Macau

Lat: 22.196975000000000, Long: 113.542219444440000

Macau

Macau, China

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Até 1911. A cidade de Macau ocupa uma área muito maior do que a que tinha há quatrocentos ou mesmo cem anos atrás, tendo ganho terreno ao mar com aterros sucessivos. A península tinha inicialmente forma triangular alongada e estava ligada ao resto da China por um estreito istmo. A linha de costa alternava escarpas com baías de fácil acesso e arenosas.
O assentamento inicial dos portugueses que navegaram até ao delta do Rio das Pérolas, na década de 1550, foi feito entre as elevações da Barra e da Penha, e estendeu‐se depois até ao morro que viria a ser conhecido como de São Paulo. Também ocuparam parcialmente várias ilhotas vizinhas, designadas posteriormente como D. João, da Lapa e Verde e, mais tarde, também as da Taipa e Coloane.
Tudo começou com a instalação de cabanas modestas, dadas até as restrições impostas pelas autoridades cantonenses, mas Fernão Mendes Pinto, que esteve lá em 1555, disse que a ilha - assim chamou à península - que era antes deserta, tinha então já uma povoação que estava localizada junto do templo da Barra e atingia o Monte de São Francisco.
Estamos certos de que, apesar da aparente regularidade das quatro grandes ruas que formavam no essencial a Macau tardo‐quinhentista - e se podem ver na iconografia antiga, com a Rua Central a avantajar‐se às restantes - não houve planeamento na sua criação e desenvolvimento, antes cada um construiu as suas casas onde lhe pareceu mais conveniente, sem alinhamentos ou definição de lotes. Porém, além de construções erguidas por portugueses, Macau também já tinha implantações chinesas, nomeadamente os bazares, cuja localização levantou problemas ao longo dos tempos, essencialmente por razões de ordem social e sanitária.
A tentativa de conquista holandesa de 1622 alterou dramaticamente a vida da urbe, influenciando a estrutura urbana, pois os dispositivos de defesa que foram levantados condicionaram a sua expansão natural, obrigando a concentrar as novas construções dentro do novo perímetro defensivo.
A partir do fim de Quinhentos a principal artéria da cidade era a Rua Central, continuada pelas ruas de São Lourenço e do Padre António, que se ligavam todas ao Largo do Senado, no meio do qual estava o pelourinho. A cidade abriu‐se então para o mar na zona da Praia Grande, de um lado, e do Porto Interior, do outro, e continuava cingida pelas escarpas rochosas da costa e pela muralha que dividia a península a meio desde São Francisco até São Paulo do Monte, e daí até ao canal.
No fim do século XVII e durante o século XVIII havia manchas de ocupação formadas pelas construções das ordens religiosas, de jesuítas, franciscanos, dominicanos, agostinhos, etc. As vias principais continuavam a ser as que antes referimos. Apesar das dificuldades encontradas para a construção, foi este o tempo em que se definiu a frente da Praia Grande, que atingiu o seu esplendor no ocaso de Oitocentos.
Só em 1818 é que foi conseguida a ocupação definitiva da Praia Pequena, usando muitos comerciantes chineses o argumento do facto consumado para aí erguerem moradias e tendas. A Praia do Manduco sofreu também no início do século XIX a pressão construtiva portuguesa e chinesa. As autoridades viram‐se a braços com um crescimento desordenado e um aumento populacional que não foi do agrado nem das autoridades chinesas nem das portuguesas.
Uma das ações urbanísticas mais importantes então em curso, com evidente incómodo dos mandarins de Cantão, foi o arranjo da zona envolvente da fortaleza do Monte. Em 1833 havia outros trabalhos por trás do pagode da Barra, que era uma área fundamental para o desenvolvimento da cidade dos europeus, pelo que se lançou aí uma nova estrada.
Por volta de 1843 a reconstrução de casas por parte dos macaenses deixou de carecer de autorização da China e a cidade pôde então crescer sem constrangimentos. Uma das zonas que ganhou carácter mais ocidentalizado foi a Praia Grande, entre as fortificações de São Pedro e do Bom Parto, com a construção de habitações, sedes e dependências de companhias comerciais, repartições e até o Palácio do Governo. A avenida era muito larga, cortada transversalmente por ruas mais estreitas, que comunicavam com a Rua Central. Ao mesmo tempo, e do lado oposto da cidade, foi destruída a velha muralha que impedia a expansão urbana para norte.
Os primeiros aterros significativos foram realizados nas zonas da Praia Pequena e da Praia de Manduco, redefinindo a linha da costa e possibilitando a construção de dez quarteirões, ainda hoje existentes entre a Avenida 5 de Outubro e a Rua do Guimarães, apesar da transformação dos seus edifícios. Esta foi a primeira urbanização programada e executada com padrões regulares. Ao mesmo tempo, fora dos antigos limites da cidade surgiam chácaras, com belas e sumptuosas residências de veraneio.
Em 1841, Macau contava com 25.000 habitantes, 20.000 dos quais eram chineses, mas em 1867 esse número subiu para mais de 56.000.
A partir do governo de Ferreira do Amaral verificou se uma aproximação entre os chineses do Bazar e os portugueses da cidade cristã, do que resultou a constituição de uma mancha construída contínua, englobando o Bazar Novo, Patane, Chunambeiro, Barra e Manduco, ao mesmo tempo que o arrabalde de São Lázaro se definiu como espaço de expansão da população macaense de origem chinesa. Houve uma rede finição das linhas fundamentais de mobilidade, ligando-se o casco urbano às aldeias chinesas do norte do istmo e ao território que ficava para além das Portas do Cerco, cujas muralhas, que o cingiam, foram derrubadas.
Um passo importante foi dado em 1850 com o aterro da área situada entre a Rua do Seminário e a Praia do Manduco, cuja linha de água correspondia à atual Rua da Praia do Manduco. Foram traçadas vias para lelas entre si e perpendiculares ao mar. Fezse outro aterro entre a Praia Grande e o Forte do Bom Parto, tendo logo de seguida começado a primeira fase do aterro do Porto Interior e, também, a regularização da linha de água entre o Morro da Barra e a doca de Mong-Tchoi, numa extensão de cento e sessenta metros.
Reportando-nos ao ano de 1869, digase que existiam cadastradas cento e setenta e cinco vias públicas na cidade cristã, oitenta e nove no Bazar, oitenta e três em Patane, quarenta e oito em MongHa, vinte e qua tro em Long Tin Chun, cinco em Tap Séak, uma em Séak Lo Tau, uma em Long Wan Chun, cinquenta e cinco em São Lázaro, catorze na Penha e em Tanque do Mainato e vinte e duas na Barra, num total de quinhentas e vinte e nove. Comparando estes números com os de 1905, anota-se, como mais significativo, o aumento do Bairro do Bazar e da zona do que foi outrora o campo, com mais vinte ruas.
Nos anos 80 do século XIX foi dado início à arborização sistemática de todo o território, com vista à fixa ção do solo e também por via das teorias higienistas então em voga, criandose simultaneamente jardins públicos, como os de São Francisco, de Camões e da Alameda Vasco da Gama, e muitos privados.
O fim do século XIX foi um período fértil em obras; nasceram novos bairros com as correntes e veios de água encanados e completamente secos, em zonas que eram anteriormente hortas ou estavam ocupadas por habitações populares. E se a urbanização do Bairro da Horta da Mitra em 1886 foi um fracasso, já as de Volong, com cerca de duzentos hectares, de São Lázaro e do Bairro Tomás Rosa tiveram sucesso. Foi o governo que infraestruturou os terrenos e construiu os alicerces das casas, e só depois entraram em ação os proprietários, que foram incentivados a usar materiais mais duráveis do que aqueles que empregavam tradicionalmente. Foi obrigatório o alinhamento dos traçados das ruas e construções delimitadoras e promovida uma articulação da zona habitacional, comercial e industrial com os projetos para os portos. Foi ainda continuada a regularização das antigas vias, a proibição do cultivo do arroz, a secagem de pântanos e a arborização sistemática, etc.
Subindo o canal, no início do século XX, um viajante em Macau encontrava mais duas estruturas fundamentais da zona portuária: a primeira, onde hoje começa a Rua das Lorchas, que era chamada cais dos vapores de Cantão; a segunda, um pouco acima, o cais dos vapo res de Hong Kong. Apesar de não ter sido levado em frente na sua totalidade, cumpre registar o projeto de um bairro anexo, para habitação dos trabalhadores portuários, com quarteirões de quarenta metros de fundo separados por ruas com vinte metros de largura, prevendose uma avenida arborizada do lado norte.
Em 1890 começou a ser construído o dique que ligou a Ilha Verde à península de Macau, que conformou uma grande alameda reta com árvores a ladeá-la, a atual Avenida do Conselheiro Borja. A sua origem encontra-se também muito ligada ao plano de Adolfo Loureiro de regularização de toda esta área virada à Ilha da Lapa.
O governador Horta e Costa foi o responsável pelo saneamento das zonas de Tap-Seac, Sá-Kong e Mong-Há, estas últimas com expropriação decretada em 1901. Daqui resultou também a abertura da avenida com o seu nome que, partindo da Estrada da Flora, devia terminar num largo, a Rotunda Carlos da Maia, daí partindo outras avenidas que atravessariam os ditos terrenos da várzea. Foi também com o seu governo que foram abertas as atuais avenidas Vasco da Gama e da República e se fez o aterro da Rua do Visconde de Paço de Arcos, ou pelo menos parte dele.
O centro cívico por excelência era o Largo do Leal Senado, mas as zonas nobres e frequentadas pelos europeus e lusodescendentes estendiam-se a partir daqui, sobretudo para a Praia Grande, em sentido inverso para o verdadeiro Passeio Público que o Jardim de São Francisco e os outros espaços de lazer vizinhos constituíam. Os adros das igrejas eram outros espaços conviviais importantes e atrativos de gentes, sobretudo em dias festivos, enquanto os mercados e os bazares eram os pólos aglutinadores da população de origem chinesa e da criadagem dos europeus, para o imprescindível comércio quotidiano.

A partir de 1911. Desde a sua fundação, Macau foi condicionada pelas relações com a China, a que se acres centou a criação, em 1842, de uma colónia britânica na Ilha de Hong Kong, do lado oposto do delta do Rio das Pérolas, que passou a disputar a sua importância, pois até aí Macau tinha constituído o único lugar de troca comercial com o Ocidente nessa vasta região. Como veremos, o crescimento e transformação de Macau na Idade Contemporânea só podem ser entendidos na relação territorial e dinâmica económica resultantes desta dialética.
Podemos pois afirmar que a entrada de Macau no século XX é determinada pela abertura dos portos da China ao Ocidente e a afirmação crescente dos ingleses em Hong Kong, que determinaram uma estratégia de desenvolvimento centrada na necessidade de transformação do seu porto entretanto tornado obsoleto. Entendido como elemento vital de progresso e sustentação económica, o porto é estudado e planeado a partir daí como motor de desenvolvimento capaz de arrastar consigo o próprio desenho do território.
Para além disso, a implantação da República em Portugal em 1910 e, no ano seguinte, na China, constituem factos da maior importância no âmbito de um novo quadro político apostado no progresso e nas possibilidades técnicas do mundo contemporâneo. De facto, a nova república portuguesa empenha‐se numa ação mais decisiva e concertada do que tinha sido praticada até então e, para além do mais, no novo quadro político as tensões entre os dois países atenuam‐se. Prova deste apaziguamento é a inauguração em 1928 da estrada de Macau a Seak‐Ki, que passou a ligar, através das Portas do Cerco, o território português à China e em particular às aldeias chinesas do estuário do Rio das Pérolas.
Devido à sua natureza territorial - um pequeno istmo inicialmente com 4,5 quilómetros quadrados, a que se acrescentavam as ilhas da Taipa, Coloane, Lapa e Verde, perfazendo um total de quinze - o desenvolvimento de Macau ao longo do século XX foi exponencial, caracterizando‐se por um crescimento em altura, pela especialização do solo e, sobretudo, por uma transformação assente na expansão através de aterros. Esta conquista de territórios ao mar andou intimamente ligada à estratégia de desenvolvimento do porto. De facto, quando não estavam ainda ocupadas as novas áreas urbanas, já os relatórios sobre as obras do porto consideravam esta necessidade.
No quadro do urbanismo higienista de então, os planos de melhoramentos apontavam para uma arborização qualificada, para a renovação dos bairros infectos ocupados pela população chinesa, para a implementação de uma malha viária regular, ortogonal e com perfis mais largos no centro da cidade, que deveria ser acompanhada pela introdução de uma rede de saneamento. São então criados os instrumentos legais dirigidos à realização de planos, expropriações, política de solos e regulamentação da construção capazes de assegurar esta transformação. O Bairro de São Lázaro, criado por esses anos, é a confirmação desta estratégia. A abertura de um eixo viário, com expressão de avenida, que cortou a mole urbana de costa a costa, de ocidente a oriente, será a confirmação destas intenções: a Avenida Almeida Ribeiro. (Sobre ambas as realizações ver as entradas específicas.)
Entretanto, para evitar o colapso do acesso navegável ao porto, do qual dependia o futuro da economia do território, importava rever toda a área portuária, sanear as descargas de lixo para o rio e minimizar o impacto da erosão do solo. O porto de Macau, ao contrário do de Hong Kong, localizado a ocidente do território nas regiões baixas do Se‐Kiang, tinha dificuldade em receber navios de grande porte. A identificação deste problema conduziu à ideia de transformar por completo o porto, alterando radicalmente a sua localização e, a jusante, colocou de um modo definitivo a questão dos limites do território como problema chave de todo o urbanismo de Macau.
Depois dos projetos de Adolfo Loureiro (1884) e Castel‐Branco (1907), que apostavam na recuperação do Porto Interior, na década de 1920 o engenheiro hidrográfico Hugo de Lacerda - nomeado em 1918 para chefiar a Missão de Melhoramentos do Porto de Macau - teve um papel importante neste processo, quando um relacionamento luso‐chinês mais favorável permitiu o início das obras do que passou a ser designado como Porto Exterior. Situado a nordeste do território, na costa virada a Hong Kong, esta nova localização concorria para repor o papel vital estratégico do porto de modo a ultrapassar a gravíssima situação de insalubridade e assoreamento. Ao mesmo tempo, a remodelação do Porto Interior, que se mantinha operacional para barcos de pequeno porte, foi potenciada com a abertura em 1911 de um canal que fazia a articulação Ocidente‐Oriente, ou seja, entre os dois portos. Em 1920, de acordo com projetos do capitão‐tenente Justino Henrique Herz, traduzindo o plano Hugo de Lacerda, são traçadas as bacias de Pantane (norte e sul), iniciadas as obras do já referido canal de ligação entre os portos e é delineado o primeiro aterro de grande escala para a Taipa Grande e a Taipa Pequena. Três anos depois foi proposto o alargamento da Avenida Marginal do Porto Interior, a área portuária de Pantane foi organizada, projetaram‐se o canal e doca do Porto da Areia Preta e foi definida a área do aterro destinado ao bairro operário junto às Portas do Cerco. Toda a linha da costa oriental da península foi objeto de profundas transformações, associadas à criação do Porto Exterior.
A Planta Geral da Cidade e do Novo Porto de Macau, de 1927, assinala os traçados delineados por Hugo de Lacerda, que só serão completamente implementados na década de 1990, como uma linha de cintura envol‐ vendo toda a cidade. A ocidente, a superfície da Ilha Verde surge já francamente aumentada e ligada à península. No mesmo ano é publicado um plano de aterros, sugerindo pela primeira vez a transformação da península e das ilhas remanescentes num só e único território.
Entretanto, a população crescera exponencialmente: dos 74.866 habitantes registados no censo de 1910 passou‐se para 83.984 em 1920, e sete anos depois eram já 157.175. Uma nova política baseada no desenvolvimento comercial‐industrial foi finalmente assumida como motor de um progresso que implicava o aumento da superfície do território. Assim, a área de Macau foi ampliada para os vinte quilómetros quadrados, ao mesmo tempo que, com a criação de um porto eficaz, eram criadas as condições para que as receitas permanecessem no território, passando a ser investidas no seu próprio desenvolvimento.
Após o impulso inicial, as obras do Porto Exterior não tiveram a continuidade desejada na resposta às necessidades, no assegurar dos trabalhos de manutenção ou, ainda, para garantir a constituição da plataforma de ligação ao ambicionado caminho de ferro Macau‐Cantão. De facto, seria preciso esperar pela década de 1960 e por uma outra conjuntura económica para que o Porto Exterior se tornasse perfeitamente operacional e gerador do desenvolvimento que o território de Macau reclamava. De acordo com a cultura higienista, era também necessário realizar o saneamento infraestrutural e criar espaços verdes. Em 1913, para assegurar o harmonioso desenvolvimento do território, são expropriadas construções e iniciados aterros. Dois anos depois, abria‐se a já referida Avenida Almeida Ribeiro.
Desde a origem que Macau se organizava segundo uma diretriz norte‐sul estendida entre a barra e o monte, ao longo de uma via que percorria a espinha dorsal da península, no correr da qual foram surgindo os principais edifícios. Com a abertura daquela avenida, essa via central foi interrompida e as colinas separadas, de tal modo que a Rua da Sé passou a comunicar com a nova Avenida Almeida Ribeiro por meio de uma escadaria. Por outro lado, o Bazar Chinês foi rasgado em dois. Aquela rua separava a cidade chinesa, a ocidente, da chamada cidade cristã, orientada à mais aprazível Praia Grande. Sucederam‐se uma série de alargamentos de vias, como a Rua de Entrecampos, as marginais da Barra e do Tarrafeiro e, mais tarde, a Marginal do Porto Interior. A área urbana duplicara.
A par, surge o Regulamento dos Serviços de Obras Particulares e de Salubridade das Edificações Urbanas da cidade de Macau. As primeiras construções em betão armado surgem na primeira década do século XX em moradias e palacetes, reproduzindo formas metropolitanas ocidentais, mas também expressões orientais imperiais. Ao mesmo tempo, os modos de vida sofriam uma profunda mutação, acompanhando um processo de crescente ocidentalização a que correspondiam transformações na arquitetura doméstica, patentes sobretudo na organização interna das casas mais abastadas, que tendem a cruzar os requintados valores orientais com as influências de modelos eruditos importados.
São reinventados com novos materiais, como o betão, dispositivos construtivos destinados a atenuar o ambiente de clima subtropical de monção. São fachadas recuadas, arcadas, reixados, sistemas de transparência e sombra, qualificados e complexos espaços de transição, de modo a propiciar uma permanente ventilação cruzada. Experiências com novos materiais de produção industrial como o ferro, o vidro e o betão, aliados à utilização das novas correntes arquitetónicas do princípio do século, da art nouveau à art déco, constituem contributos para a génese de um ecletismo linguístico onde cada vez é mais claro um sui generis cruzamento de culturas. Nessa década de 1920 surgem novos equipamentos públicos, que acompanham esta modernização funcional e arquitetónica da cidade: os edifícios‐sede da Macau Aerial Transport Company (1920) e da Central Rádio de Macau (1924), o Hipódromo (1925‐1928), o edifício da Caixa Escolar ou o President Hotel (hoje Hotel Central), na época o edifício mais alto e marcante. Na década seguinte, surgem edifícios de expres‐ são modernista, refletindo a influência formal das vanguardas europeias. Geometria vincada em volumes cúbicos, superfícies lisas e ausência de ornamento ficaram patentes em grandes equipamentos, como é o caso dos Correios (1931), do Mercado Vermelho (1936), do Grande Hotel (1937), da Escola Primária Pedro Nolasco da Silva ou da Escola Luso‐Chinesa de Sir Robert Ho Tung.
Ao mesmo tempo, o pleno abastecimento de água à cidade foi atingido em 1936 e o aterro da Praia Grande foi inaugurado em 1940. A adequação dos hospitais de Santa Sancha (1934) e São Rafael (1939) vem colmatar necessidades sentidas há muito tempo. Em 1937, foi inaugurado o terminal da PAN AM. O conjunto de quarteirões definido pela Avenida Almeida Ribeiro, Praia Grande, Largo do Senado e Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida torna‐se o centro de serviços e negócios da cidade.
Entretanto as obras do Porto Exterior recebem novo fôlego, o que acompanha o aumento exponencial da população através da migração de chineses fugidos à invasão da China e de Hong Kong pelo Japão. Atinge‐se então um pico demográfico que é repetido poucos anos depois, quando os comunistas de Mao tomaram o poder na China. Dos já referidos 157.175 habitantes em 1927 passou‐se para 245.194 em 1939, valor que baixa à casa dos 187.000 na década de 1950, graças à emigração para Hong Kong e Estados Unidos. De 15.818 habitantes por quilómetro quadrado na década de 1940, passou‐se para 12.114 na década seguinte.
No pós‐guerra, às indústrias tradicionais (peixe seco, cimento e fogo de artifício, por exemplo) veio associar‐se uma atividade determinante para o futuro: o jogo, que na década de 1960 se torna assumidamente a principal atividade do território, com uma crescente expansão e volumosas receitas. Em finais da década de 1950, o aumento populacional impõe também um novo vector de desenvolvimento económico, caracterizado por uma indústria baseada em mão‐de‐obra barata. O jogo alimenta o fluxo de turistas, que da década de 1950 para a seguinte passou de 5.336 para 26.534, justificando os vinte e um novos hotéis, dos quais cinco de primeira classe.
A expansão urbana é resultante de tudo isso, o que no caso de um território tão limitado vai conduzir a uma valorização exponencial do solo, fomentadora de especulação imobiliária crescente. Inevitavelmente ocorre uma ocupação agressiva dos espaços livres, com a substituição avulsa, selvagem e caótica, sem programa nem planeamento, dos edifícios tradicionais de três pisos por outros em altura. O carácter aleatório destas transformações, geralmente produzidas com fraca qualidade construtiva e arquitetónica, contribuiu para uma degradação da construção e do espaço público, que formam um cenário em permanente transformação, dominado pelo sentido do efémero e do transitório.
A arquitetura macaense segue as tendências internacionais ao longo do século XX, embora com algum desfasamento temporal. Por exemplo, a referência ao que se designa por arquitetura de regime, que corresponde na metrópole ao período que segue à Exposição do Mundo Português (1940), em Macau estende‐se pela década seguinte. O conjunto do Campo Desportivo (1940) ou o Edifício das Repartições (1951) constituem exemplos eloquentes desta expressão historicista e monumental, onde é patente um claro sentido urbano.
O Bairro dos CTT, inaugurado em 1950, é um exemplo dessa representação tão característica do Estado Novo, agora na versão ruralista, que também foi tardiamente importada da metrópole. Trata‐se de um conjunto de habitações modestas para funcionários públicos seguindo uma expressão e tipologia com as mesmas características dos bairros de habitação económica construídos em Lisboa (Madre Deus, Encarnação, Alvito). O Edifício do Hospital de São Januário (1955) ou o Liceu Infante D. Henrique (1956‐1958) são obras que confirmam o impulso construtivo aplicado nas obras públicas ao longo da década de 1950 nesse registo arquitetónico clássico e tradicional.
No quadro das iniciativas do governo um caso merece referência: o Bloco Rainha D. Leonor, conjunto de habitação coletiva que segue os princípios da arquitetura do movimento moderno e da unidade de habitação referenciados a Le Corbusier, o qual se distinguirá durante mais de uma década como o edifício mais alto do território. Implantado no aterro da Baía da Praia Grande, no cruzamento entre a Avenida Infante D. Henrique (que estende a Almeida Ribeiro até ao Porto Exterior) e a Avenida D. João IV, e promovido pela Santa Casa da Misericórdia, destinava‐se a alojar funcionários públicos. Projetado por José Lei no final da década de 1950 e inaugurado na seguinte, constituiu a afirmação de uma modernidade aproximada ao estilo internacional, com as suas inovadoras habitações em duplex com terraço‐varanda, e da escala grandiosa aplicada à habitação.
A partir de então, uma expressão de estilo internacional surge claramente no programa habitacional e hoteleiro de Macau. Aos hotéis da principal avenida, erguidos com a expressão do glamour da década de 1930, vêm juntar‐se os hotéis com esse carácter e imagem, os quais são construídos na Praia Grande, Marginal da Guia e da Taipa.
Como as transformações e o ritmo de construção não acompanharam o incremento populacional, a estrutura urbana tradicional perdurou, constituída por uma malha onde se distingue a antiga cidade portuguesa, marcada pela persistência da rede religiosa, pelo traçado irregular e apertado do Bazar e dos bairros chineses. As casas ricas, com tipologia de palacete, organizadas em torno de pátios interiores e situadas sobretudo entre a Avenida Almeida Ribeiro e a Praia da Barra, ainda persistiram, mas com novos moradores, exceto na Rua de Santo António. A gentrificação fez‐se na direção da Colina da Penha, que é então invadida pela população abastada procurando uma atmosfera requintada e verdejante para residir. É casario com espaços e jardins abertos ao delta do Rio das Pérolas. Esta tipologia de vivenda integrada num intenso e luxuriante espaço verde estende‐se depois à Barra e à Praia Grande, sobrepondo‐se às antigas chácaras que foram desaparecendo.
O Porto Interior, agora centro do comércio especializado em artigos de pesca e unidades industriais, acabou ampliado pelo prolongamento da Avenida Visconde Paço de Arcos em ligação à Ilha Verde, onde se instalaram docas envolvidas por habitação pobre e precária. Entretanto, com as novas avenidas Horta e Costa e Coronel Mesquita a velha aldeia rural Mong‐Há desaparece. Mais a norte, junto ao hipódromo, surgem construções e bairros para os refugiados. A sudeste iniciam‐se as obras do grande aterro do Porto Exterior, sobre o qual se vai definir o traçado da Avenida da Amizade.
Nesse ambiente de transformação acelerada e imprevisível, o desenvolvimento urbano começou a ser acompanhado pela intervenção de arquitetos qualificados, destacados pelos organismos estatais, que serão autores de um conjunto de importantes equipamentos. Uma modernidade erudita é plenamente assumida, primeiro com o trabalho singular de Raul Chorão Ramalho na Escola Pedro Nolasco ou no Infantário Avé‐Maria, e depois com o primeiro projeto de Manuel Vicente, a Escola Helen Liang, a que se seguirá, até ao final da administração portuguesa, uma obra consistente e brilhante.
O surto económico teve como consequência a ocupação dos aterros, a substituição compulsiva dos edifícios de pequena escala por tipologias de grande altura. A ruptura e a alteração de escala acontecem não só nos programas hoteleiros, mas também nos prédios de habitação e serviços, com base em modelos internacionais frequentemente pouco qualificados. Ocorre uma intensificação e ampliação, de que resulta o aumento das áreas subterrâneas, assim como a utilização de um tipo residencial e comercial moderno que substitui a anterior utilização comercial predominante, de tipo bazar e residência nos pisos superiores.
A inauguração em 1970 do Hotel Casino Lisboa é - pelo significado e expressão que o jogo foi assumindo no modelo económico de Macau - um marco simbólico dessa explosão de crescimento, que se consubstanciará na construção de grandes edifícios de serviços e até de habitação. A silhueta da cidade não só é nova como mutante, estendendo‐se desde então de forma compacta da Barra‐Penha à Guia e à Areia Preta.
A euforia é impulsionada pela procura externa, sobretudo de Hong Kong, e pelo estímulo à aplicação de capitais chineses fugidos à instabilidade de então no Sudeste asiático. A fixação de indústrias têxteis por capitais de Hong Kong provoca um surto de desenvolvimento e a necessidade de edifícios para habitação, escritórios e indústrias. A zona da Praia Grande e Porto Exterior recebe então trezentos e quarenta e dois novos edifícios.
Com a revolução do 25 de abril de 1974 foram restabelecidas as relações diplomáticas e comerciais sino‐portuguesas, o que se constituiu em mais uma alavanca de desenvolvimento económico de Macau. Entre 1978 e 1981 foram erguidos 841 novos imóveis. Processo que induziu a uma nova valorização do solo, a um aumento do custo da construção e a uma segregação da população local e consequente gentrificação. Como expressivo pico da dinâmica do final da década de 1970, surgem doze novos bancos no território. O jogo continua a desenvolver‐se e espalha‐se pela Avenida da Amizade, a Rua do Aterro Novo, o Casino Hotel Estoril, o Casino da Pelota Branca, o Casino Flutuante e o Canídromo.
Regressemos ao planeamento. Se entre 1890 e 1930 se pretendia melhorar as condições portuárias com a construção de aterros, de modo a colocar Macau em posição de competitividade com Hong Kong na ligação com a China, em 1940‐1950 passam a ser as pressões especulativas derivadas do impacto do jogo que começam a provocar a necessidade de expansão.
Surge então, na década de 1960, o primeiro plano diretor, o qual partiu da análise realizada pela geógrafa Raquel Soeiro de Brito em 1962, na qual foram identificadas tendências funcionais e vocações do solo urbano e enunciadas uma série de importantes recomendações, como, por exemplo e pela primeira vez, a necessidade de beneficiação da cidade antiga e a manutenção dos espaços verdes (Mong Há, D. Maria, Guia, São Januário). Nas zonas de ocupação industrial (Hortas, Areia Preta e Porto Exterior) recomenda‐se uma boa articulação viária e regras de ordenamento para os bairros populares, que apresentavam tendência para a densificação. Para além disso, valorizavam‐se as zonas do novo aterro da Praia Grande e Porto Exterior com a localização de comércio, serviços e hotelaria.
Noutro contexto político, em 1976 e 1979, surgiram dois planos: o primeiro, de Tomás Taveira, assentou numa forte componente económica e num modelo de desenvolvimento baseado na renovação e definição de novas áreas de ordenamento centradas nas ilhas da Taipa e Coloane, com o objetivo de descongestionar a densificação do núcleo antigo e promover a sua reabilitação; o segundo, da autoria de José Catita, estabelece como prioridades uma eficaz articulação viária e a aplicação de índices de ocupação para expansão futura. Ambos apontam uma tendência de crescimento para norte, onde se instalam áreas residenciais e industriais, na definição de zonas vocacionadas para o turismo e equipamento terciário de alto standard e, finalmente, na identificação do núcleo antigo como património a valorizar e a renovar.
Na década de 1990, atrás do Hotel Mandarin Oriental foi feito um vasto aterro retangular sulcado de águas lodosas, onde meia dúzia de anos depois se erguiam enormes blocos de escritórios ao longo de ruas retilíneas. O plano de Siza Vieira estabeleceu uma regra para a expansão em aterro no Novo Aterro do Porto Exterior (NAPE) e Areia Preta. A ideia foi criar plataformas geométricas apoiadas na água, a construir sobre novos aterros, mas separados da cidade por braços ou canais, de maneira a não prolongar a ilha, preservando a delicada linha de costa e fazendo convergir na estratégia um problema técnico e um problema de paisagem. Em paralelo, Fernando Távora desenvolvia o plano de preservação do centro histórico. As mudanças estruturais ocorridas com o fim, em 1999, da administração portuguesa de Macau fizeram com que os fins de ambos os planos tenham sido completamente desvirtuados. Casinos colossais brotaram desde então das areias do NAPE.
Contudo, desde 1982 o governo de Macau passou a integrar a defesa e valorização do património na sua linha de ação, através do então criado Instituto Cultural de Macau, sob a direção de Luís António Durão. A arquitetura corrente de Macau é testemunho último da aculturação, da permanência, da coexistência de duas comunidades que se materializou na forma de estar, de construir, de organizar o espaço, que, contudo, foi sendo construído com mão‐de‐obra local. Com o advento do betão armado, de uma nova era tecnológica e, sobretudo, do crescimento económico, Macau começou a transformar‐se com grande rapidez, perdendo o encanto nostálgico que caracterizava a sua fisionomia específica.
Para preservar as qualidades arquitetónicas e urbanas desse legado, a partir de 1976 sucedem‐se as iniciativas de regulamentação e classificação do património de Macau. O processo que conduziu, em 2005, à sua inscrição pela UNESCO na Lista do Património Mundial foi o resultado mais expressivo dessa ação e o instrumento que tem garantido essa preservação.
Hoje, os quinze quilómetros quadrados do território duplicaram. A cidade de Macau está ligada à Ilha da Taipa por três pontes, a Nobre de Carvalho, a Ponte da Amizade e a Ponte de Sai Van. A península e as ilhas de Taipa e Coloane formam agora um continuum territorial, pois as duas ilhas foram unidas pelo aterro do COTAI, cerca de cem mil metros quadrados onde hoje se ergue mais um troço de cidade. Mas a Macau da memória, entre a colina da Penha, com as suas vivendas e palacetes com jardins luxuriantes, e as colinas do Monte, da Guia e de Mong‐Há, estende‐se num tecido urbano de ruas estreitas de singular beleza, onde continuam a coabitar as cidades portuguesa e chinesa.

Ana Tostões

Arquitetura religiosa

Arquitetura militar

Equipamentos e infraestruturas

Habitação

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