Nagappattinam [Negapatão]

Lat: 10.766108333333000, Long: 79.847211111111000

Nagappattinam [Negapatão]

Tamil Nadu, Índia

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Embora numa situação aparentemente autónoma face ao Estado da Índia, a cidade de Negapatão integrava‐se na estrutura comercial e urbana implementada pelos portugueses no sul da península industânica, participando ativamente na rede de circulação de produtos asiáticos que se afirmava fundamental à manutenção daquele Estado. Só em 1642 Negapatão é efetivamente incorporada no Estado da Índia, numa derradeira tentativa de, em conjunto, se conseguir fazer face aos ataques holandeses. Facto particularmente significativo é que, em 1658, a cidade de Negapatão se rende às tropas holandeses, circunstância que determinará a permanência da sua estrutura e malha urbana. A maior parte da população de origem portuguesa, que se ocupava do grande comércio, emigrou para as cidades de Jaffna, Colombo e São Tomé de Meliapor, que se mantinham na altura sob administração portuguesa. Se esta emigração levou a um certo declínio da cidade, em termos sociais e económicos, a população autóctone permaneceu, assegurando a continuidade da vida e da estrutura urbana. Negapatão tinha sido um importante porto entre os séculos VIII e XIII, mantendo um intenso comércio com a China durante a dinastia Chola. A partir do século XV este porto terá perdido importância em favor do porto islâmico de Nagore, situado cerca de três quilómetros para norte, o que coincide com o alastramento da hegemonia comercial islâmica no Golfo de Bengala e Indochina. Cruzando os dados económicos e as estratégias políticas implementadas pela administração portuguesa na região do Coromandel, verifica‐se que Negapatão sofreu um forte desenvolvimento logo na década de trinta do século XVI, assumindo marcada importância nos grandes confrontos armados com os mapilas, em que Martim Afonso de Sousa é apoiado por tropas de Negapatão reunidas por António Mendes de Vasconcelos. Poucos anos depois, a criação do cargo de capitão de Negapatão, concedido em 1543 a António Mendes de Vasconcelos, atesta a consolidação de uma comunidade urbana sobre a qual a casa real procura exercer um certo controlo. Com um intenso tráfego marítimo que circula entre Ceilão, Bengala, Malaca e o Malabar, o porto de Negapatão exportava sobretudo arroz, produzido em larga escala em toda a bacia do Rio Kaveri, e recebia produtos das mais longínquas paragens, que abasteciam as ricas cortes dos naiques de Thanjavour e Madurai. Em 1567, Cesare Federici refere‐se a Negapatão como uma grande cidade com intenso comércio marítimo, confirmando uma consolidação urbana efetuada nas décadas anteriores. Tal como São Tomé de Meliapor, Negapatão só recebe muralhas de envolvimento no século XVII, na sequência da chegada e ataque dos holandeses às possessões portuguesas no Oriente. Em 12 de abril de 1642, os holandeses cercaram a cidade, exigindo o pagamento de um avultado tributo. Estes ataques, de frequência crescente, levam os eleitos de Negapatão a acordarem com o naique de Thanjavour a construção de uma cintura de muralhas de defesa. Numa derradeira tentativa de estabelecer novas estratégias de respostas às investidas holandesas, em 1642 Negapatão é incorporada no Estado da Índia e, três anos depois, elevada a cidade com os privilégios de Cochim. Mas os dias de Negapatão estavam contados, e poucos anos depois a cidade rendeu‐se aos holandeses. Para o estudo do seu traçado urbano e das suas morfologias, Negapatão encontra‐se representada tanto no relatório de António Bocarro e Pedro Barreto Resende como no de Manuel de Éredia, apresentando‐se em ambos com um traçado ortogonal de tendência regular e sem cintura de muralhas. Realizada logo após a ocupação holandesa, a planta de Negapatão incluída no livro de Baldeus representa já uma cintura de muralhas, mantendo‐se no seu traçado a regularidade. Cabe salientar que nas plantas portuguesas a morfologia da cidade se apresenta como um retângulo correndo ao longo do mar, integrando a povoação hindu, em oposição à planta de Baldeus que, representando só a zona muralhada, apresenta uma conformação mais estreita face à orla marítima. A semelhança da planta de Baldeus com as plantas de Pedro Barreto Resende e Manuel Godinho de Erédia permite‐nos concluir que a construção de muralhas não alterou significativamente o traçado urbano da cidade. Uma planta holandesa dos inícios do século XVIII, guardada no Arquivo de Haia, contendo uma proposta para a construção de um forte, inclui com grande rigor o levantamento da cidade portuguesa. As alterações mais significativas situam‐se na periferia urbana, resultantes de retificações da antiga muralha realizadas durante a ocupação holandesa, mantendo‐se o núcleo urbano inicial relativamente estável. A análise comparada desta planta holandesa com a atual malha urbana de Negapatão confirma, com todo o rigor, que o traçado da cidade não sofreu significativas transformações, constituindo um precioso documento arquitetónico e urbanístico. Na estrutura de Negapatão transparece um desenho urbano formado a partir de dois eixos fundamentais que, cruzando‐se ortogonalmente, originam uma sequência de quarteirões de tendência regular e retangular. Um dos eixos estende‐se ao longo das margens do porto e o outro é‐lhe perpendicular, no sentido de uma penetração para o interior. Em Negapatão este eixo permanece ainda hoje, como a rua comercial mais importante da cidade. O cruzamento destes dois eixos estruturantes elege‐se como núcleo central de todo o tecido urbano, sendo marcado pela igreja dos jesuítas que, abrindo‐se num vasto terreiro junto ao antigo porto, assume hoje uma morfologia de gramática neogótica. Ao nível do edificado e da construção, observa‐se ainda nos edifícios mais antigos a permanência de técnicas de construção em alvenaria, com particular incidência no uso de telha de canudo rematada por típico beirado à portuguesa, com duas fiadas de telha encastoadas na alvenaria da parede.

Helder Carita

Arquitetura religiosa

Loading…