Luanda [São Paulo de Luanda]

Lat: -8.813059999918800, Long: 13.230393999874000

Luanda [São Paulo de Luanda]

Luanda, Angola

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Luanda está marcada pela sua baía, ao longo da qual se desenvolve uma enconchada avenida marginal, realizada em meados do século XX, formada por uma extensa frente de construção e provida de palmeiras que, em dupla fila, enquadram a frente de água. Do lado oposto, a norte, estende‐se a "ilha" (restinga) que resguarda esta bacia do agitado Atlântico que banha a cidade. Olhando a Alta militar e institucional, a Baixa de Luanda corresponde à primitiva cidade colonial, transformada gradualmente na zona comercial e direcional. É um território plano, parcialmente conquistado ao mar, onde os primeiros colonos se instalaram. Uma pronunciada encosta liga esta parte ao planalto por onde a cidade foi crescendo, ao longo de ruas e avenidas que produzem uma singular paisagem de expressão afro‐tropical. É a cidade do asfalto. Onde este acaba, cresce o Musseque, hoje com uma população de milhões. Luanda é uma cidade tropical e, portanto, quente e húmida. Na estação das chuvas, chove súbita e implacavelmente. Na estação seca - cacimbo - não chove, mas a cidade está coberta de nuvens, a temperatura é mais amena, a amplitude térmica é reduzida, mas o teor de humidade é muito elevado. No entanto, em qualquer estação e ao anoitecer, um vento fresco varre a cidade, tornando‐a mais confortável. A luz de Luanda, de múltiplas variações e cambiantes, é uma das qualidades ambientais mais impressivas da cidade e das que mais influencia a sua arquitetura.
A cidade foi fundada em 1575‐1576, quando Paulo Dias de Novais e suas gentes ancoraram na Ilha das Cabras que era, na época, uma possessão do rei do Congo. Desde a sua fundação até meados do século XIX foi o centro mais importante do litoral, de onde irradiou a conquista e a evangelização do território, tendo desempenhado o papel de feitoria, primeiro de escravos e marfim, e, depois, de outros produtos, como urzela e goma. Foi a primeira cidade europeia fundada na África Ocidental. O tráfico de escravos sustentou a sua prosperidade e desenvolvimento, e abriu um caminho no estreitamento das relações com o Brasil, que se tornou o seu primeiro e mais importante mercado de mão‐de‐obra para os engenhos de açúcar. Até princípio do século XIX, Angola viveu do comércio de escravos importados pelo Brasil e por Portugal e trocados por vinho, tecidos, armas. Era protegida por uma baía de vocação defensiva e comercial (organizada em Cidade Alta e Cidade Baixa) acompanhando a morfologia do lugar. As referências antigas mostram a sua função dominante como feitoria, mas construíram‐se também equipamentos militares, religiosos e civis que demonstravam o interesse da coroa portuguesa. As ruturas do processo histórico, as descontinuidades do seu desenvolvimento urbano e construtivo, desde o utilizado pelos africanos ao imposto pela ocupação portuguesa, até às mais recentes intervenções, não sedimentaram a memória de um processo contínuo. É fácil perceber essa debilidade. A presença portuguesa determinou a adaptação dos seus modelos a condições físicas e climatéricas diferentes, a partir da utilização discreta de materiais de construção locais. O estudo destas influências ajuda‐nos a encontrar e compreender as suas implicações na produção arquitetónica, através da miscigenação e mestiçagem, e os fundamentos da realidade arquitetónica atual e futura.
Considerando a sua estrutura e fases de evolução urbana, Luanda foi até ao fim do século XIX uma cidade muito bela, com planta em forma de leque, que se desenvolveu entre a baía e o sopé do Morro de São Paulo, de enorme casario e solares cobertos por telhados múltiplos que, só por isso, a tornaram célebre. O Bairro dos Coqueiros, localizado entre a baía, a fortaleza e as barrocas do Morro de São Paulo, foi o aglomerado populacional da Cidade Baixa onde se localizaram as primeiras construções: casas nobres e "casas de sobrado" com pátios interiores e telhados múltiplos. Estas casas foram construídas com grande mestria, estando diretamente ligadas aos modelos portugueses que, na sua implementação em Angola, apenas sofriam pequenas alterações que melhoravam o conforto ambiental interior. Algumas delas foram denominadas "casas nobres", devido, sem dúvida, à riqueza da decoração das fachadas. A Cidade Baixa reflete essa nobreza nas construções tradicionais, não só pela qualidade e requinte da decoração como também na composição arquitetónica das igrejas, palácios, "casas nobres" e sobrados. Aí se situam também os espaços edificados para o comércio e o apoio portuário, enquanto na Alta, por razões defensivas, se estabeleceram muitas das funções urbanas vitais (defesa, governo, igreja).
Dos principais monumentos, podem mencionar‐se obras militares, religiosas e civis: as três fortalezas litorâneas da cidade, ainda existentes (encabeçando a Alta, a mais importante, a Fortaleza de São Miguel; a de São Pedro da Barra; e a de São Francisco do Penedo); ainda na Alta, a primeira Sé (de 1590, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, demolida), a inicial Casa de Câmara e Cadeia (que só em oitocentos passará para a Baixa, para o Largo da Mutamba), o Palácio dos Governadores (muito reformado e ampliado na fase pombalina e no século XX), o antigo Colégio e Igreja Jesuíta, seiscentistas, a Igreja e Hospital da Misericórdia (depois muito alterada), e ainda as igrejas de São João dos Europeus, de 1663, e de Santo António, do Convento dos Capuchinhos Italianos, de 1668. Na área da Baixa, com desenvolvimento urbano linear em roda do arco da praia, mencione-se o Bairro do Carmo (com a igreja do Convento de Santa Teresa das Religiosas Descalças), na proximidade do que viria a ser o espaço municipal do Largo da Mutamba. Igualmente na Baixa, e no extremo poente da Rua da Praia, marginal à água, ficava o Terreiro Público, fronteiro às praças do Falcão e do Terreiro (estas a poente e a sul), que formava um vasto quadrângulo, edificado por Sousa Coutinho no seu governo de 1764‐1772, e então dotado com ampla cisterna e cais. Os principais elementos da estrutura viária urbana da Baixa eram: a Rua Direita do Bungo, implantada até cerca da Ermida de Nossa Senhora da Nazaré; o Largo da Caponte, central em relação a toda esta área; do seu lado oriental, o Largo dos Remédios (com a igreja homónima, que fará de Sé depois da ruína do templo situado na Alta); o Largo do Esquadrão (ao Quartel de Cavalaria, de 1753); e a Praça Duque de Saldanha (à Alfândega, munida com um sólido cais e tendo junto o edifício do Trem/Arsenal, edificado cerca de 1750). Outros monumentos de Luanda, nomeadamente os da arquitetura civil residencial, podem ser evocados. As casas solarengas urbanas ("casas de sobrado") de amplas fachadas, vãos seriados e vários pisos, a mais monumental das quais era o chamado Palácio de D. Ana Joaquina, demolido recentemente e reconstruído como pastiche. O atual Museu de Antropologia, na Baixa, é outro exemplo de casa setecentista, funcionalmente reconvertida. Infelizmente, muitos dos melhores exemplos destas habitações só podem hoje ser testemunhados pela fotografia, tendo sido na sua maioria demolidos. Restam muito poucos vestígios da rica e variada habitação doméstica urbana de dimensões mais modestas, que o arquiteto Fernando Batalha ainda conheceu de modo a poder apresentar uma minuciosa tipologia, baseada quer na observação direta quer na recolha de documentação gráfica significativa. Recordemos as linhas gerais dessa tipologia: casas térreas, com pilastras e varandas na frente, porta central, janelas de cada lado, e telhado de quatro águas; casas térreas, justapostas, formando conjuntos, cada uma com quatro telhados independentes e dois ou três vãos na fachada; casas térreas, com "sobradinho" central sobre a porta, ladeado por dois corpos de cada lado; casas de dois pisos, urbanas, de pequena dimensão, com sacadas no andar superior. Outra série, mais interessante em termos urbanos, frequente na Baixa de Luanda, apresentava os característicos telhados de tesoura ou múltiplos, tendo adotado no século XVII "um aspecto sóbrio e um tanto austero", na primeira metade do século XVIII "uma feição mais graciosa" e uma "elegância de linhas e apuro de formas", observando‐se desde cerca de 1750 "um regresso à sobriedade", e "voltando a engalanar‐se com os motivos barrocos" na transição do século XVIII para o século XIX. Com efeito, encontram‐se vestígios desta tipologia no mundo português desde Tavira até aos Açores, ao Brasil ou à Índia. Exemplos da primeira fase seriam os edifícios na Avenida dos Restauradores de Angola e na Rua Salvador Correia, como o sobrado do Largo de D. Fernando, a Casa dos Lencastres e o Palácio dos Fan‐ tasmas. Da segunda, certas casas na Rua Avelino Dias, na Baixa, e o atual Museu de Antropologia, na Alta (recuperado/alterado pela Diamang nos anos 1960). Da última, um prédio datado no Bungo, o Palácio de D. Ana Joaquina, e edifícios nas ruas Sousa Coutinho e dos Mercadores.
Ao longo do século XIX, e até cerca de 1930, a análise da estrutura e evolução urbana de Luanda é facilitada pela existência de vários documentos escritos e iconográficos com assinalável qualidade estética e dimensão informativa. A planta datada de 1755 (Instituto de Investigação Científica e Tropical), permite uma detalhada visualização da forma da cidade e das funções do seu edificado; é possível compará‐la com planta de 1861‐1862, por F. Dutra, igualmente muito detalhada. Nesta fase, pode dizer‐se que o crescimento da cidade foi relativo; a sua estrutura essencial já estava consolidada em meados de Setecentos. Já o período de transição dos séculos XIX‐XX e o primeiro quartel de Novecentos correspondem a um amplo aumento da área da cidade. A urbe de 1900 lê‐se numa planta de Alves Roçadas, executada para a Câmara Municipal. A cidade teria uns 15.000 habitantes em 1910, cerca de 30.000 em 1923, e já 50.000 em 1930, dos quais 6.000 brancos e 5.500 mestiços. Ao longo dos primeiros vinte anos de Novecentos, surgiram algumas novas funções na Alta, aproveitando edifícios antigos, como os do Cabo Submarino, do Tribunal da Relação, da Torre do Observatório, da Procuradoria da República, do Tribunal Militar, do Asilo D. Pedro V e do Quartel‐General. Por outro lado, impôs‐se a presença inovadora da via‐férrea urbana (depois removida), que, através da subida mais suave do Bairro das Ingombotas, permitia a ligação mecânica entre a Baixa portuária e a Alta institucional. De forma inovadora, uma série de novas ligações viárias à Alta (a nascente da Avenida Governador Álvaro Ferreira e da Rua Neves Ferreira), com arruamentos retilíneos planeados, estruturavam uma nova área de expansão, bem como a ligação rápida ao Hospital e à saída da cidade para a Maianga e o Sul. Tratava‐se de uma malha em retícula, de expansão para nascente, a ser lançada nos anos seguintes, a qual estava limitada a norte pela larga Calçada Gregório Ferreira (que ligava a Mutamba/Largo Alexandre Herculano ao novo Largo de Leonardo Carneiro/Kinaxixe), e a nascente pela Avenida Brito Gudins. A via‐férrea, com uma estação entre o Forte do Penedo e a Nazaré, passava à Mutamba e ao Carmo, seguindo para sul, com uma outra estação na Alta, perto da Rua Neves Ferreira. O Largo da Mutamba/Alexandre Herculano, onde se localizava a nova edificação da Câmara, correspondia ao antigo Bairro do Carmo, gerando agora, de oeste para este, os bairros dos Ferreiras, das Ingombotas e, mais tarde, do Maculusso e da Maianga. A antiga Rua Direita, que desemboca neste largo, chamava‐se então Rua Avelino Dias e Rua de D. Miguel de Mello. Na linha marginal, a Rua Direita do Bungo, reforçada por nova edificação, dirigia‐se a nascente para os bairros da Nazaré, Mãe Isabel e Penedo. Nas imediações do Largo do Bungo, em plena Baixa, alguns edifícios marcantes exibiam novas expressões técnicas (o Palácio do Ferro) ou estilísticas (o Palácio do Comércio). Também na Baixa, uma série de funções civis e públicas modernizavam os equipamentos disponíveis. Foi o caso do Comissariado da Polícia, do Banco Nacional Ultramarino, dos Telefones e Telegramas, dos Correios, e da Capitania do Porto (à Praça de D. Pedro Alexandrino), bem como do Liceu Salvador Correia e do Quartel de Bombeiros. Finalmente, estava já previsto, no aproveitamento da área dos Coqueiros, junto aos morros da Alta, a implantação de um Parque Desportivo, com estádio. No início de Novecentos, Luanda apresentava, pois, uma estrutura triangular, assentando os lados na Alta, na Baixa e na área de expansão das Ingombotas, e os extremos no Hospital (sul) e no Kinaxixe (este), irradiando do central Largo da Mutamba.
O século XX começou a apresentar algumas transformações, provocadas pelo aparecimento do caminho‐de‐ferro e sobretudo pelo rompimento de novas ruas e avenidas em direção ao plateau do Kinaxixe. Simultaneamente, houve um incentivo à emigração, como forma de cumprimento das resoluções da Conferência de Berlim. Até 1930 os limites da cidade mantiveram‐se dentro do foral de 1909, ou seja, numa área aproximada de trezentos e cinquenta hectares. O fim da Segunda Guerra Mundial trouxe crescimento e desenvolvimento para Angola, sobretudo para Luanda. A economia agrária de plantação vira‐se para o exterior com produtos de alta cotação internacional, entre os quais o café; o aumento demográfico é acompanhado por um desenvolvimento comercial e industrial, o que justificou o aterro da marginal e a construção do porto comercial de Luanda entre 1942 e 1945. A atividade portuária deu uma importância cada vez maior à cidade por se ter tornado terminal das comunicações tanto para o interior como para o exterior de Angola. O resultado do "boom do café" foi o início de novos investimentos na construção civil. A cidade modernizou‐se, construíram‐se novos bairros que substituíam antigos musseques, como por exemplo o Bairro do Café. A Alta e a Baixa renovaram‐se, acumulando novas funções, abrindo novos arruamentos que ligam ambas as partes da cidade e estruturam a primeira área de expansão, limitada a norte pela Calçada Gregório Ferreira, a nascente pela Avenida Brito Godins, e a oeste pelos bairros dos Ferreiras, do Carmo, da Ingombota, Maculusso e mais tarde pela Maianga. Desenha‐se um grande tabuleiro de xadrez que corresponde ao Largo do Kinaxixe, no qual se vai inserindo a modernização da cidade. Em meados dos anos 1950‐1960 a cidade cresce com um ritmo alucinante, não só ao nível de vivendas como também de infraestruturas.
Nesta época são bem visíveis na planta da cidade as principais alterações: na linha da baía, os novos cais e pontões, e a ferrovia portuária; na mancha urbana, o forte crescimento em malha radial, com abundante uso da tipologia de pracetas e alamedas arborizadas, em retícula muito irregular, expandida desde o seu centro genético. O eixo paralelo ao litoral foi alargado e modernizado (no sentido oeste‐este), desde o Largo Infante D. Henrique, pela Avenida dos Restauradores, prosseguindo pelo Largo de D. Fernando e Rua de Salvador Correia (edificada com prédios de cinco pisos nos anos de 1960) e apareceram novas vias (o eixo da Rua Serpa Pinto e a Circunvalação/D. João II, esta com área nova a nascente). Na mesma época iniciou‐se a ocupação e urbanização da ilha fronteira à baía. O processo de industrialização contínua gerou novos postos de trabalho e novas oportunidades. A partir dos anos 1960, a construção habitacional aumentou, principalmente a construção ilegal, que adicionou à cidade consolidada áreas não urbanizadas, sem saneamento básico, eletricidade ou água potável. Gerou‐se uma situação caótica que levou à elaboração do plano de urbanização de 1957, na tentativa de recuperar uma certa organização urbana. Mas devido a fatores externos (demora da elaboração na metrópole) e à dinâmica instalada, o plano já então se podia considerar ultrapassado. Com efeito, a voragem capitalista foi enorme, ocupando todos os espaços: muitos dos edifícios antigos deram lugar a novas construções, aparecendo novas funções e equipamentos urbanos. O ritmo de atividades urbanas iniciado por volta de 1950 desencadeou o aparecimento de novas indústrias de exploração e extração de minérios. Os espaços livres foram desaparecendo: os antigos e largos arruamentos tornaram‐se ruas estreitas, marginadas por altos edifícios de betão armado com uma utilização intensiva. Este desenvolvimento não planificado foi acumulando problemas complexos, cuja solução se foi tornando cada vez mais difícil. A partir de 1965, o investimento estrangeiro gerou um enorme e caótico desenvolvimento da construção civil, totalmente desenquadrado de qualquer plano regulador, o que levou à elaboração de vários planos de urbanização, alterados mais ou menos de dez em dez anos, sem nunca entrarem em execução. Depois de algumas intervenções pontuais, foi encomendado em 1971 o Plano Regulador para Luanda‐Cacuaco‐Viana mas, tal como os anteriores, não chegou a ser implementado por falta de cunho jurídico. Luanda tornou‐se uma manta de retalhos de intervenções em vários séculos de presença humana, com um passado evidenciado por elementos de composição, tecnologia e dinamismos momentâneos, não planificados e diferentes "das casas de adobe e dos telhados múltiplos às modernas torres de betão, alumínio e vidro".
Recordemos, em todo o caso, as principais iniciativas destinadas a disciplinar o crescimento urbano da cidade. O Plano de Urbanização da Cidade de Luanda, que, com o de Coimbra, foi o primeiro a ser realizado em Portugal, deve‐se ao urbanista Étienne de Gröer (Varsóvia, 1882‐?), com a colaboração de David Moreira da Silva (Maia, 1909‐2002), regressado de Paris em 1938, onde cursou o Instituto de Urbanismo. O plano, publicado na revista Técnica, do Instituto Superior Técnico, em dezembro de 1944, foi iniciado em 1942 e concluído em 1946. Previa cinco "aglomerados satélites", apresentados numa Planta da Região de Luanda, os quais teriam "perímetros generosos, para lá de uma zona rural de proteção com cerca de dois quilómetros de largura. De Gröer prevê a ligação entre si das cinco cidades‐satélite por uma semi‐circular, a estrada de circunvalação".
Foi por certo a partir deste plano que o arquiteto Vasco Vieira da Costa (Aveiro, 1911‐Porto, 1982) desenhou o inovador trabalho de final de curso na Escola e Belas Artes do Porto, Uma Cidade Satélite para a Capital de Angola, em 1948‐1949, onde explorou a concepção urbanística de inspiração corbusiana. Pela mesma época, o Plano de Urbanização e Planta de Luanda prevê uma expansão radial para sul e nascente da cidade, definindo áreas como as do aeroporto, indústrias, quartéis, rural, armazéns. Novo plano foi promovido pelo governo-geral, nos anos 1960, ganho por equipa francesa, o qual foi sendo completado (e alterado) até 1975. Tinha antes havido tentativa de estruturação urbanística, por convite ao urbanista Faria da Costa, que foi a Luanda para "orientar o recém‐criado Gabinete de Urbanização que funcionará adstrito à Câmara Municipal" (A Província de Angola, 09.04.1959, p. 4). Entre 1959 e 1966, sob a orientação do arquiteto Fernão Lopes Simões de Carvalho, o recém‐formado Gabinete de Urbanização de Luanda, municipal, foi desenvolvendo um plano diretor da cidade. Intérprete fiel da cartilha modernista, Simões de Carvalho foi um urbanista e projetista muito atento às singularidades da cidade e aos diversos contextos locais em que as suas intervenções se processam. Responsável pelo referido Gabinete de Urbanização da Câmara de Luanda, ali elaborou vários planos, setoriais e detalhados, entre os quais se deve salientar a Revisão do Plano Director de Luanda (1962) e o Plano de Urbanização do Futungo de Belas (1960‐1962).
Em relação à Arquitetura Moderna, datando dos anos 1950‐1970, Luanda tem um lugar de destaque, sobretudo na história do chamado Movimento Moderno. Pode dizer‐se que são dois os períodos em que é possível arrumar os acontecimentos urbanísticos e arquitetónicos mais relevantes da cidade: o primeiro, entre os anos 1920 e os anos 1950, com uma atividade urbanística assinalável (o referido Plano de Urbanização de Luanda, de Moreira da Silva e De Gröer) e a construção de importantes edifícios que esboçaram a estrutura fundamental da cidade dos tempos modernos; e o segundo, entre 1960 e 1975, em que a cidade moderna se consolidou. De resto, o período de 1975 até ao fim da guerra civil, que durou cerca de trinta anos, coincidiu com o arrastamento do país e, sobretudo, da cidade de Luanda, para problemas graves, de que hoje emerge gradualmente. Os pontos mais brilhantes da arquitetura angolana de matriz modernista encontram‐se, no entanto, entre 1950 e 1974. As obras de maior destaque são as de Vasco Vieira da Costa, Fernando Batalha, Simões de Carvalho, António Campino, Adalberto Dias, João e Luís Garcia de Castilho, Pinto da Cunha e Matos Veloso. A estes, que são referências incontornáveis, devem acrescentar‐se outros, com participação menos intensa mas não de menor qualidade, como Vasco Palmeira, Luís Taquelim da Silva, Pereira da Costa e Antonieta Jacinto (entre os residentes, ou com presença mais constante em Angola), e Francisco Keil do Amaral, Januário Godinho, Francisco Silva Dias, João António Aguiar e David Moreira da Silva (entre os não residentes e, por isso, com uma intervenção menos constante, mas nem por isso menos significativa). Face à produção destes e de outros arquitetos luandenses, a impressão que resulta é a de uma notável capacidade para enriquecer a arquitetura local com a aplicação inteligente dos princípios internacionalizantes da Carta de Atenas, que desde 1933 vinham conduzindo o desenho das cidades no mundo. De facto, o território angolano em geral e, em particular, a cidade de Luanda, constitui um caso paradigmático da arte de construir exercida por arquitetos de sensibilidade e possuidores da singular qualidade de saberem interpretar com naturalidade o contexto em que trabalharam. De facto, olhando as arquiteturas das cidades de Angola, sobretudo de Luanda, sedimenta‐se a ideia de que ali teve lugar um fenómeno de empatia natural entre a cartilha modernista vigente e os lugares onde os autores foram chamados a intervir. O gosto por uma certa secura de desenho e, simultaneamente, pelo desafogo dos espaços e, não raro, pela generosidade das formas, era muito angolano. O clima tornava este gosto quase obrigatório e muito adaptado à singularidade ambiental da cidade. Isto significa também grande parcimónia na ocupação do espaço visual e, portanto, uma caracterização assente na pureza dos elementos arquitetónicos essenciais. Razões de contexto, em que sobressai o factor climático, determinaram uma forma peculiar de conceber os edifícios, sobretudo a sua "pele", ou seja, a sua própria fachada. Em certo sentido, foi a forma de a construir que tornou singular a arquitetura produzida pelo modernismo angolano. De facto, a "pele" foi quase sempre um complexo de elementos que têm a ver com as proteções introduzidas na fachada, mas enriquecendo‐a de forma exuberante. Por sua vez, os elementos que as caracterizam são tão racionais quanto expressivos (materiais, texturas, cores, sombras, luzes e silêncios). As paredes perfuradas, as grelhas, as lâminas, os balanços, as consolas, os brise‐soleil, as varandas e galerias generosas, as persianas e gelosias protegendo recuos profundos e sombrios, as texturas grossas e pronunciadas, as cores terrosas, os materiais em bruto, como o betão, as superfícies lavadas e lisas, como os marmorites, foram os factos com que se construiu, nesses anos, a crónica diária da arquitetura luandense. A fachada ou "pele" dos edifícios tornou‐se, assim, um complexo de princípios e de práticas, traduzido numa grande riqueza plástica, paisagística e ambiental que, também por isso, se tornou particularmente atraente. A carência de meios tecnológicos sofisticados ou, talvez, a lucidez com que esta arquitetura foi desenhada, ajudada pela filosofia de pendor marcadamente ecológico dos princípios do Movimento Moderno, produziram tipologias edificatórias singulares e soberbamente desenvolvidas. Entre elas, é obrigatório citar alguns ensaios de carácter habitacional em projetos de bairros populares, mas também a implantação e desenho de alguns cinemas ao ar livre, como os Miramar e Aviz, por João e Luís Garcia de Castilho (que também desenharam o Cinema Restauração, de concepção europeia clássica). Idênticos princípios de contextualização ou inteligente aproveitamento das condições naturais estão patentes em muitos projetos de edifícios privados, públicos ou institucionais, como é o caso singular do projeto que Louis Kahn realizou para o Consulado dos Estados Unidos da América, em que a luz de Luanda que tão vivamente o impressionou foi o ingrediente que conduziu o desenho da complexa "pele" que envolveria a edificação, mas por ironia acabaria por não merecer aprovação das autoridades locais e, por isso, não foi construída. Monumentos e Estatuária Em Luanda, a mais impressiva obra será o Padrão‐Monumento aos Combatentes da Primeira Grande Guerra - a que se chamou também Esforço Militar de Portugal na Grande Guerra, situado frente ao antigo Mercado Quinaxixe. Era uma obra de desenho art déco, monumentalizado, inaugurada em 1937 (desfigurada depois da Independência, e adaptada a outro tema, onde o pedestal passou a suportar um tanque militar). Também em Luanda, refiram‐se: a estátua a Salvador Correia de Sá, no largo do Palácio do Governo (erigida antes de 1966); o monumento a Diogo Cão, no largo do mesmo nome, frente à Alfândega, por António Duarte, inaugurado em 1952, e com participação de Filipe de Figueiredo, Vitor Palla e Bento de Almeida; e a estátua a D. Afonso Henriques. Desta última há que referir a publicação de uma maqueta, referente ao projeto por Faria da Costa e Raul Tojal. Ignora‐se a situação atual destes monumentos, possivelmente apeados ou alterados. Ainda deve referir‐se o projeto para o Monumento à Portugalidade, vencedor de concurso promovido pela Câmara Municipal de Luanda em 1973‐1974: obra de grandes dimensões, constando de um pilar central e elementos complementares, num espaço público tratado em faixa ao longo da marginal, a poente do Banco de Angola, da autoria do arquiteto Eduardo Iglésias. Destinava‐se a comemorar os quatrocentos anos da cidade (1576‐1976). Com a eclosão do 25 de abril, a obra não avançou.

Isabel Martins

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