Ilha de Moçambique

Lat: -15.031730891231000, Long: 40.736999982054000

Ilha de Moçambique

Nampula, Moçambique

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Os portugueses fixaram‐se na Ilha de Moçambique nos anos de 1502‐1507, no que constituiu uma das suas primeiras instalações na costa africana oriental. A pequena povoação da Ilha, implantada no seu lado poente, foi elevada a vila em 1761, no quadro das reformas pombalinas que procuraram autonomizar Moçambique do Estado da Índia, e tornou‐se cidade entre 1818 e 1834, mantendo‐se como capital de todo o território até 1898. Foi ainda capital da região do Niassa até 1934, quando essa função passou para Nampula. A ilha possui uma variada e rica iconografia, correspondendo às épocas de maior desenvolvimento, sobretudo até ao século XIX. O mapa O Distrito da Ilha de Moçambique, publicado no relatório da Escola de Arquitetura de Aarhus, apresenta a Ilha (como é designada comumente) na caracterização do seu contexto geográfico: de reduzidas dimensões (com uns três quilómetros de extensão máxima) e forma estreita e alongada, situa‐se num golfo recortado, estando atualmente ligada a terra por ponte rodoviária (a via férrea para Nampula termina na costa, no Lumbo, perto de um aeródromo). A Ilha não está isolada, pois outras ilhas, ainda mais pequenas (de Goa ou de São Jorge, e de Sena ou de São Tiago), implantam‐se no mesmo golfo. O pequeno Ilhéu de São Lourenço remata a ilha a sul, e defendeu‐a historicamente com uma pequena fortificação. Na zona costeira do golfo situam‐se ainda a Cabaceira Pequena e a Cabaceira Grande (esta mais para o interior, aberta para as terras do Mossuril). Este conjunto de pequenas ilhas e singelos povoados definiu, nos séculos XVI a XVIII, uma área importante da dominação colonial portuguesa, constituindo o núcleo urbano um relevante porto fortificado, a meio caminho entre o Atlântico e a Índia. Com a gradual transição desta área de influência colonial para os contíguos espaços continentais (no quadro da África Oriental portuguesa, de criação oitocentista), a Ilha perdeu a sua função estratégica e centralidade em favor de Lourenço Marques. Perdendo a dimensão de ponto defensivo e de apoio à navegação, ganhou entretanto uma expressão vincada como "paisagem cultural", com um significativo e variado acervo de património edificado. Neste sentido, a Ilha de Moçambique constitui‐se como um espaço único no mundo, pelo cruzamento de culturas múltiplas que encetou, pelo seu belíssimo conjunto histórico edificado, pela portentosa dimensão cénica do local, e até pela vivência das suas gentes. São estes, ainda, os seus valores, apesar da sobrepopulação que nos anos 1980 ali procurou refúgio da guerra no "continente", dos frequentes acidentes climáticos (os ciclones), e de uma lenta mas inexorável decadência (há mais de cem anos que deixou de ser a capital do país). Com efeito, a Ilha representa um significativo e rico cruzamento de culturas, resultante da cultura suaíli da região, da influência islâmica comum ao norte de Moçambique, do chamado Mundo do Índico, e da expansão portuguesa. Inclui assim habitats de brancos, hindus, muçulmanos e negros, em convivência equilibrada e notável resultante estética, espacial, patrimonial e funcional. Representa igualmente um caso singular, pela sua história, pela componente antropológica e arqueológica, pelo forte recheio artístico e cultural. Assinale‐se a capacidade local de suscitar a curiosidade do visitante, a vontade de compartilhar a vida das comunidades locais e testemunhar o empenho na sua sobrevivência, tanto pela divulgação dos seus valores como pelo investimento em ações úteis. Não admira, pois, que tenha atraído a atenção de um investigador como Alexandre Lobato, autor de obras fundamentais para o conhecimento da ilha, como Monografia (1945), Panorama Estético (1966) e Panorama Histórico (1967). Outra obra marcante é A Ilha de Próspero, por Rui Knopfli e Alexandre Lobato (1972), um misto de poesia, desenho e fotografia.
A atenção aos valores patrimoniais da Ilha foi gradualmente crescendo na segunda metade do século XX. Registem‐se, sob administração portuguesa, os trabalhos de restauro pelo arquiteto Quirino da Fonseca na Fortaleza e no Palácio, nos anos 1960. Depois de um período de abandono, entre 1975 e o princípio da década de 1980, em 1983 a exposição A Ilha de Moçambique em Perigo de Desaparecimento, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian, chamou a atenção para a decadência material do património edificado. No mesmo ano editaram‐se o vídeo da RTP Ilha de Moçambique - à espera da Monção e o livro Ilha de Moçambique, Muipiti, por Moira Forjaz e Amélia Muge. Ao mesmo tempo, o relatório Ilha de Moçambique, da escola dinamarquesa de Aarhus (compilado em 1982-1985), representou graficamente, com rigor e detalhe, o que se estava a perder. Na década de 1990 efetuaram-se algumas ações concretas sobre o património arquitetónico da Ilha, como a recuperação do Museu do Palácio de São Paulo, a da obra manuelina da Capela de Nossa Senhora do Baluarte (pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses), junto à Fortaleza de São Sebastião; e a do Museu de Arte Sacra, que se pretendeu reinstalalar na antiga Igreja da Misericórdia, situada no centro do "burgo" (a antiga designação da "cidade de pedra e cal", entre o forte e a "povoação do caniço"). Neste contexto, a classificação da Ilha pela UNESCO como Património da Humanidade em 1991 representa a consagração do seu valor patrimonial. Infelizmente, o sítio é de difícil acesso, pois fica a três quilómetros da costa norte de Moçambique e a cerca de três horas de voo a partir do Maputo. Também há acesso por estrada, desde Nampula.
Cerca de quinhentos anos após o início da presença portuguesa, os vestígios dessa ocupação são claros e fortes. Assim, e de nascente para poente, registem-se: a poderosa fortaleza (com a antiga igreja, cisternas, armazéns e baluartes, inexpugnável a muitos cercos históricos); o terreiro fronteiro ao palácio-museu (no centro do povoado, com alfândega, cais, a prainha e restos de um jardim romântico, antigo espaço de vivência coletiva numa modesta "corte de província" oitocentista); e ainda as características sequências de largos, ruas, ruelas e becos, próprias das povoações portuguesas da expansão, e que aqui ligam o "forte" ao "caniço" (como em Diu, no Guzarate, de idêntica tipologia urbana, a fortaleza está articulada com a povoação muçulmana). A partir da esplanada, terreiro ou praça central, a povoação da Ilha de Moçambique define-se num núcleo urbano de forma linear, alongada, o qual se estende ao longo do sector nascente da ilha no sentido nordeste-sudoeste. Para nordeste, o espaço urbano desenvolve-se pela rua que liga a Praça Central ao Campo de São Gabriel, passando a original Casa Nova do Governador, ou Casa dos Arcos, e o conjunto de casas seiscentistas, sobre a praia, atingindo a chamada Cisterna Velha. Para sudoeste, estende-se sequencialmente pelos largos da Misericórdia e do Pelorinho/Teatro, e pela Rua dos Arcos, atingindo a pequena praça da antiga Administração do Concelho, e seguindo para o larguinho triangular da Câmara Municipal até aos periféricos terreiros do Mercado e do antigo Bazar (Lobato, 1966). Uma terceira via, perpendicular às duas anteriores, e apontada a sul, liga ainda a Praça Central à costa sul, onde se situa o antigo Paço Episcopal/Fazenda e Residência Paroquial (depois Residência dos Hóspedes do Governo Provincial). Outras vias, muito estreitas e secundárias, como as travessas, relacionam entre si as principais direções referidas, contendo na sua apertada malha alguns vestígios de preciosas habitações indianas, com característicos portais de gosto hindu, fotografadas por Michael Teague, entre 1984-1989.
Ainda hoje os percursos quotidianos pela cidade utilizam estes lugares centrais com frequência: o antigo Largo do Pelourinho, ou do Teatro (logo a seguir ao conjunto da Misericórdia com o antigo Hospital anexo), área característica de restauração; a Rua do Arcos, ou dos Banianes (indianos provindos de Diu, uma terra chã semelhante na sua geografia insular e costeira), comercial (jóias da Ilha e brinquedos artesanais); o Largo das Amoreiras (que foi da Sé, com o antigo Arsenal anexo, e as vizinhas ruelas, como a Rua dos Libertadores, com as suas portas hindus e pátios islâmicos); e ainda os jardins do Bazar (com o templo hindu anexo), a Mesquita Grande (junto à praia-mercado e ao enorme Celeiro), e o vasto e neoclássico Hospital "Novo", do século XIX. Passando a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, desenvolve-se a área dos bairros, densos núcleos de habitações de pau-a-pique e coberturas de colmo, na proximidade da baía da Praia de Santo António, pontuada pela pequena igreja e forte homónimos, de marcado cariz popular. Prosseguindo, atinge-se a ponta da ilha, donde se faz desde os anos 1960 a ligação, por ponte, ao continente. Há também os vestígios do que foi ficando no século XX: empedrados em calçada à portuguesa (com pedra branca de cristais, local), com bancos de jardim, nos terreiros frente ao Índico; o antigo Cinema; e as instalações do prestigiado Sporting Clube de Moçambique, já cerca da praia. Monumentos e Estatuária Devem destacar-se o singelo (e moderno, nas suas formas geométricas e abstratas) monumento a Sarmento Rodrigues, na Ilha de Moçambique (por José Aurélio?), fronteiro ao Fortim de São Lourenço; e o monumento a Vasco da Gama, no Largo de São Paulo, de tipo mais convencional, com a figura sobre pedestal. Foi retirado do local após 1975, mas mais tarde recolocado.

José Manuel Fernandes

Arquitetura religiosa

Arquitetura militar

Equipamentos e infraestruturas

Habitação

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