Belém

Lat: -1.455019444444400, Long: -48.502366666667000

Belém

Pará, Brasil

Enquadramento Histórico e Urbanismo

A fundação de Belém, em 12 de janeiro de 1616, deu‐se na sequência imediata da conquista de São Luís aos franceses. O relato da jornada de fundação reforça o sentido territorial da empreitada, assumindo que o que estava em causa era garantir o domínio da foz do Rio Amazonas. Um forte, simbolicamente denominado Presépio de Belém, foi o primeiro marco da ocupação e seria literalmente o ponto nodal de desenvolvimento do núcleo urbano. O terreno de instalação inicial da cidade apresentava‐se como uma plataforma praticamente plana e com cota de cerca de sete metros, circundada pela Baía de Guajará e pelo Rio Guamá, e isolada da terra firme, um pouco mais baixa, por um grande alagado, o Piri. Esta situação, embora constrangesse o crescimento do núcleo, funcionava, como se pretendia inicialmente, como uma espécie de ilha em que o alagado servia como elemento de defesa natural. O desenho desta área da cidade, que hoje se chama Cidade Velha, é de certo modo auto‐explicativo. A primeira via, a Rua do Norte, não só define a orientação escolhida como deixa claro o sistema de referência utilizado, que remete para os eixos cardeais. As ruas seguintes têm o forte como eixo focal, gerando uma malha que se poderia dizer de inspiração radiocêntrica. Cruzando as ruas, as travessas seguem a orientação geral leste‐oeste, com pequenas variações. A sequência da criação dos principais pontos polarizadores da evolução urbana mantém a relação com a referência primordial ao forte enquanto centro gerador do núcleo: a Matriz, em 1619, a Capela de São João, em 1622, e o convento carmelita, em 1626. A situação relativa destes três templos reforça a inspiração radiocêntrica do desenho das ruas, posto que todos se situam em posições radiais centradas no forte, assim como indicam o perímetro da cidade no primeiro quartel do século XVII. Em 1627, a câmara obteve do governador do estado uma légua de terra para o seu património, que foi demarcada seguindo a mesma base radiocêntrica, tomando o forte como ponto de partida das medições. No mesmo ano de 1626 em que os carmelitas instalaram o seu convento nos limites do Bairro da Cidade, os franciscanos também fundaram o seu, desta feita estabelecendo o que seriam os limites do Bairro da Campina, que se desenvolveria na várzea à beira da Baía de Guarajá. Entre o Convento de Santo António, situado no extremo da Campina, e o forte, instalado na plataforma da cidade, foi construído, numa localização sensivelmente mediana entre um e outro edifício, o Convento de Nossa Senhora das Mercês, fundado em 1640. Em 1653, um terreno também nas imediações do Convento das Mercês foi dado aos jesuítas recém-chegados para que ali construíssem a sua casa, o que efetivamente fizeram, embora ainda no mesmo ano se tenham transferido para outro terreno situado ao lado do forte, na grande praça onde já estava a matriz. Os dois bairros (que seriam as bases das respectivas freguesias eclesiásticas, criadas em 1727) ligavam‐se e separavam‐se pelo porto. Nasce daí uma espécie de polaridade complementar, que fez com que ambos tenham desenvolvido diferentes, mas complementares, competências urbanas. O Bairro da Campina cedo assumiu o carácter de área comercial do núcleo, potenciado pela relação mais direta com o porto, sem a diferença de altura que, embora pouca, existia relativamente ao forte e à praça, na Cidade. O Convento de Nossa Senhora das Mercês funcionou como um pólo importante do desenvolvimento urbano do Bairro da Campina. Diante do convento abriu‐se um largo, que acabaria por cumprir funções de feira, e na sua retaguarda, no rio, construiu‐se em 1665 o Fortim de São Pedro Nolasco, assumindo a defesa daquela parte do núcleo. Ligando o Convento das Mercês à Cidade estabeleceu‐se o eixo central do bairro, que sintomaticamente tomaria depois o nome de Rua dos Mercadores (atual Rua João Alfredo) e, na sua continuidade para nordeste, ainda paralelo ao rio, a Rua de Santo António, que culminava no respectivo convento. A ocu‐ pação da área foi relativamente rápida. Em 1676, o arruador da câmara foi chamado a abrir a Rua de São Vicente (atual Rua Manuel Barata), para abrigar 234 colonos açorianos vindos para consolidar a conquista da região. Mas enquanto a Campina mantinha em aberto as linhas de crescimento do núcleo e a sua dinâmica comercial, a Cidade, que se encontrava naturalmente limitada pelo Piri, reforçava o seu carácter de centro político e espiritual do núcleo urbano, sobretudo na grande praça onde se reuniam o forte, a Sé e o colégio dos Jesuítas. A este coração da cidade se deve associar também o Palácio dos Governadores, que viria a ser construído precisamente entre a Cidade e a Campina, como que a reforçar o carácter de ligação entre os bairros. E diante dele, o porto, o verdadeiro centro de ligação da cidade com a região. Na segunda metade do século XVIII, Belém passou a sediar a capital do estado do Grão‐Pará e Maranhão. Sobretudo durante a administração de Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1751‐1759), irmão do marquês de Pombal, implementaram‐se medidas que mudaram consideravelmente o quadro regional (Vilas Pombalinas da Amazónia). Belém recebeu neste período os cientistas e engenheiros integrantes das comissões demarcadoras de limites, que tiveram uma ação importante em toda a Amazónia, assim como a Viagem Filosófica do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira. A área urbana dos dois bairros encontrava‐se já praticamente definida e manter‐se‐ia de certo modo estabilizada até quase ao final do século. A evidência da nova dinâmica urbana manifestou‐se sobretudo na monumentalização da arquitetura. A maioria das igrejas finalizou‐se neste período e várias delas contaram com a intervenção de António José Landi, arquiteto italiano integrante da comissão demarcadora de limites, que deixou obra notável na cidade, incluindo o monumental Palácio dos Governadores. Landi também terá desenhado sobrados para os ricos proprietários de Belém, de que se conhecem alguns desenhos. Restam, no entanto, muito poucos elementos de arquitetura civil do século XVIII em toda a cidade. Ainda na primeira metade do século XIX a cidade avançou sobre os terrenos do Piri, que foi objeto de obras de canalização e ensecamento. Depois, o eixo de expansão assumiu‐se em direção ao arraial de Nazaré. Em 1849, foi arborizado o Campo da Pólvora, que viria a constituir o futuro centro da Praça da República. Entre os anos finais do século XIX e os primeiros do século XX, sob o impulso económico da borracha, desenhou‐se a Belém da Belle Époque. Tendo como base o plano urbanístico do engenheiro Nina Ribeiro e a ação e determinação política de António Lemos, o plano de expansão não só logrou estabelecer uma relação de continuidade com a cidade herdada, sem a destruir, como retomou a inspiração radiocêntrica das ruas da "Cidade Velha".

Renata Malcher de Araujo

Arquitetura religiosa

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Habitação

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