Chaul [Revdanda Fort]

Lat: 18.546830986816000, Long: 72.927727983775000

Chaul [Revdanda Fort]

Maharashtra, Índia

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Em março de 1508, o porto e o mar ao largo de Chaul foram palco de uma das mais referidas batalhas navais da presença portuguesa na Ásia: a Batalha de Chaul, primeira derrota naval portuguesa na Ásia. Uma pequena frota foi surpreendida pela frota islâmica comandada por Mir Hussein e armada por Meliqueaz (Malik Aiyaz), o governante de Diu. Tratava‐se de uma unidade fortíssima, composta e armada pela conjugação de esforços do sultanato mameluco do Cairo e Alexandria, de mercenários rumes (turcos), do samorim de Calecute, de Veneza, entre outros. O comandante português, Lourenço de Almeida, filho do primeiro vice‐rei, Francisco de Almeida, morreu com a destruição do seu navio na barra de Chaul, ao bater em retirada. Jogava‐se então o tudo por tudo para o domínio dos mares da Índia, entre os portugueses recém‐chegados e o status quo mercantil muçulmano suportado pelo império otomano, pois era através dele que as mercadorias do Oriente chegavam à Europa.
A retaliação não se fez esperar, aqui assumidamente com um carácter de vingança pessoal. Naquela que é considerada a mais emblemática batalha da Marinha Portuguesa, a 3 de fevereiro de 1509, a armada portuguesa comandada pelo próprio Francisco de Almeida desfez a frota do samorim de Calecute, arrasou a cidade de Dabul e destruiu a armada islâmica ao largo de Diu, instalando um patamar de domínio português nos mares da Índia por algumas décadas, ainda que continuassem a ser frequentes os encontros com armadas turcas. Na ida forçou o feudatário de Chaul, vassalo do sultanato de Ahmednagar, a tornar‐se vassalo do rei de Portugal, pagando um tributo regular em troca de apoio na luta contra o sultanato de Bijapur.
Já antes se haviam produzido algumas trocas comerciais, o que levou ao estabelecimento de um feitor, designado por Goa, na foz do Rio Kundalika, cuja navegabilidade permitia trazer do interior produtos de grande valia comercial. Por outro lado, a posição na orla marítima, a meio caminho entre as especiarias do Malabar e as riquezas de Cambaia, tornava estratégico o seu controlo militar, até porque as características geográficas potenciavam o estabelecimento de um eficaz sistema defensivo. O rio entrega‐se caprichosamente ao mar através de um sifão. O interior da curva, um raso de praia aberto a sul, era o local ideal para se implantar feitoria e fortaleza, até porque, como em Baçaim, um esteiro pantanoso isolava esse raso do lado de terra, a nascente. Praticamente, só a norte havia um contacto franco com terra. Na margem sul, sobre o morro em istmo (Korlai) que obriga o rio a lançar‐se no mar no sentido norte, era óbvia a importância da instalação de um forte, pois não só permitiria cruzar fogos, como impediria que dali impunemente se alvejasse a margem norte.
A montante daquele local, ideal para a implantação da feitoria e fortaleza e, assim, onde se veio a desenvolver a cidade portuguesa, encontrava‐se a cidade de Chaul, a decima. Segundo diversas crónicas, no início de Quinhentos, apesar de bastante pequena e quase despovoada nos meses em que a monção tornava impraticável a navegação, o comércio e a guerra, a cidade estava bem defendida e era dotada de bons edifícios. No fundo era terminal portuário, por isso sazonal, de um reino interior, o sultanato de Ahmednagar.
Apesar da simbólica submissão em vassalagem de 1509 e da fixação de um feitor, só em 1516 se solicitou e obteve autorização do sultão Nizam ul‐Mulk de Ahmednagar (Nizamaluco para os portugueses) para a construção de uma feitoria. O modesto edifício foi erguido no já referido raso, um sítio chamado Revdanda, topónimo hoje em uso para designar a antiga Chaul‐de‐Baixo, a portuguesa. Decorridos cinco anos, e uma vez mais tirando partido de perturbações no equilíbrio político local, obteve‐se autorização para a construção de um forte. Foi um passo importante, pois passava a ser a mais avançada base portuguesa na conquista do norte e do domínio do rico trato de Cambaia. Em 1524, apesar do cerco imediatamente posto ao porto por uma nova armada turca, o forte estava pronto. Fora precedido de uma obra rápida em madeira, dentro da qual então se trabalhara em pedraria. Entretanto, desde a instalação da feitoria que, em campo aberto, se desenvolvia uma urbe que talvez tenha recebido um pequeno cerco provisório, inevitavelmente uma tranqueira.
Nos anos que se seguiram Chaul, além da sua intensa atividade comercial, desempenhou papel ativo na luta permanente pela conquista aos muçulmanos da hegemonia marítima e comercial no Índico Norte. A partir de 1540, a pressão permanente da armada turca e as sucessivas mudanças de humor do sultão que os acolhera quase deixaram de se fazer sentir, mas ao tomar conhecimento da morte daquele em 1557, os portugueses perceberam de imediato que a paz terminara e, como medida preventiva urgente, propuseram a ocupação e a fortificação de Korlai, o morro fronteiro onde, aliás, haviam erguido uma tranqueira‐bateria durante o cerco da década de 1520. O novo sultão recusou e iniciou, ele próprio, a fortificação. A pronta intervenção do vice‐rei interrompeu a construção e tudo ficou por algum tempo como estava. A verdade é que o sultão acabou por retomar a obra. Em 1594, numa conjuntura completamente diversa, os portugueses conquistaram o morro num heróico assalto.
A mudança surgiu com a submissão do reino hindu de Vijayanagar ao domínio muçulmano e a aliança que os reinos muçulmanos estabeleceram entre si para expulsar da Índia os portugueses. A par com o que foi feito a Goa, Chaul sofreu um pesado cerco em finais de 1570 e inícios do ano seguinte. Até ao fim de junho combates e permanentes bombardeamentos deixaram a cidade quase arrasada. Celebrou‐se então um tratado de paz. Para além do forte, conventos, igrejas e casas particulares haviam servido como estruturas defensivas, e quase tudo sofreu pesada destruição. Tornou‐se então evidente ser fundamental modernizar as defesas, fortificando. Assim se iniciou o encercamento da cidade que lhe conferiu a forma‐urbis que a caracteriza, não apenas em desenho, mas também na sua fotogénica imagem de vaso abaluartado sobre a praia recheado de coqueiros.
Que urbe era esta que em 1545 D. João III elevou à categoria de cidade? Não é fácil perceber, pois além do perímetro abaluartado, de que se dá conta a seguir em entrada própria, o casco urbano desapareceu sob um denso palmeiral de domínio privado, claramente enraizado mais de um metro acima do que seria o chão da cidade. É uma camada por certo rica de materiais que só a arqueologia poderá exumar e estudar de forma adequada. Subsistem, contudo, ruínas de algumas estruturas, as quais estão a desaparecer a um ritmo acelerado. A iconografia antiga disponível é elucida‐ tiva acerca do perímetro defensivo, mas parca em relação aos edifícios e estrutura urbanística. O mais fiável recurso contra o denso palmeiral é o relatório de 1964 do levantamento efetuado pela historiadora alemã Gritli Von Mitterwalner.
O forte inicial não era mais do que uma pequena roqueta quadrada, com cerca de dois mil e quinhentos metros quadrados de superfície e muralhas com cerca de quatro metros e meio de espessura, onde ainda se vislumbram torreões em três dos cantos, sendo um de menagem. Foi implantado no extremo sul‐sudeste, junto à feitoria e à praia. Só nos meados da década de 1530 se terá erguido um primeiro templo cristão - Nossa Senhora do Mar, a primeira matriz - de fora do ângulo sudeste do forte. Sucessivas reformas vieram a transformá‐lo num edifício de respeitável dimensão e qualidade arquitetónica, chegando a motivar o desaparecimento do quarto torreão do forte. A poente, atravessado um largo, encontrava‐se a feitoria.
Simultânea à fundação da igreja matriz foi a instalação dos franciscanos que, aliás, faziam a respectiva gestão espiritual. Mas a construção do seu convento terá sido iniciada apenas em 1561, tendo durado três anos. Em 1549, foi a vez dos dominicanos. De consideráveis dimensões, ambos os conjuntos se implantaram bordejando a praia entre oeste e sudoeste, estabelecendo assim um pólo oposto ao núcleo inicial e que deixa perspectivar o desenvolvimento prévio de casario e da malha urbana intermédios. A Misericórdia, instituída bem cedo, acabou por se fixar a meia distância, descaída sobre o norte.
Tudo parece indicar, incluindo as descrições dos combates do cerco de 1570‐1571, que, grosso modo, o perímetro da cidade era balizado por estes equipamentos (no sentido dos ponteiros do relógio): matriz, forte, dominicanos, franciscanos e Misericórdia. O único largo que se consegue referenciar era o já mencionado, compreendido entre o forte e a feitoria. Já no meio do hinterland rural, a norte, haviam sido fundadas algumas igrejas, como a da Madre de Deus, que para além de suporte à evangelização, teve um papel central na definição de uma linha defensiva avançada, como se verá na entrada seguinte.
O perímetro abaluartado erguido nas últimas décadas de Quinhentos, mas permanentemente em melhoramentos até ao fim da presença portuguesa, cercou a cidade e deixou‐lhe dois pontos de acesso, as habituais portas do mar e de terra, sendo extraordinário que numa primeira fase a igreja matriz tenha ficado de fora. Isso explica‐se pelo facto de já antes ter sido iniciada a construção de um muro com cerca de dois metros e meio de espessura e outro tanto de altura, que do forte seguia para o esteiro a nascente, deixando a igreja de fora, mas assim pré‐encerrando essa frente. Era uma couraça para ligar o forte à casa da pólvora e estava em obras em 1531 sob empreitada do mestre André Fernandes. É significativo que nada leve a admitir uma ligação clara - retilínea ou sequer direta (direita) - entre ambas as portas. As casas conventuais preexistentes reergueram‐se mantendo os anteriores partidos urbanísticos, sendo muito provável que com os restantes edifícios algo de semelhante se tenha passado. Mas a cidade retomou‐se como era, sem reformas sensíveis na sua estrutura urbana além, claro, de passar a ter um limite.
Limite esse que, contudo, ampliou para mais do dobro a área anteriormente ocupada. Foi nesse espaço que, prolongada a rua que unia o convento dominicano à Misericórdia, se veio a instalar o tribunal e o convento dos agostinhos (1587), ou seja, pouco antes de se atingir a Porta de Terra. Numa via sensivelmente paralela por nascente instalaram‐se em 1580 os jesuítas. Com esforçada exceção para estas duas ruas e uma outra a poente - também servindo a casa agostinha e o tribunal - não é possível vislumbrar outros indícios de um eventual desígnio de regularidade na malha urbana de Chaul que, tudo leva a crer, seria muito pouco densa, com casas dotadas de relativamente espaçosos quintais.
Contudo, a extensão da área urbana proporcionada pela muralha não evitou que a cidade se expandisse para norte onde, aliás, ao longo da outrora rua central hoje persiste um animado núcleo edificado. Apesar de corresponder às paróquias de São Sebastião e de São João, poderemos considerar este bairro como da Madre de Deus, pois sobre a praia ali foram erguidos em 1584 uma igreja e convento capucho dessa invocação, os quais eram também o pólo de uma linha avançada de defesa, dotada de muralha própria com baluarte.
No corolário do processo de assédio marata à Província do Norte, com as demais posições do distrito de Baçaim perdidas, em 1740 as partes negociaram um acordo segundo o qual Portugal cedeu Chaul em troca da paz para Damão e Goa. A cidade fundada pelos portugueses, que nunca terá tido mais do que duas ou três centenas de reinóis residentes que conviviam com muitos naturais fiéis, perdeu então a sua condição urbana. Quem não conseguiu fugir para outros postos portugueses, refugiou‐se do outro lado do rio, na aldeia de Kolai, no sopé do morro. Ainda hoje há ali testemunhos claros dessa ascendência.

Walter Rossa

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Habitação

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