Huambo [Nova Lisboa]

Lat: -12.775300015318000, Long: 15.734306001013000

Huambo [Nova Lisboa]

Huambo, Angola

Enquadramento Histórico e Urbanismo

A cidade do Huambo resultou da convergência dos planos de povoamento europeu do planalto (que a república portuguesa herdou da monarquia, ampliando‐os) com o traçado da linha do Caminho‐de‐Ferro de Benguela que Robert Williams, o concessionário interessado no cobre do Catanga (para ligar o Porto do Lobito ao Congo, permitindo o escoamento do minério daquela região da antiga colónia belga), foi autorizado a desviar do trajeto inicial, a sul. Mas o Huambo poderia ter sido apenas mais uma vila ferroviária no centro de Angola, não fossem as opções urbanísticas do engenheiro militar Carlos Roma Machado e a visão do governador‐geral Norton de Matos, que criou por decreto a cidade onde nem um povoado existia. A nova rota do caminho‐de‐ferro atravessava terras do Huambo (Ambo, Wambu), outrora famoso por razias a caravanas e entrepostos coloniais. A sua conquista era uma prioridade para o governador de Benguela, Teixeira Moutinho, que em 1902 chefiou uma das três colunas organizadas contra a "revolta" do Bailundo. A campanha no Huambo estendeu‐se de agosto a outubro, com fortes combates em setembro nos redutos rochosos de Nganda e Caué (Kawe) e Candumbo (Kandumbu). A 26 de outubro foi inaugurado na Quissala (Cisala) o pequeno forte de taipa rodeado de um fosso, a alguns quilómetros da capital Samisasa, abandonada após a morte, em agosto, do soma Livongue. O posto militar ficou dependente da capitania‐mor do Bailundo até 1909, quando o governador‐geral Paiva Couceiro juntou Huambo, Sambo e Cuíma no comando militar do Huambo, subordinado a Benguela. Este passou a circunscrição em 1911 e teve uma efémera comissão municipal, mas não foi ali que nasceu a cidade. Em 1903 começara a construção da via‐férrea. A ocupação militar e a aproximação do comboio nutriram projetos de intensiva colonização europeia das terras altas de Angola, e Paiva Couceiro nomeou em 1907 uma comissão técnica coordenada por Pereira do Nascimento cujo relatório, publicado em 1910, Norton de Matos utilizou. Ainda antes da instauração da República, o governador‐geral Alves Roçadas nomeou outra comissão, com representantes do Caminho‐de‐Ferro de Benguela e do comércio de Benguela, para definir locais de futuras povoações. A inclusão do engenheiro Roma Machado foi decisiva na escolha do sítio e na elaboração da planta da futura cidade, ultrapassadas as perturbações da mudança de regime. Em 1912, Norton de Matos, decidido a contrapor à influência do Caminho‐de‐Ferro de Benguela na região uma presença forte da administração portuguesa, aprovou o projeto e criou, por portaria provincial de 8 de agosto de 1912, a cidade do Huambo no local da antiga missão católica, a cerca de um quilómetros da estação. A 21 de setembro de 1912 a cidade teve um formal auto de fundação, assinado pelo governador‐geral e numerosas testemunhas numa casa pré‐fabricada de madeira, sendo o administrador Artur de Castro Soromenho. Norton de Matos comenta, nas suas memórias: "A imprensa de Angola achou original esta forma simples e fácil de criar cidades no sertão africano, e comentou, criticou e troçou."
O planalto aberto e relativamente nivelado (a 1.700 metros de altitude) onde a urbe se devia expandir era rodeado de rios que garantiam água e poderiam fornecer eletricidade (cursos de água como os de Cahululo, Cavonge, Candjangombe, Sacahala - além das quedas do Rio Kunyongambwa); a cerca de vinte quilómetros, o Rio Cuando veio permitir a albufeira com que o CFB deu energia à cidade.
A sul da linha‐férrea, cruzado por estradas carreteiras abertas inicialmente para os carros de bois dos bóeres, o lugar era chamado ombila yo ngombe, sepultura dos bois, por ali morrerem muitos deles. Em 1910 fixara‐se aí uma missão católica, que em 1911 se mudou para as margens do Rio Cuando, a vinte quilómetros, deixando para trás algumas paredes, uma aldeia cristã e terras cultivadas na baixa do Rio Konjevi, a futura Granja do Estado. A norte da linha, durante as obras do caminho‐de‐ferro, formara‐se em volta das instalações da construtora Pauling & Co. um importante parque do material ferroviário e o usual aglomerado de trabalhadores e comerciantes, origem do "Bairro da Pólingue".
A concepção da cidade do Huambo traduzia a visão imperial e a modernidade do novo século. Confessadamente inspirada em cidades das Américas e de colónias britânicas, refletia o conceito da garden city (cidade com cintura verde e áreas planificadas para residência, serviços, indústria e agricultura) acrescido dos "bairros indígenas", numa época em que todas as potências coloniais promoviam a segregação racial nos lugares de residência e sociabilidade.
Sob o impulso vital de Norton de Matos, imaginava‐se assim o Huambo como grande centro administrativo, comercial e industrial, e até como estância de repouso para os belgas do Congo. Previam‐se hotéis, campos de jogos, mercados, escolas, parques, bairro operário, quartel, prisão, etc. O ambicioso centro cívico em torno do largo do palácio e da rotunda, maiores que os atuais, teria edifícios administrativos, tribunais, bancos, teatro, biblioteca e casino.
Dali irradiavam amplas avenidas, duas das quais seguiam paralelas até à zona da estação, extremo leste da cidade. Afastados para o Vale do Kusava a norte, fora da urbe, ficariam lavadouros públicos, o tratamento de resíduos e o matadouro. O anticlericalismo republicano explica o insólito facto de não haver igreja, apenas uma capela "de todos os cultos" no cemitério. Adobe, pau‐a‐pique, zinco ou cobertura de capim foram oficialmente excluídos do espaço urbano. O projeto original, por Roma Machado, apesar de alterado, ainda é reconhecível na zona principal da Alta.
Mas a cidade real, de feição essencialmente mercantil e burocrática, levou muitos anos a formar‐se, e não só cresceu para norte da linha como teve, desde o início, dois pólos: o político‐administrativo na parte alta, e o económico na zona da única estação, pois o Caminho‐de‐Ferro de Benguela manteve a de passageiros junto à de mercadorias. A consagração maior desse desvio para a Baixa seria, nos anos 1940, a construção das imponentes sedes da Associação Comercial e do Banco de Angola, viradas para o jardim fronteiro à estação.
Em 1921 foi elevada a sede de município, e em 1928 o alto‐comissário Vicente Ferreira aprovou novo anteprojeto para a cidade, mudou‐lhe o nome para Nova Lisboa (que perdurou até 1975) e a Carta Orgânica de Angola fez dela a capital teórica da colónia (até à revisão do Ato Colonial, em 1950), sem efeito prático. Em 1933, a Comissão Urbana passou a Câmara Municipal. A rede elétrica foi inaugurada em 1936, mas a água canalizada só na década de 1940. Até aí a cidade abastecia‐se em cacimbas, dois fontanários e água vendida pelo Caminho‐de‐Ferro de Benguela. Em 4 de setembro de 1940 foi o Huambo também elevado a sede de diocese. De facto, a cidade cresceu enormemente a partir dos anos 1930‐1940. Henrique Galvão refere‐se ainda aos que "projectaram então sobre papel um burgo extenso, a maior cidade de Angola [...] cidade teórica, com meia dúzia de casas muito dispersas e dentro da qual o automóvel consumia minutos longos para ir de uma à outra mais próxima, através de bairros de capim e ruas de coisa nenhuma". Mas Ondina Braga, décadas depois, considerava "Nova Lisboa, clara, lisa, e não calmosa [...] Vastas avenidas foi o que lá encontrei, artérias bem traçadas com vivendas bonitas, sóbrias, de um só piso, e jardins floridos."
Uma nova planta resultou em 1946‐1947 da intervenção do Gabinete de Urbanização do Ultramar, cujos técnicos se escandalizaram com a grandeza das ruas, praças e largos numa cidade com menos de 3.500 brancos e mestiços "civilizados". Suprimiram‐se áreas para hotéis e parques, alargaram‐se as zonas residenciais para europeus e previram‐se novos bairros indígenas. A segregação racial foi um objetivo expresso embora nunca totalmente conseguido, nomeadamente nos bairros periféricos, menos exigentes nos padrões de construção, como Benfica e Cacilhas. Em 1948, o foral foi finalmente concedido à cidade que, apesar do nítido aumento demográfico (16.288 habitantes em 1940, 28.296 em 1950), evoluiu lentamente na parte central, sendo notória a dispersão urbana. Na década seguinte desenvolveu‐se a Baixa (hotéis, livrarias, cinema, lojas) e na Alta renovaram‐se edifícios públicos e expandiu‐se a zona residencial. Com 40.000 habitantes em 1960, Huambo era a terceira cidade de Angola. Nos anos seguintes, a cidade cresceu aceleradamente em extensão e em altura, com muitos prédios acima de seis andares. A avenida delimitada pelo Hospital Central e a Igreja de Nossa Senhora de Fátima assinalava o início do Bairro de Fátima, ainda incompleto em 1975 (e na atualidade): vivendas espaçosas de rés‐do‐chão, com jardim e quintal murados, vivendas de dois pisos em fachada contínua, uma zona de moradias de luxo (dois ou três pisos, piscina) e uma rua de "casas económicas". Além das oficinas do CFB e da indústria ligeira, desenvolveu‐se a indústria pesada, desafiando o tradicional domínio do setor terciário na economia do Huambo. Passando a segunda cidade de Angola em população (62.000 habitantes em 1970), Huambo era também, na altura da independência, o segundo pólo industrial e um dos principais centros académicos, o que tornou mais dramática a decadência posterior, quando ficou no epicentro da prolongada guerra civil. Atualmente, a reconstrução e novos empreendimentos estão a mudar de novo a face da cidade.
No desenho da cidade, devem ressaltar‐se os seus três sucessivos planos de urbanização e os respectivos efeitos. De facto, o desenho urbano do Huambo constitui um caso original, com traçado amplo e de grande escala, invulgar no contexto colonial, influenciado pelos conceitos urbanísticos europeus - os quais, desde a proposta de Ebenezer Howard para as cidades‐jardim, de 1898, tinham integrado o tema da malha poligonal e irradiante (de matriz centrada, hexa ou octogonal), substituindo o anterior modelo oitocentista em retícula. O plano inicial de Huambo/Nova Lisboa insere‐se, de facto, entre os modelos mais eruditos, aplicados nas décadas de 1910‐1920 na concepção da city beautiful (procurando um desenho mais formal, de efeito visual e compositivo, "artístico" e monumentalizante, para a cidade), e com aplicação no contexto colonial, com duas grandes realizações britânicas: Nova Deli, na Índia, com plano por Lutyens, de 1911, e Camberra, na Austrália, por Griffin, em 1913. Polinucleadas, estas urbes consideravam várias praças poligonais, interligadas, esboçando uma primeira separação funcional para cada uma delas (centro governamental, municipal, residencial, etc.). Na cidade de Nova Lisboa, o modelo resume‐se a uma única praça‐rotunda, que constitui o elemento gerador de onde irradiam oito avenidas retilíneas, segundo o plano de Carlos Roma Machado.
A cidade de Huambo/Nova Lisboa constitui uma das mais interessantes e acabadas experiências do urbanismo formal português. Apesar de ter sido fundada apenas na segunda década do século XX, tornou‐se rapidamente um dos mais importantes pólos urbanos da província de Angola, a par do Lobito, e o grande centro urbano do espaço interior de Angola. Mostrou possuir potencialidades que lhe conferiam um destacado papel estratégico, que se veio a traduzir num crescimento imparável desde a sua fundação, apoiado urbanisticamente em planos gerais que moldaram a sua organização e a sua forma. A rapidez da formação de Huambo/Nova Lisboa, a importância que se lhe atribuiu e o papel que de facto veio a assumir, traduziram‐se na constituição de um conjunto urbano que reflete de forma evidente os diversos projetos e planos que foram orientando o seu desenvolvimento. Na organização da cidade podem destacar‐se três momentos marcantes, ligados ao processo de concepção de uma cidade nova no século XX e que resultam do próprio sistema de planeamento. Um ano após a criação da cidade, o plano do coronel de engenharia Carlos Roma Machado delineava uma cidade a ser povoada por europeus. Esta primeira proposta urbanística destinava‐se a um núcleo (ainda que de extensão limitada, na área da estação do caminho‐de‐ferro) pensado com (talvez excessiva) ambição e sentido visionário. A sua concepção urbanística materializava‐se num esquema radial, centrado numa colina a partir da qual se desenvolviam os eixos viários que estruturavam os lotes para construção. Apesar de uma concepção mais arrojada do que as propostas realizadas para os outros núcleos da linha de Benguela, o simplismo do desenho era evidente no perfil das ruas e na concepção e dimensionamento dos lotes. Procurava potenciar as características morfológicas do sítio e articular o sistema radial do modelo, centrado num ponto elevado, com o constrangimento do traçado da via‐férrea. A realidade, no entanto, sem rejeitar o conceito proposto por Roma Machado em 1912 (1910 ‐ início do estudo, 1912 ‐ apresentação, 1913 ‐ publicação), foi adaptando sucessivamente aquela solução, impondo‐lhe alterações, mas mantendo‐a durante cerca de trinta anos.
De referir ainda a existência de um outro plano, de fase intermédia (de 1928, aquando da elevação do Huambo, com a designação oficial de Nova Lisboa, a capital de Angola): correspondeu a um anteprojeto baseado na planta dos agrimensores Pereira da Silva e Dias Antunes, sem grande alteração ao plano inicial - e foi então aprovado pelo comissário Vicente Ferreira.
Nova Lisboa, no início dos anos 1940, era formada por duas zonas distintas. Um núcleo mais desenvolvido próximo da estação, a Baixa, constituído por um conjunto de vias ortogonais que formavam quarteirões tendencialmente retangulares e que, pela sua reduzida dimensão, eram maioritariamente ocupados por frentes construídas apenas num dos lados das ruas. Um segundo núcleo, a Alta, fruto do plano de 1912, encontrava‐se apenas esboçado, embora estivesse em construção o edifício principal para a intendência, ponto focal de toda a composição. A cidade traduzia‐se, assim, numa "desajeitada" articulação entre a zona da Baixa, mais densa, resultante de uma ocupação pragmática, com a zona da Alta, mais rarefeita, resultante da proposta de Roma Machado. O crescimento registado e o papel que se ambicionava para a rebatizada cidade de Nova Lisboa justificaram que se tivesse encarregue o arquiteto João de Aguiar de elaborar um Plano Geral de Urbanização, realizado no âmbito do Gabinete de Urbanização Colonial do Ministério das Colónias. Este plano foi concluído em 1946‐1947, sendo aprovado a 3 de dezembro de 1947 (Ministério..., n.o 99, 1947), e constituiu, por mais de duas décadas, o instrumento de gestão urbanística da cidade. O seu autor determinava, como principal objetivo, a orientação do desenvolvimento da cidade, que previa atingir os 20.000 habitantes "civilizados", ou seja, um enorme aumento em relação à época. Para isso, propunha‐se integrar os dois núcleos existentes e criar uma nova estrutura de vias hierarquizadas, com perfis elaborados e espaços de referência, que suportassem a localização de novos equipamentos, bairros residenciais para europeus e indígenas em adiantado processo de aculturação, zonas comerciais, desportivas e o particular reforço das zonas oficiais. A partir deste conjunto de objetivos, Aguiar produziu uma solução desenhada com carácter muito formalista, que integrava os valores do sítio e do anterior plano, conferindo‐lhe uma qualidade urbanística que se destacava mesmo dentre os planos realizados por este autor. Reforçava o desenho do centro da Alta e vocacionava‐o para centro administrativo, onde dispunha os principais edifícios públicos, e de onde irradiavam os eixos que suportariam os equipamentos secundários e vocacionariam as diferentes zonas da nova cidade, numa judiciosa disposição topográfica. O processo baseava‐se na constituição de uma rede de arruamentos arborizados e espaços públicos marcantes, assim como na classificação do solo, realizada a partir da vocação das parcelas agrupadas em grandes conjuntos que consistiam num zonamento que, grosso modo, distinguia a localização dos edifícios oficiais e equipamentos das extensas zonas residenciais. Todavia, num período de pouco mais de vinte anos após a elaboração do plano de Aguiar, Nova Lisboa sofreu uma profunda evolução, tendo‐se efetivamente constituído numa importante cidade: consolidou‐se grande parte do seu tecido urbano, nomeadamente o centro administrativo e todos os bairros residenciais, com exceção do Bairro da Estação, que já antes existia. A explosiva evolução da população foi, sem dúvida, um dos dados mais significativos para se compreender a realidade das grandes cidades africanas na segunda metade do século XX. Nova Lisboa no início da década de 1970 pouco tinha a ver com a situação que presidira ao plano anterior, contando com um total de 65.000 habitantes. Depois de uma tentativa de revisão encomendada pelo governo‐geral de Angola à empresa Profabril, mas rejeitada pelo urbanista do Lobito, o arquiteto Castro Rodrigues, a câmara municipal da cidade, perante uma situação que ultrapassava todas as previsões, decidiu em 1969 adotar um novo plano ordenador da cidade e da sua zona envolvente, numa lógica metropolitana. O Plano Director de Urbanização de Nova Lisboa, coordenado por Mário de Azevedo, e então aprovado, procurou constituir‐se mais como um fator de estímulo ao desenvolvimento do que como um instrumento regulamentar ou restritivo. Não deixava, no entanto, de traçar as grandes infraestruturas e vocacionar as diferentes zonas. A proposta que informalmente foi orientando a gestão da cidade contrariava assim as ideias de um urbanismo moderno radical, permitindo a sua implementação de forma progressiva, procurando integrar as populações indígenas e as suas formas de habitar, e ajustando‐se à evolução espontânea do seu desenvolvimento. A concentração temporal do desenvolvimento e consolidação da cidade de Huambo, praticamente construída em cinquenta anos, marcou profundamente o seu tecido urbano e consequentemente a sua imagem. Sem possuir objetos arquitetónicos de particular relevo, a cidade é constituída por um conjunto edificado muito coerente, onde se destacam praças e avenidas, frentes construídas e edifícios representativos da arquitetura colonial portuguesa deste período.

Carlos Dias Coelho

Arquitetura religiosa

Arquitetura militar

Equipamentos e infraestruturas

Habitação

Loading…