Diu

Lat: 20.714547222222000, Long: 70.996116666667000

Diu

Guzerate, Índia

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Em 3 de fevereiro de 1509 travou‐se na barra de Diu, em plena costa do reino ou sultanato do Gujarate - ou de Cambaia, como os portugueses o designavam-a mais importante batalha naval na história da presença portuguesa no Oriente, pois abriu‐lhes o domínio do Índico durante tempo suficiente para estabelecerem o que veio a ser o Estado da Índia. Comandados pelo vice‐rei Francisco de Almeida, os portugueses destruíram uma frota comandada por Mir Hussein (Hussein Al Kurdi) e composta por forças do sultanato mameluco do Cairo e Alexandria, mercenários rumes e efetivos do samorim de Calecute e do sultão de Gujarate, estes armados por Meliqueaz (Malik Aiyaz), antigo escravo tártaro que era o governante de Diu e, assim, vassalo daquele sultão. A coligação inimiga, que há pouco mais de um ano patrulhava o Índico de forma a contrariar os propósitos portugueses e assim proteger os interesses mercantis muçulmanos, contava ainda com o apoio das repúblicas (católicas) adriáticas de Veneza e Ragusa.
Paradoxalmente, pelo menos para a historiografia tradicional, esse marco estratégico na história da presença portuguesa no Oriente tem sido essencialmente assumido como resultado de uma mera vingança pessoal do comandante português pela morte do seu filho, Lourenço de Almeida, um ano antes, no encontro naval entre as mesmas armadas frente a Chaul, cujo resultado foi desastroso para os portugueses, asserção essa que é suportada por factos e fontes credíveis. Na realidade foi o seu último ato digno de nota enquanto vice‐rei, aliás produzido em desobediência, pois já recebera ordens expressas do rei para entregar o governo a Afonso de Albuquerque. Foi, porém, uma ação coerente com a estratégia que definira, de mero domínio dos mares e combate às redes mercantis estrangeiras, visando substituí‐las sem desígnios de soberania sobre os governos autóctones. Os feitos imediatos de Afonso de Albuquerque em Goa (1510) e Malaca (1511) não teriam sido possíveis sem a destruição desta primeira frota de coligação muçulmana, com um mal disfarçado apoio das repúblicas mercantis do Adriático.
No estabelecimento e estruturação de uma rede de portos no Índico os oponentes eram, de facto, os muçulmanos e Diu era nisso um porto chave. Situada no extremo da Península de Katiavar, na confluência de territórios e de culturas diversas, era central em relação aos fluxos comerciais entre o Golfo Pérsico, o Mar Vermelho e todo o Hindustão, com especial destaque para a sua posição como ponto de acesso aos ricos portos do Golfo de Cambaia. Era ainda importante a sua fácil articulação náutica com a costa oriental africana. Excelentes condições naturais coroavam a sua posição geográfica. Com efeito, Diu sendo uma ilha separada do território continental gujarati por um canal apenas navegável na entrada oriental, determinou que a urbe e sistema fortificado se desenvolvessem nesse extremo da ilha, aliás de forma afilada e algo alcantilada. Diu significa "luz".
Apesar da estrondosa vitória, o domínio sobre o local não foi imediato. Os ensaios de conquista de Afonso de Albuquerque, em 1513, e de Diogo Lopes de Sequeira, em 1521, falharam. Pelo meio ficou a autorização, obtida por Albuquerque em 1514, para a instalação de uma feitoria, que funcionou com enorme rendimento precisamente até àquela última tentativa. O controlo do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho tardava e uma instalação mais sólida no litoral hindustânico de soberania muçulmana foi gradual e apenas assumidamente pretendida com a governação territorializante de Nuno da Cunha (1529‐1538). Favoreceu‐o a pressão exercida pelo Império Mogol sobre o Gujarate, que permitiu a ocupação dos territórios de Baçaim em dezembro de 1534 e, em setembro seguinte, a autorização para uma instalação efetiva em Diu, especificamente através da célere conformação de uma fortaleza no extremo nascente da ilha. O sultão gujarati, Bahadur, sofrera uma pesada derrota e refugiara‐se com a sua corte em Diu, solicitando aos portugueses apoio para a defesa, pois o ataque mogol era iminente. Tal como em Baçaim, o comando operacional foi de Martim Afonso de Sousa.
Por estas razões, os estatutos de cedência de Baçaim e de Diu são muito diversos, e deram origem a situações urbanas necessariamente muito diferentes. Do ponto de vista político‐administrativo, Diu surgiu como uma espécie de protetorado português de uma pequena porção do sultanato gujarati, que acabaria por ir integrando toda a ilha, a sua população e, ainda, uma ínfima porção do território mais próximo no continente. O resultado imediato foi uma partilha de poder entre o rei local, que se manteve soberano sobre o território continental, e o Estado da Índia, que almejava tutelar a soberania dos mares e o comércio nas portas do Golfo de Cambaia. Ao invés de outras instalações como Baçaim ou Goa, à instalação em Diu nunca esteve subjacente qualquer desígnio de controlo e expansão territorial, de senhorialização e rendimento fundiário. A instalação era de controlo militar, marítimo e comercial, no que aliás cedo fraquejou, pois os portugueses nunca lograram controlar o Golfo de Cambaia - nem mesmo com a ocupação de Damão em 1559 - e os muçulmanos desenvolveram alternativas. Sob o domínio português, Diu exportava essencialmente a produção própria, pois do continente pouco ali passou a afluir.
Porém, o entendimento do sultão sobre o negócio que fizera era bastante diferente do dos portugueses e uma vez afastada, no imediato, a ameaça mogol e formada a fortaleza, tentou livrar‐se dos portugueses, o que lhe valeu a morte em fevereiro de 1537, ou melhor, o assassinato, pois tratou‐se de um acidente simulado. Mas de novo se formava uma armada turca e mameluca a partir do Cairo e ao longo do Suez para dar combate aos portugueses, sendo Diu o objeto concreto e imediato de ataque. Mais uma vez, estavam coordenados com a resistência local gujarati. Os portugueses reforçaram o dispositivo defensivo, preparando‐se para um cerco. Coube a António da Silveira comandar a defesa do cerco, instalado em agosto de 1538. Os gujaratis ocuparam então a cidade, obrigando os portugueses a confinar‐se à fortaleza. A esquadra turca desembarcou um mês depois. Tudo parecia perdido, mas a estrutura defensiva aguentou e em 5 de novembro os turcos levantaram ferro e os gujaratis o cerco.
Em 1546 a história repetiu‐se, sendo que desta vez o ataque apanhou de surpresa as duas centenas de portugueses colocados em Diu. O infernal cerco durou de 21 de abril a 11 de novembro, atravessando toda a monção, o que impedia o socorro português, que necessariamente tinha de chegar por mar. Os sitiantes contaram com a colaboração de mercenários italianos, designadamente engenheiros militares, e lograram romper a cortina defensiva, dando azo a combates corpo a corpo. De facto, mais uma vez tudo pareceu perdido, mas finda a monção a chegada do vice‐rei João de Castro com reforços resolveu o cerco numa semana. Ambas as vitórias foram amplamente celebradas e deram origem a um gradual aumento de soberania portuguesa sobre a ilha. Por exemplo, em 1554 passaram a arrecadar todas as receitas da alfândega, em vez do terço que haviam negociado anteriormente. Claro que a oportunidade foi determinada por mais um facto local que gerou uma grande convulsão no Gujarate: a morte do sultão Mahmud III. De 1570 a 1574 os portugueses intervieram na muralha urbana, o que significa a assunção do controlo global da cidade, então e sempre de uma forma razoavelmente cordata, respeitando princípios de identidade e liberdade religiosa de uma forma sem paralelo em qualquer outra posição no Hindustão.
Em tudo o que acima se tem vindo a relatar está não apenas evidente a relevância que os muçulmanos atribuíam ao local, mas também subjacente o papel determinante da fortaleza na sua defesa, sendo que a sua conformação foi dinâmica, evolutiva. Depois do cerco de 1546 seria submetida a uma reforma radical, pela introdução de uma nova cava e de baluartes de orelhões, o que, com pequenas alterações, lhe daria a configuração que ainda hoje exibe, resistindo à ruína. De tudo isso, bem como do seu interior, daremos melhor conta na entrada seguinte. Vejamos entretanto algo sobre a cidade em si, sendo que é desde logo imperioso assinalar o carácter verdadeiramente excepcional e único, no âmbito do património europeu na Ásia, da fortaleza e da igreja jesuíta, o que é tratado em entra‐ das específicas.
Diu é uma ilha fusiforme, com cerca de quinze quilómetros no seu eixo maior (este‐oeste) e um máximo de cinco na respectiva meridiana. A ponta continental do outro lado do canal e da ponte é Gogolá, aldeia sobre uma restinga de areia com cerca de dois quilómetros quadrados, que sempre esteve integrada nos domínios da ilha. Quando os portugueses ali se instalaram existiam duas pontes que faziam a ligação, mas que o vice‐rei João de Castro, apesar de as elogiar efusivamente, mandou destruir para isolar a ilha, aumentando a sua segurança. Como já acima se disse, a cidade localiza‐se no extremo oriental da ilha e é cingida por uma cintura de muralhas anteriores à presença portuguesa, que a envolviam pela frente do canal e terra até ao século XIX. Da banda do mar, apenas uma enseada necessitou de fortificação, uma vez que a costa é abrupta, imprópria para qualquer tipo de desembarque.
Os portugueses introduziram algumas alterações e reforços na muralha gujarati, designadamente em 1574, mas o essencial manteve‐se. Hoje, desse perímetro geral conserva‐se apenas a cortina que atalha a cidade do resto da ilha. A área muralhada é considerável, o que faz com que a maior parte não esteja nem nunca tenha sido ocupada. Por outro lado, confirma o facto de o núcleo urbano ser anterior ao seu amuralhamento. O território delimitado é acidentado, marcado por alguns morros e barrancos, descendo mais suavemente junto à frente para o canal.
A cidade gujarati - uma medina - desenvolve‐se densa e literalmente contra a muralha, centrada na Porta do Campo, com distensão para a frente portuária, hoje em termos de movimento uma sombra de outros tempos. Na sua estrutura geral não apresenta de forma sistemática a morfologia habitual das cidades islâmicas, com adarves e impasses, mas uma trama viária que, apesar de muito irregular, flui organicamente por entre bairros onde aquela estrutura, de facto, internamente se verifica. Para além da relevante mistura hindu, parece assim óbvia uma intervenção da administração portuguesa, que ao longo dos séculos terá impossibilitado um emaranhado viário a que, cultural e militarmente, era avessa, mantendo circuláveis artérias de atravessamento da medina islâmica. O mesmo sucedia desde a Reconquista cristã na Península Ibérica nos séculos XII a XIII, sempre que se ocupava uma cidade islamizada, indo‐se aí bem mais longe nesse processo de reestruturação morfológica.
Contudo, e apesar da profunda decadência de Diu em relação ao seu passado, ainda hoje se presencia o carácter artesanal e comercial em souk das principais ruas da apertada malha urbana gujarati de Diu, mantendo‐se na toponímia e na atividade da zona com mais comércio a presença dos baneanes, a numerosa etnia dos comerciantes que mantêm a ligação de sempre à costa oriental (suaíli) africana. A verdade é que a própria arquitetura autóctone, pela extroversão e exuberância volumétrica e decorativa, também trai o espírito próprio das cidades islâmicas, o que constitui uma variante regional, que nada tem de português, e tem de ser levada em conta na contabilização da especificidade urbanística de Diu. Assinale‐se ainda o facto de a toponímia antiga denunciar o arruamento por tipos de atividade.
No extremo leste da ilha localiza‐se a fortaleza feita pelo conhecido processo de atalho, ou seja, a construção de uma muralha que seccionou parte da cidade, a qual passou a ser reservada como último reduto defensivo. Foi dentro dela que desde logo se desenvolveu, com maior identidade, intensidade e densidade, um núcleo português. Mas a sua área de cerca de quatro hectares, incluindo os maciços, cava interior e equipamentos civis, religiosos e militares que ocupam três quartas partes, jamais terá permitido o desenvolvimento pleno de uma situação urbana, ideia instalada pela absolutamente equívoca, mas deliciosa, representação iconográfica inserida nas Lendas da Índia... de Gaspar Correia, matéria a que voltaremos na entrada seguinte. O que hoje verificamos no local e o que surge representado na demais cartografia e iconografia - inclusive a algo anterior "Tavoa de Dio" (1539) inserta no Roteiro de Goa a Diu de João de Castro - são a melhor prova desta asserção. A "Tavoa" mostra‐nos a cidade gujarati correspondendo estrutural e proporcionalmente ao que ela é, com a mesquita no local da atual, bem como a muralha de terra, o porto e os estaleiros, enfim a ribeira. Até o Baluarte do Mar está bem mais próximo do que hoje é.
Contudo, dentro da fortaleza existiram inicialmente "muitas cazas [...], muy nobres e fermozas, de dous ou três sobrados, onde antiguamente moravão muitos cazados portuguezes com suas famílias, os quaes, pella ma vezinhança que lhe fazião os capitães da fortaleza com seus criados e parentes, largarão as ditas cazas e se paçarão a viver fora, deixando‐as cair e chegar aquele estado."É o que relata António Bocarro, a par com o também muito equívoco desenho de Pedro Barreto Resende de 1635. Nunca terão ido a Diu, até porque continuamos sem perceber como ali caberiam essas "muitas" casas, com os respectivos arruamentos, num escasso hectare. Mas temos a certeza, até porque ainda há vestígios e cartografia fiável, que para além da Igreja da Misericórdia (1542) e do respectivo hospital, ali estiveram a Igreja Matriz de São Tomé (1536), as capelas de São Martinho (1546) e de São Tiago (1623), a feitoria e o Paço do Capitão, este junto e controlando a entrada aberta a um cais sobre o canal, com o Baluarte do Mar - localmente designado por Panikotha - em frente. Todas essas estruturas ruíram ou arruinaram‐se irremediavelmente, em especial ao longo do século XIX, quando a urbanidade portuguesa se virou definitivamente para a frente do canal entre a fortaleza e a ribeira da cidade.
Um pouco recuado, ainda em Quinhentos, erguera‐se o Hospital dos Pobres, equipamento assistencial de pendor mais solidário que clínico, que alguma iconografia coeva representa e do qual se conserva uma lápide. Entretanto, os equipamentos religiosos católicos foram surgindo de forma esparsa, mas formando um arco com centro na fortaleza, delimitando a cidade preexistente. Disso dá boa conta a fotografia de satélite anexa, a cartografia antiga e as entradas seguintes que lhes são específicas. Com eles, bastante casario para portugueses e cristãos da terra, entretanto destruídos.
Como todos os equipamentos, as igrejas marcam a paisagem urbana de Diu pela sua escala e expressão, mas também pelo relativo isolamento em que se encontram, num território urbanisticamente deserto de uma cidade portuguesa, que se chegou a lançar entre a nativa e a fortaleza, mas acabou por não resultar. Não terá sido apenas pela falta de gente, mas essencialmente por necessidades defensivas posteriores, uma vez que temos notícias do arrasamento desse tecido urbano. Segundo o relatório de António Bocarro e Pedro Barreto Resende, no ano anterior e por ordem direta do vice‐rei, após relatório, já publicado por Pedro Dias, dos três inspetores ali enviados para determinar de que obras carecia a fortaleza - e a que Bocarro, pelos dados meticulosos sobre a fortificação, inegavelmente recorreu - foram demolidas cento e trinta e sete casas "muy nobres e grandes" existentes junto à fortaleza, por forma a se garantir campo aberto à sua defesa em caso de ataque. Já na ocasião se procedia ao desmonte de um outeiro situado entre o Baluarte de São Domingos ou da Madre de Deus e o convento dominicano daquela invocação, do qual a Planta da fortaleza e cidade de Diu, levantada por João António Sarmento em 1783 [Biblioteca Pública e Municipal do Porto, C. M.&A., Pasta 24(35)] tem delimitado o perímetro. Não se baixava a guarda, nem se poupavam esforços.
Apenas os conventos - franciscanos, jesuítas, dominicanos, hospitalários - e as igrejas de Nossa Senhora da Esperança e a paroquial de São Tomé resistiram, apesar de haver documentos em que, ao longo dos anos, se dá conta dessa necessidade para todos eles, com compreensível exceção para a paroquial, um pouco mais distante, mas alcandorada sobre um outro outeiro. Na sua Década XIII, António Bocarro relata que António Pinto da Fonseca, o primeiro provedor‐geral das fortificações da Índia, em meados da década de 1610 tentou impedir a continuação das obras da casa jesuíta, o que lhe valeu uma oposição feroz. Já os inspetores que em 1634 ali estiveram não foram da mesma opinião, considerando apenas como padrastos à fortaleza as referidas casas e o outeiro.
De facto, as ordens contavam não apenas com o peso que tinham junto das autoridades, mas essencialmente com o argumento de se terem implantado, como era habitual, algo distanciadas da fortaleza - entre quatrocentos e seiscentos metros - balizando o crescimento da cidade portuguesa em formação e a sua fronteira com o núcleo urbano pré‐existente. Assim se explica o vazio urbano que persiste entre esses edifícios, incluindo os que já desapareceram, e a fortaleza. Num posto onde a presença portuguesa dependia da segurança militar, era imperativa a esplanada sem padrastos, requerida por toda a tratadística e prática da engenharia militar moderna.
Com a decadência comercial e, assim, urbana, a função defensiva adquiriu ainda mais relevância. Demolidas numa idade de decadência económica e gradual despovoamento do posto, aquelas casas não seriam substituídas no imediato por um novo bairro noutra posição. Alguns partiram, outros ocuparam casas deixadas vagas por muçulmanos na medina. Atendendo aos dados demográficos fornecidos por diversas fontes, aquelas cento e trinta e sete casas (Bocarro refere cento e trinta e cinco) estariam perto do pleno das residências de portugueses e cristãos da terra, ou seja, com os conjuntos religiosos eram a cidade portuguesa.
Com efeito, todo o século XVII foi de grandes dificuldades para Diu, com secas, inundações, epidemias, guerras, pirataria, etc., ao que António Bocarro acrescenta a tirania dos capitães da praça, que asfixiavam as atividades económicas com taxas e muita corrupção. Segundo ele, fora da fortaleza já só então (1635) viviam cinquenta e nove portugueses. Pelo final daquele século, apenas viviam em Diu cerca de cento e setenta portugueses (incluindo a guarnição) entre uma população de cerca de 5.500 pessoas. Número que se manteve até meados do século XX, com uma crescente diminuição dos portugueses até que foram forçados a partir em 1961.
Entre outros testemunhos, o acima referido levantamento de 1783 dá‐nos um excelente retrato de toda essa singular situação urbanística, sendo nele marcante a linha amarela que atravessa o conjunto urbano do canal ao mar e, segundo a respectiva legenda, "divide os christoens dos gentillos". É a confirmação de uma separação que não é étnica, mas confessional, já referida noutros textos deste volume. Mas também confirma a existência, então apenas em mente, de uma cidade portuguesa/cristã que entretanto fora demolida, pois do lado cristão da linha é ralo o casario que acompanha os já referidos edifícios religiosos, dos quais metade entretanto também soçobraria - dominicanos, hospitalários com o seu hospital e Igreja de Nossa Senhora da Esperança - já apenas por mera incúria e decréscimo de crentes. O documento só não é absolutamente correto e expressivo porque representa o tecido da medina gujarati de uma forma esquemática, sem os adarves e impasses que a cartografia e a fotografia aérea/satélite atuais ainda confirmam. Caso contrário, o contraste morfológico e de densidades seria ainda mais evidente.
Pelo que aqui tem vindo a ser reunido, vê‐se como para Diu é hoje árduo invocar‐se a temática da "cidade portuguesa" do Primeiro Império. Com as especificidades evidentes em outras na costa ocidental hindustânica, é difícil vislumbrar‐se uma Diu de Cima (que seria a cidade preexistente) versus uma Diu de Baixo (que poderia ter sido, ou efemeramente foi, a tal cidade intermédia entre aquela e a fortaleza). Por outro lado, não são conhecidos dados sobre a existência de uma fidalguia ou senhorialismo portugueses ou de cristãos da terra, goeses, etc. Seguindo um outro sistema de prioridades e condicionados por um conjunto de situações adversas, em Diu os portugueses não lograram preencher os requisitos mínimos do eventual arquétipo do modo português de fazer cidade, dando‐lhe consistência urbana, demográfica e um quadro social completo, assim lhe garantindo continuidade.
A questão que resta para uma investigação ainda por empreender - uma monografia completa de Diu elaborada segundo metodologia credível - é a de como, até que ponto, por onde e como se desenvolveu, por intervenção administrativa portuguesa posterior, um tipo diverso de cidade a partir daquela que foi encontrada. Não uma cidade portuguesa, mas uma cidade de influência portuguesa, sendo claro que, como veremos de imediato, o seu carácter atual deve muito a intervenções feitas nas últimas décadas da administração portuguesa.
Após as razias urbanisticas de Seiscentos, os escassos portugueses foram‐se então recompondo de forma rala no espaço intermédio entre a fortaleza e a medina, com uma maior concentração ao longo do canal, sobre a ribeira e porto. É ali que ainda hoje encontramos o palácio do governador e um conjunto integrado de novos equipamentos urbanos, resultado de uma operação desenvolvida no último quartel de Setecentos, reflexo do frustre plano pombalino de "restauração" do Estado da Índia, empreendido em 1774. São eles, de este para oeste, entre outros afins: o mercado no sítio da primitiva alfândega e com uma coluna monumental servindo simbolicamente de pelourinho datado de 1799, que substituiu um anterior localizado junto da fortaleza; o novo cais urbano com a nova alfândega; e o arsenal com o seu magnífico portal articulando os respectivos armazéns, o cais privativo e o guindaste datado de 1782.
Tudo isso implicou o desmantelamento de parte considerável da muralha que encerrava a cidade ao canal, processo que seria concluído no início do século XX. É uma evolução que já se nota no meio século compreendido entre o levantamento de 1783 acima referido e outro, a Planta do Cast.º Praça, e Cidade de Dio de 1833 da autoria de José Aniceto da Silva (Gabinete de Estudos Arqueológicos da Engenharia Militar 1227/2A‐24A‐111). Evolução monumentalizante, aliás na linha de uma tendência, que nos parece de raiz gujarati, para a celebração de factos e pessoas através de monumentos urbanos, obeliscos, colunas, lápides, patente da iconografia mais antiga até aos dias de hoje no próprio museu arqueológico montado em 1904 na Matriz de São Tomé, cuja epigrafia que já foi objeto de estudos exaustivos.
O domínio britânico da Índia pacificara a região e Diu e os portugueses puderam abandonar a fortaleza e, na medida do possível, urbanizar‐se. Diu abriu‐se então definitivamente ao continente, com a muralha na frente para o canal a dar lugar a um passeio em marginal entre o cais urbano e a fortaleza, passando pelo mercado e pelo palácio e dotado de um varandim, estrutura de sabor romântico inovador e então comum a muitas outras cidades portuguesas. Foi o corolário de um período em que os portugueses reaproveitaram muitos elementos das construções entretanto demolidas ou arruinadas, para se instalarem ao longo do canal e junto aos conventos. Surgiriam alguns equipamentos (escolas, tribunal), e até habitação coletiva para funcionários.
Particularmente significativa é a abertura em 1857 da Estrada de Torres Novas - designação que homenageia o governador que a ordenou, António César de Vasconcelos Correia, conde de Torres Novas (1855‐1864) - um gesto de estruturação urbana que permitiu a regulação do novo edificado que a conformou. É uma autêntica rua direita entre o porto e as igrejas, embora termine sem remate condigno num pequeno largo junto ao edifício do tribunal. O seu traçado revela a intenção de polarizar a efetiva ocupação do território da cidade portuguesa e, consequentemente, a consolidação do largo do complexo jesuíta, dito de São Paulo, como lugar central. Com todas as limitações é, ainda hoje, o mais expressivo toque ocidental na morfologia urbana de Diu. Mas não é o mais expressivo.
Esse é o insólito esboço de praça que nos surge quando entramos na cidade pela Porta do Campo. Era já um espaço urbano na cidade preexistente, mas adquiriu uma expressão italianizante, clássica, com a construção nos seus lados norte e este de dois pórticos em arcaria de pedra lavrada em rústico (bugnato). Tudo faria crer uma intervenção quinhentista ou seiscentista, mas não. A sua construção e projeto são sinteticamente relatados pelo seu autor, Miguel de Noronha de Paiva Couceiro, quarto conde de Paraty e governador de Diu entre 1948 e 1950, a páginas 135‐136 do seu livro Diu e eu. O que existia era "um largo, rodeado de muros que vedavam terrenos particulares" e "os restos de uma balaustrada barroca encastoando uma pedra de armas Reais. Eu marco que dava para uma das ruas de acesso." Ele, que era um "grande amador de praças - o mais atraente motivo de uma urbanização quando os arquitectos o sabem aproveitar" revela que "Estava feito o plano [com essas preexistências] e eu acordei com todos os proprietários dos terrenos circundantes que abrissem os seus muros com lojas, sob o mesmo risco de arcadas e balaustradas tomado do modelo antigo. E chamou‐se‐lhe Novo Bazar".
Miguel de Paiva Couceiro (1909‐1979) foi governador de Diu nos anos em que se concretizou a independência do Raj, com a separação, violenta e por razões confessionais, entre Índia e Paquistão. A situação não podia ser mais difícil, em especial numa possessão portuguesa próxima daquele último país e encastoada em território de maioria muçulmana. O seu governo de Diu foi apenas de dois anos, pois a dinâmica que lhe impôs e a ação que desenvolveu de aproximação aos indianos valeu‐lhe desentendimentos (e prováveis ciúmes) com o governador‐geral. A imprensa indiana considerava‐o o Mountbatten português, desejando que ascendesse ao governo da então designada Índia Portuguesa.
Além disso, promoveu consideráveis reformas administrativas, a melhoria das ligações ao exterior e das condições sanitárias, bem como a instalação de um conjunto de equipamentos assistenciais (hospital, centro médico) e culturais, designadamente bibliotecas (Norotom Mulgi e Revam Bai). Restabeleceu o aprovisionamento de água potável (abandonado há quarenta anos) e fundou a primeira estação de rádio do Estado da Índia, num pequeno edifício modernista junto do aeroporto, recentemente demolido. Já para a nova estação de cor‐ reios, o projeto determinou uma clara gramática neoclássica, rara nas províncias ultramarinas do Estado Novo. Mas a sua impressionante ação não se pautou apenas por um excepcional e modernizante desempenho diplomático e governativo, pois o seu papel individual como construtor, de claras opções revivalistas, não se ficou pela Praça do Novo Bazar, acima referida.
Talvez mais marcante, ainda que hoje de percepcão difícil pela descaracterização e envolvente vegetal, foi a sua ação de reabilitação do Palácio do Governador - no fundo uma verdadeira renovação - que também relata no seu livro e que no jornal Anglo-Lusitano de 24 de junho de 1950 mereceu a seguinte referência: "Com fachada do século XVII, encimando os brazões dos valorosos heróis de Diu, Nuno da Cunha, António da Silveira, D. João de Mascarenhas e D. João de Castro, todo o mobiliário artistico característico de estilo indo‐português, os interiores e principalmente a ‘Sala de Parvati’, enriquecidos com pedra e madeira lavrada". Na realidade, Miguel de Paiva Couceiro não só incorporou inúmeras pedras de armas dispersas por ruínas da cidade,como o encerrou fazendo‐o neo‐manuelino, em especial através da lavra de colunas e pedras de armas em ameias concheadas, arcarias com frisos de bolas, etc. É uma surpreendente maravilha revivalista, de óbvia temática colonial, que à primeira vista engana na cronologia tanto quanto a nova praça. Na sua autenticidade equívoca, é um dos paços que restam dos governantes do velho Estado da Índia.
Na década que se seguiu, o Estado Novo manteve uma ação modernizadora, mas travando a sua última batalha contra a inevitabilidade da integração de Diu e dos demais territórios da então Índia Portuguesa na Índia. Miguel de Paiva Couceiro travara e perdera só a sua batalha de sinal oposto. Por fim, em dezembro de 1961, reagindo à invasão das forças armadas indianas, também ali, em Diu, ingloriamente e pela última vez portugueses lutaram e perderam a vida por algo que não poderia continuar seu. Prevaleceram marcas múltiplas, essencialmente de matriz cultural, edifícios e espaços de cruzamento, uma morfologia urbana única, dados e fontes históricas abundantes, tudo ainda por estudar cabalmente. Mas no meio de tudo a maior expressão advém da componente estratégica e militar, pois foi sempre esse o desígnio e o paradigma para a presença portuguesa em Diu. Por isso o território e a sua vocação militar desenharam e conformaram a cidade, em vez de ter sido a cidade a modelar o território.

Nuno Grancho

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