Malacca [Malaca]

Lat: 2.192772222222200, Long: 102.246833333330000

Malacca [Malaca]

Malacca, Malásia

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Em 1511, após a conquista, Afonso de Albuquerque pôs em prática um programa de fortificação, construindo uma fortaleza de tipo tradicional, ao lado da cidade malaia, que a refrega não destruíra. Numa primeira fase, as fortificações definiram a estrutura urbana, pois a segurança dos portugueses aqui residentes foi uma das primeiras preocupações, ocupando a guarnição e as poucas famílias portuguesas ou portugueso‐malaias o interior da fortaleza albuquerquiana.
Uma nova muralha, que circundava o núcleo urbano essencial, fora começada cerca de 1526, no tempo do vice‐rei Pedro de Mascarenhas, mas levou tempo a concluir. Só com Estêvão da Gama, entre 1534 e 1539, é que foi dada ordem expressa para que se levantasse uma muralha do lado de terra, obra que terminou já em tempo do capitão Pêro de Faria. Porém, foi necessário logo de seguida construir uma fortificação com cortinas boas e fortes e baluartes eficazes, que defendessem o núcleo urbano principal, onde tinham sido construídos os principais edifícios públicos e religiosos: a Igreja Matriz e a Casa da Câmara, a Misericórdia, o Hospital dos Pobres, o Hospital Real, o Colégio da Companhia de Jesus, o Paço Episcopal, o Convento de Santo Agostinho e o de São Domingos.
O desenho de 1568 que acompanha o texto da auto‐ ria de Jorge de Lemos, História dos Cercos de Malaca, como o de Gaspar Correia, mostra uma povoação pequena, dividida em duas partes, a da fortaleza, reservada aos europeus, e a que ficava do outro lado do rio, onde viviam portugueso‐malaios, alguns portugueses já estabelecidos e com família, e outras comunidades, que era defendida pela tranqueira, um muro que estava na sua extremidade. No início do século XVII, o núcleo essencial da povoação portuguesa estava ainda dentro da fortaleza, funcionando o velho castelo construído por Albuquerque como casa do capitão.
A cidade buliçosa, do comércio e da pequena indústria, dos armazéns e também de algumas igrejas e templos das outras religiões, ficava do outro lado do Rio de Malaca, atravessável por uma ponte, que arrancava do Terreiro, onde estava também o pelourinho.
Mas nada melhor para perceber a malha urbana de Malaca, nos últimos tempos da administração portuguesa, do que a breve descrição que o seu mais ilustre cronista, e também um dos seus mais ilustres filhos, Manuel Godinho de Erédia, escreveu numa obra que intitulou Informação da Áurea Quersoneso: "Malaca está plantada na costa ocidental da Áurea Quersoneso, quase na barra, e bem ao pé de um formoso outeiro, e ao longo de um caudaloso rio, e a povoação ao presente está dividida em quatro partes e porções. A primeira delas é a do povo da cidade e fortaleza, que toda está cercada de fortes e grossos muros, e soberbos baluartes fabricados de pedra e cal, com muita artilharia de bronze. A segunda povoação é a do povo de além do rio, que se diz a terra de Tanjon Upe, que se estende para a parte mistral ou Noroeste, que tanbém se diz a terra da tranqueira ou do bendara. A terceira povoação é a do povo de Ilher e Buquetchina, que da fortaleza se estende para a parte siroco ou sueste. A quarta povoação é a do povo que vive ao longo do rio, que propriamente se chama povoação (de) Sabá, que se estende com o mesmo rio para tramontana ou Norte".
Dentro das muralhas os portugueses construíram nos espaços disponíveis, tendo em conta a difícil orografia, com o Morro de Nossa Senhora da Anunciada muito inclinado e custoso de vencer. As ruas, plataformas e escadas conformaram‐se a esta elevação e ao traçado das muralhas. Se excetuarmos os três quarteirões situados por trás da primeira fortaleza e estruturados a partir da Rua Direita, parece não ter havido qualquer planeamento.
À igreja e Colégio da Companhia de Jesus chegava‐se por ladeiras íngremes e sinuosas, que só permitiam construções muito modestas e pequenas. No entanto, do outro lado, dado que tinha um declive menos acentuado, foi possível estruturar uma rua reta, a partir da frontaria das instalações dos jesuítas. As outras linhas de circulação fácil eram as que se situavam ao longo das cortinas, por dentro, quebrando nos baluartes de ângulo.
As ligações entre as ruas internas e os caminhos externos levaram à abertura de quatro portas, além da principal, que dava diretamente para o Terreiro da Alfândega. Uma estava ao lado do Baluarte de São Domingos; a segunda ficava virada ao rio, a norte do Terreiro, e junto do Baluarte de São Domingos; outra ligava a Rua Direita à Rua da Madre de Deus, caminho que ultrapassava a linha de água de Aerlele, e era defendida pelo baluarte com esta última invocação. A última era a Porta de Santiago, situada no seguimento da descida da igreja dos jesuítas, que ainda hoje existe, e que continuava exteriormente pela rua que ia para Ilher.
Enquanto o bairro de entre muros ficava tolhido, prosperava a chamada povoação, que não tinha outros limites que não fossem os meandros do rio e a tranqueira, de onde lhe adveio também a designação de "bairro da tranqueira", ou trankera, como ainda hoje se diz. Ainda assim, foi construída nova cortina com dois baluartes em frente do paret china, em torno da casa do bendara, o governador e senhor nativo, como as plantas holandesas atestam.
Como as plantas holandesas feitas em 1641 muito bem comprovam, a rede viária estava estabelecida e de forma ordenada por bairros étnicos, baseada em longas e retas vias estruturantes: o campon bendara, o campon chelin, o campon china, e a travessa do bendara, que acompanhava a linha da própria tranqueira, embora algumas dezenas de metros afastada dela. A zona de maior densidade de ocupação, já com ruas a cortarem‐se ortogonalmente e a formar blocos retangulares, ficava junto à margem do Rio de Malaca, em frente da fortaleza e a escassa distância da ponte. Estes documentos gráficos provam claramente que a povoação do tempo dos portugueses ainda existe, e que o seu traçado está intacto.
Do ponto de vista urbanístico, esta área da cidade de Malaca é das mais bem conservadas de todas as que os portugueses tiveram na Ásia, e até muitas das casas, posto que restauradas ou modernizadas, são ainda anteriores ao ano de 1641, quando os holandeses se apoderaram da cidade.

Pedro Dias

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