Santo António

Lat: 1.640368999989800, Long: 7.420675000005700

Santo António

Ilha do Príncipe, São Tomé e Príncipe

Enquadramento Histórico e Urbanismo

A Ilha de Santo Antão, designada depois por Ilha do Príncipe, em homenagem ao futuro rei D. João III, terá sido descoberta em 17.01.1471, dia de Santo Antão. Permaneceu por décadas desabitada, tendo sido finalmente cedida, como donataria, a António Carneiro, em 1500, em cuja família permaneceu durante duzentos e cinquente anos.
A ilha teve um longo e conflituoso processo de colonização ao longo dos séculos seguintes, com crises populacionais, sociais e económicas, problemas ligados à prática da escravatura, pilhagens, etc. Secundarizada e governada pela vizinha ilha maior de São Tomé, albergou no entanto a sede política do arquipélago durante cerca de um século (1753‐1852), embora sem resultados significativos no seu desenvolvimento, pois continuou a ser uma região muito pobre. Conhecem‐se gravuras de algumas construções do século XIX, como a da habitação D. Maria Ferreira, com dois pisos alteados e longa varanda coberta lateral, e a da Residência do Comendador Carneiro, também com dois pisos numa série de oito vãos, abrindo para uma varanda coberta. Há igualmente notícia da Igreja de Maria Correia, com fachada simples de vãos de arco redondo, rematada por frontão triangular, em ruínas.
Algum crescimento posterior deveu‐se à implantação de inúmeras roças, instalações agro‐industriais, sobretudo no norte e centro da ilha, na segunda metade do século XIX e inícios do XX, como suporte para a exploração intensiva do cacau. As visitas presidenciais de Novecentos, por Carmona (1938), Craveiro Lopes (1954) e Américo Thomaz (1964, 1970), foram significativamente dirigidas às mais importantes dessas instalações. Na Roça Belo Monte, Thomaz inaugurou mesmo um miradouro sobre as praias, em 1964.
As obras públicas na ilha foram sempre modestas, podendo, na fase colonial mais recente, referir‐se a inauguração do Padrão Henriquino na cidade, em 1960, a construção da pista de aviação em 1949 (asfaltada em 1968), e, em 1970, a da sua aerogare, um pavilhão térreo de desenho moderno com torre de controlo anexa.
A pequena cidade de Santo António é a única da Ilha do Príncipe, situada na sua costa norte, abrindo sobre uma graciosa e paisagística baía. Em 1502 fundou‐se a povoação de Santo António. Durante os séculos XVI e XVII, e apesar de todas as vicissitudes, os seus habitantes dedicaram‐se com êxito ao cultivo de cana do açúcar. Em 1690‐1694, foi escolhida pela coroa como depósito de escravos. Em 1695, construiu‐se o Forte da Ponta da Mina (no extremo noroeste da abrigada Baía de Santo António), bem como a primeira alfândega da ilha - tudo por iniciativa da então recente Companhia de Cacheu e Cabo Verde, para apoio ao tráfico negreiro. Em 1706 os corsários franceses atacaram‐na, destruindo a fortaleza e a povoação. Em 1721, a extrema decadência das ilhas levou à abertura dos seus portos ao comércio internacional, na esperança de as dinamizar. Em 1747, um incêndio das matas destruiu parte da povoação. Pouco se sabe, portanto, da feição inicial do povoado; mas seguia, decerto, o modelo habitual de implantação numa baía abrigada - virada a norte, por razão do quadro climático equatorial. Em 1753, um decreto real pombalino elevou Santo António a cidade e sede do governo‐geral das ilhas, substituindo assim São Tomé. A capitania foi abolida, revertendo a ilha para a coroa, e os condes da Ilha do Príncipe foram agraciados com o título de condes de Lumiares. Em 1799 foi ocupada episodicamente pelos franceses, que obrigaram à celebração de um tratado de paz com a jovem República Francesa. O século XIX assistiu à implantação e desenvolvimento do café e do cacau, tornando‐se este, sobretudo, em virtude da sua superior qualidade, um importante produto de exportação.
A pequena cidade de Santo António foi, assim, a capital das duas ilhas desde meados de Setecentos até 1852, quando esse estatuto volveu para São Tomé. De malha simples, centrada num terreiro com alguns arruamentos convergentes, frente à baía, dela se conhecem plantas de 1814, de 1880, de 1888, de 1894 e de 1918 - para além de uma gravura de 1845, tirada do mar, com as castiças casas de construção tradicional portuguesa e a impressiva montanha equatorial em fundo. A povoação apresenta ainda hoje um traçado muito regular (talvez com origem na restruturação da época pombalina), com uma retícula que inclui uma pequena praça central (com a Câmara e a torre da antiga Igreja Matriz), a Rua do Rosário, ligada à praça no sentido sul‐norte (com a Igreja do Rosário no extremo sul), e uma outra praça ajardinada a norte, junto ao mar. Duas ruas, de Santo António e dos Prazeres, também retas e perpendiculares à do Rosário, deveriam ligar a área do antigo Hospício de Santo António, do Mercado, da antiga Alfândega e do Palácio do Governador (a poente, do lado do acesso ao cais) com o referido jardim e com o sector a nascente da povoação, onde se situava a Praça de Nossa Senhora dos Prazeres (onde se situa hoje a Igreja Evangelista). Desta estrutura se infere o modelo reticulado, ainda existente, que se pode associar às intervenções urbanas setecentistas - sem estar porém comprovada a sua origem ou base pombalina. Todo o conjunto urbano, de feição modestíssima, mas rara beleza pelo enquadramento do Pico do Papagaio e, em geral, da opulenta vegetação equatorial, encontra‐se atualmente muito decadente e arruinado.
São de assinalar o antigo Palácio Maria Correia, em dois pisos com nove vãos, (encontra‐se em ruínas, segundo Nascimento, 2010) e a construção, em 1960, do Bairro Dr. Bruto da Costa (insigne médico que estudou a doença do sono, muito disseminada na ilha).

José Manuel Fernandes

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