Salvador

Lat: -12.970381984123000, Long: -38.512382040777000

Salvador

Bahia, Brasil

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Diante do pouco sucesso da tentativa de colonização do Brasil pela iniciativa privada e sua crescente cobiça pelas novas potências europeias, a coroa portuguesa decide criar um Governo Geral no Brasil para dar apoio às capitanias hereditárias e centralizar administrativa e militarmente a colónia. O lugar escolhido para a sede deste governo foi a maior baía da costa brasileira e do Atlântico Sul, equidistante do Norte e do Sul, e ponto estratégico de apoio à rota para o Oriente. Em 29 de Março de 1549, chega à Baía de Todos os Santos Tomé de Souza, primeiro governador‐geral do Brasil, trazendo consigo mais de mil pessoas e uma ordenança contendo todas as normas que deveriam orientar a colonização do país e a fundação da vila, concebida como "fortaleza e povoação". Esta ordenança e modelos trazidos seriam marcos da nova política de urbanização portuguesa, aplicada, a partir desta experiência, a outras colónias. O sitio escolhido para a implantação de Salvador foi o bordo de uma falha geológica de 65 metros de altura que delimitava a baía, conhecida como a Montanha, tendo em seu sopé, numa estreita faixa de praia, o porto. Para encarregar‐se da construção da cidade, segundo as "traças e amostras" trazidas da metrópole e atribuídas a Miguel de Arruda, mestre das fortificações do reino, veio com Tomé de Souza o mestre de obras Luís Dias. A primeira tarefa do mestre foi fazer muralha de taipa de pilão para complementar as fronteiras naturais do sítio com duas portas: Santa Catarina ao norte e Santa Luzia ao sul. Em seguida, foram cordeadas as ruas, três longitudinais e duas transversais, e uma praça onde foram localizados os três poderes civis. Ruas e praças com traçado regular, mas ajustadas à topografia. Ao longo da praia se desenvolveriam as atividades portuárias, de reparação e construção naval e o comércio. A ligação entre os dois andares da cidade se fazia por ladeiras muito íngremes e funiculares conhecidos como guindastes. Em 1553, tem início a edificação da Sé Catedral, extramuros, que deflagraria a expansão urbana em direção ao norte. Na sua vizinhança os jesuítas construíram seu colégio e em torno de seu terreiro se formaria o Bairro da Sé, com traçado rigorosamente em xadrez. Formam‐se assim dois pólos com funções muito claras: a Praça do Palácio, com função cívica, e o Terreiro de Jesus, de carácter religioso, onde, em 1587, iriam se instalar também os franciscanos. Esta foi uma experiência de carácter nitidamente renascentista, prenunciadora do urbanismo barroco. No final do primeiro século, é reforçada a defesa da cidade com a construção do Fortim de Santo António da Barra, as torres de Santo Alberto e Santiago, esta em Água de Meninos, e o Castelo de São Felipe, atual Fortim de Nossa Senhora de Monte Serrat, e a restauração e ampliação das muralhas, para conter a expansão da cidade. Para além das portas são doadas grandes concessões de terras aos carmelitas, ao norte, e aos beneditinos, ao sul, induzindo a um crescimento linear da cidade, na cumeada da montanha. Fundada a cidade, é experimentado, com enorme sucesso, o cultivo da cana‐de‐açúcar no Recôncavo da Baía de Todos os Santos, onde são implantados numerosos engenhos até o final do século. Tentada, sem êxito, a utilização da mão‐de‐obra dos índios nos engenhos, são os mesmos expulsos do Recôncavo por volta de meados da década de 1560 e importados, até ao século XIX, cerca de dois milhões de escravos, principalmente do Golfo de Benim. Nos tabuleiros em volta ao Recôncavo é desenvolvida a cultura do fumo, moeda de troca, na costa da África, por escravos. Nascia, assim, a primeira indústria multinacional envolvendo três continentes, financiada por capitais flamengos, operada por portugueses, garantida pelos ingleses, movida por braços africanos e com seu produto comercializado na Europa pelos holandeses. Para assegurar seu funcionamento, formou‐se o chamado pacto colonial. Com a anexação do reino de Portugal pela Espanha, em 1580, este pacto é rompido no início do século XVII e os holandeses invadem a Bahia e Pernambuco, as duas maiores províncias produtoras de açúcar, para restabelecer o fornecimento do produto a seus clientes. Em 18 de maio de 1624 os batavos ocupam Salvador, e sua população recua para os arredores de onde, com reforços vindos de Pernambuco, ataca em várias oportunidades. Os holandeses para se defenderem represam um riacho que corria ao longo da atual Baixa dos Sapateiros, criando um extenso fosso do lado de terra. A liberação da cidade se dá com a chegada de uma esquadra luso‐espanhola de 52 barcos e 1.200 soldados, que sitia Salvador por mar e terra. Após um mês de resistência, os holandeses batem em retirada, em 1 de maio de 1625, e os portugueses refazem as fortificações para resistirem a novas investidas. Curiosamente, o fosso aquático holandês iria favorecer a expansão da cidade para segunda linha de colinas, na medida que a resistência local se concentrou em pontos elevados vizinhos, como Palma, Santana Poeira e Saúde, dando origem a burgos que mais tarde se integrariam à cidade. Na segunda metade do século XVII, com a Restauração Portuguesa, o declínio do lucrativo comércio com a Índia, a agroindústria do açúcar em expansão e a descoberta de ouro no interior da colónia, a coroa começa a dar maior atenção ao Brasil e à sua capital. É neste período, até a segunda década do século seguinte, que se constroem os maiores e mais requintados edifícios públicos, tanto civis, quanto religiosos. Em 1660, o governador‐geral Francisco Barreto de Meneses reforma e amplia a Casa de Câmara e Cadeia e o Paço dos Governadores. A maioria dos grandes conventos, matrizes, hospitais e asilos ligados à Igreja são construídos ou ampliados neste período, com recursos públicos, devido ao regime do padroado. A descoberta e lavra do ouro, na transição do século XVII para o XVIII, nas Minas Gerais e, pouco depois, em Rio de Contas e Jacobina, provocariam o deslocamento de grande numero de escravos do Recôncavo para as regiões auríferas, provocando, a partir da segunda década do século XVIII, uma grande crise na agroindústria açucareira. Mas Salvador diversifica suas atividades económicas, aumentando as exportações de tabaco e algodão, desenvolvendo o comércio e a atividade financeira. Para suprir a demanda de produtos alimentícios das regiões auríferas, aumenta a produção de farinha de mandioca no litoral e o rebanho bovino nos currais à margem do São Francisco, via natural de acesso às minas. A riqueza provocada pela exportação do ouro, que num primeiro período se fazia pelo porto de Salvador, e o aumento de sua área de influência, que chegava até Minas Gerais, são responsáveis por um dos períodos mais prósperos de Salvador, ou seja, a primeira metade do século XVIII. Um dos indicadores deste enriquecimento é a construção de sedes de irmandades e ordens terceiras com um luxo que denuncia sua verdadeira função de representação de grupos sociais, inclusive ex‐escravos. Neste período, pelo menos 16 irmandades constroem igrejas com altares de talha dourada, e muitas delas com painéis de azulejos mandados vir de Lisboa, como demonstração de poder, riqueza e prestigio. A cidade havia‐se expandido pela segunda linha de colinas e era preciso protegê‐la com uma nova linha defensiva. Por esta razão, entre 1642 e 1647 é criado um cordão de trincheiras envolvendo os novos bairros formados após a ocupação holandesa, protegidos pelo novo dique do Tororó, resultante do represamento do curso superior do Rio Lucaia. Dique que ainda se conserva, em parte. Mas ainda assim não era suficiente, e a coroa manda, em 1714, o brigadeiro e engenheiro João Massé com a missão de atualizar a planta da cidade e elaborar um projeto geral de fortificação. São construídos nesta oportunidade os fortes do Barbalho e Santo António Além‐do‐Carmo, ao norte, e São Pedro, ao sul, além de reforçado e aumentado o Forte do Mar. Estes fortes e seus acessos induziriam a uma expansão urbana rarefeita, rizomática. Mas a abertura de um caminho mais curto para a costa e a necessidade de centralizar e melhor controlar as exportações e contrabando de ouro induziram a coroa, em 1763, a mudar a capital da colónia para o Rio de Janeiro, reduzindo a importância política e económica de Salvador. As duas primeiras décadas do século XIX, ainda sob domínio português, são marcadas pela rápida e revolucionária passagem de D. João VI pela cidade, em 1808, a caminho do Rio de Janeiro, fugindo da invasão napoleónica de Portugal. Sob forte pressão dos ingleses, que o escoltavam, e dos comerciantes locais, D. João abre os portos brasileiros ao mundo, medida consolidada com o tratado de comércio com a Inglaterra, de 1810, e a franquia comercial de 1814, que transformaria o maior porto brasileiro num empório comercial com consulados e muitos negociantes estrangeiros. Concorre para este quadro económico o reflorescimento da economia agrícola, com o retorno da mão‐de‐obra escrava das minas, que se esvaíam. D. Marcos de Noronha, 8.o conde dos Arcos e governador provincial, com os recursos do aumento do comércio, inicia em 1810 uma série de obras de modernização da cidade, como a melhoria das ladeiras que ligavam seus dois níveis, a construção do Passeio Público, da Biblioteca, do Teatro São João e do Paço do Comércio, atual Palácio da Associação Comercial. Para evitar os frequentes corrimentos de terra na montanha, que destruíam edifícios públicos e matavam muitas pessoas, cogita ele em transferir o centro administrativo da cidade para a península de Itapagipe. Para tal manda vir do Rio de Janeiro os arquitetos José da Costa e Silva, das Obras Públicas, e João Silva Muniz, do Paço, que iniciam a construção de um grande canal de drenagem e navegação no istmo da península, mas desistem do projeto. Embora nascida com uma trama regular de ruas, numa topografia muito acidentada, Salvador não manteve este padrão no seu desenvolvimento, preferindo seguir espontaneamente as cumeadas das colinas, articuladas por pequenos arcos, onde se desfrutava de vistas para o mar e para os vales, boa ventilação e se estava livre de inundações e mosquitos. A partir do século XX se dá uma estratificação social da cidade, com os ricos e a classe média morando nas cumeadas e os pobres nos vales e encostas. Um sociólogo, na década de 1940, definiria este padrão dizendo que o relevo social de Salvador reproduzia a topografia de seu sítio. Este esquema de desenvolvimento espontâneo se manteve até o final da década de 1960, quando se começa a implantar avenidas de vales propostas pelo plano diretor do EPUCS, de meados dos anos 40. Como diz Manuel Teixeira, "Salvador da Bahia pode ser vista como a síntese, por ventura a mais completa e perfeita, de diferentes modelos e concepções de cidade, realizada num curto período de menos de cinquenta anos".

Paulo Ormindo de Azevedo

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