São Tomé

Lat: 0.338405999960040, Long: 6.733718000013100

São Tomé

Ilha de São Tomé, São Tomé e Príncipe

Enquadramento Histórico e Urbanismo

A cidade de São Tomé situa‐se no arquipélago de São Tomé e Príncipe, no Golfo da Guiné. É a principal cidade da ilha do mesmo nome, onde está implantada a norte. O arquipélago tem duas ilhas principais (a Ilha de São Tomé e a Ilha do Príncipe) e várias ilhotas. Foi território português desde a primeira ocupação até 1975, data da sua independência. O seu povoamento iniciou‐se quando a ilha maior, de São Tomé, foi doada a João Paiva em 1485, cerca de quinze anos após a sua descoberta. Houve outras donatarias reais, depois da de João de Paiva (1485‐1490): a de João Pereira (1490‐1493), e a de Álvaro Caminha (1490‐1499). Os colonos iniciais, enviados para a ilha em 1494, como incentivo à plantação de cana‐de‐açúcar, terão sido degredados e filhos de judeus (mas a tese foi contestada, cf. Azevedo, 1947). A verdade é que a ilha foi grande produtora de açúcar nos séculos XV‐XVI; mas o povoamento foi sempre difícil, quer pelo clima quer pelas condições políticas e económicas. Todavia, os interesses que a coroa portuguesa mantinha através do comércio no continente africano e o facto de estas ilhas constituírem um importante ponto de apoio à navegação junto à costa africana, levaram a superar todas as dificuldades. Em fases mais recentes de ocupação do território, verificou‐se a gradual urbanização do interior, com a implantação de alguns singelos conjuntos proto‐ ‐urbanos nos séculos XIX e XX, nomeadamente as pequenas localidades de Trindade, Madalena, Santo Amaro, Guadalupe, Neves, Santana, Ribeira Afonso e Santa Cruz dos Angolares. Com pequena dimensão, constituem aglomerados dotados apenas com um equipamento básico (apoio às populações dos vizinhos roceiros, como a igreja e as missões, a escola, o posto dos correios, o mercado, além de pequenas vendas de estrada), e estrutura por vezes de tipo mais concentrado (como no caso de Trindade e da Madalena), outras vezes seguindo a linha litoral (como sucede em Santana, Ribeira Afonso ou nas Neves), outras ainda assumindo a forma de povoações‐rua, com o casario desenvolvido ao longo das vias e estradas (como Guadalupe e Santo Amaro). As mais interessantes, do ponto de vista paisagístico, pelo relevo acidentado do local onde se implantam, serão Santa Cruz, ou São João dos Angolares.
As dificuldades de povoamento da Ilha de São Tomé refletiram‐se desde o início no crescimento da cidade, como se verifica através dos privilégios concedidos por D. Manuel à Misericórdia e à Confraria de Nossa Senhora da Graça, em 1519. Começaram a ser vencidas quando a ilha passou a depender diretamente da coroa, com um capitão nomeado pelo rei D. João III em 1522‐1523. O mesmo rei outorgou a carta de foral à povoação de São Tomé em 1524, quando o comércio do açúcar estava em desenvolvimento. Em 1534, a Santa Sé criou a diocese com sede no mesmo local, e no ano seguinte o rei elevou‐a à categoria de cidade por carta régia de 22 de abril. Em 1557 tinha seiscentos a setecentos fogos. Em 1566 iniciou‐se a construção da Fortaleza de São Sebastião, o que não impediu o saque da cidade por corsários franceses em 1567. Em 1574 foi de novo atacada, mas pelos angolares do sul da ilha. O século XVII foi um período de abandono e decadência, com saída de muitos proprietários para o Brasil. Em 1600 deu‐se o primeiro ataque holandês. O pequeno Forte de São Jerónimo, mandado construir por Filipe I em 1613, não impediu que a ilha fosse ocupada pelos holandeses em 1641, mas os portugueses conseguiram expulsá‐los em 1644. Em 1679 findou a jurisdição diocesana sobre o continente africano, e em 1708‐1709 deu‐se outro ataque francês à cidade. O século XVIII foi uma época de profunda decadência e conflitos político‐administrativos, de tal modo que em 1721 o rei ordenou a abertura dos portos a todo o comércio e à navegação estrangeira, na esperança de revitalizar a economia local. A crise na ilha agravou‐se na fase pombalina, tendo São Tomé deixado de ser a sede da administração do arquipélago (que passou para Santo António do Príncipe) durante um século, entre 1753 e 1852. Só no último quartel do século XIX houve um surto de crescimento, ligado ao novo ciclo económico do café e do cacau, que deixou um conjunto assinalável de construções de características oitocentistas, de fim‐de‐século, na cidade e nas roças. Este crescimento, porém, foi abrandando ao longo da segunda metade de Novecentos.
A implantação do primeiro aglomerado urbano na Ilha de São Tomé - a "Povoação", foi condicionada por diversos fatores. No sítio escolhido, a nordeste da ilha, junto a uma baía abrigada (Baía de Ana Chaves), existiam boas condições para a criação de um porto natural. A topografia facilitava a implantação de pontos de defesa e a qualidade das terras proporcionava o cultivo de produtos agrícolas. A proximidade de uma ribeira (Ribeira Água Grande) facilitava o abastecimento de água potável às populações. O pequeno aglomerado prosperou durante os primeiros anos em torno dos engenhos de açúcar e do porto, dando origem, uns anos mais tarde, à cidade de São Tomé. À semelhança das outras ilhas atlânticas de origem portuguesa, o desenvolvimento da estrutura urbana é marcado pela presença da baía e da ribeira. Durante o século XVI, foi instalado o núcleo de carácter civil e religioso em torno da Torre do Capitão, da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Graça e da Igreja e Hospital da Misericórdia. Com o surto de desenvolvimento económico provocado pelo comércio açucareiro e com o aumento da população, a cidade cresceu para poente, desenvolvendo‐se um outro núcleo, de carácter mercantil, ligado ao porto e aos edifícios cujas funções lhe estão associadas: a Alfândega e a Feitoria. A estrutura urbana inicial desenvolve‐se, assim, a partir de uma pequena rua, junto à costa e paralela ao mar, que separa o quarteirão da Misericórdia do quarteirão dos edifícios confinantes com a torre. Esta rua liga o núcleo da Sé e da Misericórdia ao porto. Constituiu o que se designou, segundo a planta de João Rozendo Tavares Leote (1788‐ ‐1796) a "Rua Grande", e posteriormente a "Rua Direita". O povoamento inicial era, portanto, do tipo linear e fazia‐se ao longo deste caminho que acompanhava a linha da costa. Este eixo é o elemento estruturador da cidade e é ao longo dele que se implantam os edifícios institucionais mais importantes da cidade: a Torre do Capitão, a Misericórdia e a Sé, ligada a este por um amplo terreiro; mais tarde a Alfândega, a Câmara e a Cadeia; por fim a Fortaleza de São Sebastião, para nascente, e a Igreja de São João, para poente. A Rua Direita, para além de ligar vários elementos urbanos de grande significado, estrutura uma malha urbana constituída por outras novas ruas que se cruzam com estas, mais ou menos na perpendicular. Cria‐se, assim, numa primeira fase, uma estrutura regular de quarteirões alongados, essencialmente constituídos por edifícios que serviam de armazém para guardar "os açúcares" e por edifícios pertencentes à Alfândega, como se pode ainda hoje adivinhar através do traçado existente. Os lotes urbanos são paralelos uns aos outros e ocupam o quarteirão de um lado ao outro, tendo uma frente para uma rua principal e outra para uma rua secundária. Mais tarde, durante o século XVII, assiste‐se a uma nova fase de desenvolvimento urbano, marcada por uma malha regular que ainda hoje se reconhece na atual baixa de São Tomé. A estrutura de quarteirão caracteriza‐se pela existência de lotes com uma única frente virada para a rua, sendo que a outra dá para o interior do quarteirão. A forma dos quarteirões passa a ser mais parecida com o quadrado. Nesta fase de crescimento, o núcleo urbano estende-se para o interior e ao longo da marginal, através da implantação de novas igrejas e pontos defensivos, como por exemplo: a Igreja de Santo António, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a Igreja de Santo Agostinho, a Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, o Forte de São Jerónimo (1613‐1614) e o Forte do Picão de Nossa Senhora da Graça, que se presume não ter sido concluído. Dada a localização destes edifícios é possível reconhecer uma rede viária em estrela que, a par com a ribeira que penetra para o interior da ilha, acentuou esta tendência e fez com que o aglomerado se desenvolvesse para o interior. Posteriormente e durante o século XX, o crescimento da cidade é marcado por importantes obras de saneamento associadas à existência de pântanos e ao aparecimento de novos bairros de vivendas isoladas, típicas do Estado Novo, construídos sobre eles. São de destacar o antigo Bairro Salazar (a norte) e o antigo Bairro Marcelo Caetano (a poente, junto à marginal), construídos nos anos 50 do século XX. Por outro lado, o aparecimento de novos edifícios de equipamento, como os do antigo Cineteatro, do Arquivo Histórico e do Mercado Municipal, entre outros, imprime à cidade o cunho modernista próprio da época.

José Manuel Fernandes

Arquitetura religiosa

Arquitetura militar

Equipamentos e infraestruturas

Habitação

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