Solar Berquó

Solar Berquó

Salvador, Bahia, Brasil

Habitação

Da área central da cidade, diversas ladeiras íngremes e estreitas descem em direção à Baixa dos Sapateiros, a antiga Rua da Vala. Na base de uma delas, pavimentada com pedra irregular, que o povo maldosamente chama "cabeça de negro", a majestosa fachada passa quase despercebida no meio do casario. A história do solar é longa e atribulada. Para iniciá‐lo em 1691, José Alves de Lima tomou empréstimo à Santa Casa. Em meados do século seguinte (1760) era ocupado por Francisco António Berquó da Silveira, ouvidor do crime, de quem conservou o nome. Durante as lutas da independência, serviu de quartel às tropas portuguesas e de residência ao general Madeira de Melo. Aí, no ano de 1824, Felisberto Gomes Caldeira, comandante das tropas da província, foi assassinado por seus próprios soldados, durante uma rebelião. Desde 1855 foi, por mais de um século, colégio de senhorinhas da elite, até ser comprado pelo governo, no início dos anos de 1980, para instalar a sede regional do IPHAN. O partido é de casa nobre de pátio, com dois pavimentos, além de porão e sótão. A planta é aproximadamente quadrada, como se encontra nas mais abastadas residências da época. Na frente a bela portada, de frontão curvo interrompido, abre‐se para o saguão do qual nasce o corredor central que se repete tanto no térreo como no pavimento nobre. No fundo um amplo terreno, densamente arborizado, quase uma chácara, emoldura a construção. Os salões principais enfeitam‐se de forros em gamela, e suas portas alinhadas criam perspectiva enfilade típica dos solares renascentistas. As janelas de conversadeira convidaram em outros tempos ao lazer das sinhás. Hoje, delas se apreciam os silhares de azulejos de tapete, de camélia ou de curioso tema figurativo, com pássaros e vasos floridos.

Ana Maria Lacerda

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