede a um sobrado de grande amplitude, com seis janelas no compartimento. Nas casas intermédias, o torreão pode incorporar um conjunto de toros, varas e pranchas, acima dos 2,50 metros, permitindo o uso desta plataforma para arrumos, acedendo ‑se por uma escada amovível. Nestas casas, as carpintarias são de grande qualidade de execução, tanto no plano das assemblagens como nalguns detalhes relativos às armações das coberturas e alpendres. A mobília é igualmente em madeira, destacando ‑se as camas e as arcas. Relevante ainda é a armação elevatória em madeira, colocada na sala que acolhe nas festividades religiosas as divindades hindus, como um andor engalanado. Após este período é içada, ficando suspensa no teto. Tipologicamente, a casa desenvolve ‑se em redor do espaço central, onde gravitam quartos de dormir, compartimentos de arrumos de alfaias e bens diversos e ainda a cozinha, com a tradicional fornalha de chão e alguns indispensáveis instrumentos para a preparação dos alimentos, como o rogddo para esmagar especiarias, o fator para triturar, raladores de coco, o adoi para preparar o peixe e o bendul para transportar água. De um modo geral come ‑se na cozinha sentado de perna cruzada; contudo, nas casas de maior dimensão utilizam ‑se mobílias com mesas e cadeiras. São exemplos de aldeias de grande coesão social, com templos representativos de uma cultura muito antiga, como o pequeno Templo Maruti em Advalpali (Assonara) cujas figuras e frisos geométricos de cor almagre cobrem fachadas e paredes interiores. A pe quena galilé/alpendre revela a provável origem de alguns elementos arquitetónicos caracterizadores de algumas das arquiteturas tradicionais goesas. Ver enquadramento no texto da página 82.

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