Bissau

Lat: 11.860771999781000, Long: -15.579363999648000

Bissau

Guiné-Bissau | Golfo da Guiné | São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Bissau é a capital da Guiné‐Bissau desde 1941, depois de Bolama e Cacheu terem cumprido esta função. Situada na Ilha de Bissau, a povoação iniciou‐se ainda no século XVI, sendo elevada a vila em 1859, e à categoria de cidade em 1914. Importante para o desenvolvimento económico e urbano de Bissau foi a construção, em meados do século XVIII, do Forte de São José de Bissau, ou Forte de Amura, como é hoje conhecido.
Os portugueses Nuno Tristão e Álvaro Fernandes chegaram à Ilha de Bissau no ano de 1446, tendo Diogo Gomes, em 1456, navegado para o interior ao longo do Rio Geba. Estabeleceram‐se a partir daí trocas comerciais com os habitantes locais, se bem que, no território da Guiné, a principal atividade comercial se centrasse então em Cacheu, situada mais a norte, na margem do Rio Cacheu. Só na segunda metade do século XVII é que a atividade comercial e a presença portuguesa se vieram a intensificar em Bissau, perante a ameaça francesa, que desde sempre se havia manifestado, mas se tornava então mais ativa, através da Companhia do Senegal, chegando a tentar construir uma fortaleza em Bissau. Em 1696, no reinado de D. Pedro II, a Companhia de Cacheu e Cabo Verde iniciou a construção em Bissau de uma feitoria fortificada, tendo sido nomeado capitão‐mor da capitania José Pinheiro da Câmara. Esta fortaleza viria a ser abandonada e arrasada em 1708, por ordem de D. João V. Em 1753, D. José I restabeleceu a capitania de Bissau, confiando‐a a Nicolau de Pina Araújo, na dependên‐ cia do capitão‐mor de Cacheu, iniciando‐se a construção da atual fortaleza em 1766. Em 1796 existia a oeste do forte o Hospício de Nossa Senhora da Conceição, da ordem dos frades capuchos, e junto a este os poços de água de Peguetim, que abasteciam a povoação. A data da implantação do Hospício neste local é contemporânea da edificação da atual fortaleza. No entanto, a presença de missionários em Bissau remonta a 1690, quando Frei José do Bequo obteve licença do rei indígena para edificar o hospício com uma igreja. O núcleo urbano que se desenvolveu adjacente ao forte era defendido por duas paliçadas. Do Baluarte da Balança, a nordeste, saía uma paliçada até ao rio, terminando no pequeno Fortim de Nosolini. Do Baluarte de Puana, a sudoeste, saía outra paliçada, que também terminava no rio. No conjunto, o forte e as duas paliçadas definiam um perímetro triangular, dentro do qual a Fonte do Pidjiguiti, a Alfândega e o pequeno núcleo urbano adjacente ao porto se encontravam protegidos. No interior do forte situavam‐se, para além do alojamento da guarnição, a igreja, a Casa do Governo e o paiol. Fora da estrutura fortificada ficava o cemitério. A retícula da futura cidade pode já adivinhar‐se nas representações cartográficas da fortaleza, setecentistas, onde os primeiros arruamentos e quarteirões edificados parecem irradiar para o campo envolvente (planta de Bissau por Bernardino Andrade, 1776, Lisboa, AHU). De facto, este núcleo urbano original de Bissau, ainda existente, tem uma estrutura de ruas paralelas e perpendiculares, definindo quarteirões retangulares cuja maior dimensão é paralela à linha de costa. As ruas que estruturam esta malha urbana são estreitas. As principais são aquelas que se dispõem paralelamente ao mar, cortadas por pequenas trans‐ versais. A principal transversal é aquela que da praia conduz à porta da fortaleza.
O desenvolvimento de Bissau conduziu à sua elevação a vila em 1859 e à desanexação da sua dependência em relação a Cacheu, tornando‐se ambos distritos autónomos. Correspondia ao desenvolvimento da atividade comercial que levou à construção de uma ponte‐cais, iniciada em 1889. Em 1913 foi arrasada a paliçada que envolvia a povoação, abrindo‐se perspectivas ao desenvolvimento urbano. Com efeito, Bissau foi elevada a cidade no ano seguinte. Correspondendo a tais expectativas, foi em 1919 executado um plano para a Nova Cidade de Bissau, da autoria do engenheiro José Guedes Quinhones, que previa a sua ampliação para além do núcleo inicial. Em 1948, foi aprovado pelo governador Sarmento Rodrigues o Plano Geral de Urbanização da Cidade de Bissau, que abarcava toda a zona dentro dos limites urbanos. Neste plano, Bissau foi estruturada em zonas funcionais. A zona industrial localizava‐se junto à área portuária e adjacente ao forte. A Alfândega e a Capitania situavam‐se também junto ao porto, em frente da fortaleza. A zona central era estruturada segundo uma malha ortogonal, ou um conjunto de malhas ortogonais, com quarteirões retangulares de dimensão variável. Era nesta malha que se localizavam os principais equipamentos da cidade. A Sé Catedral, a Câmara Municipal, a Associação Comercial, os Correios, o Registo Civil, a Fazenda, o Tribunal, a Polícia e o Banco Nacional Ultramarino estavam localizados ao longo da principal avenida, que começava no Porto e terminava no Palácio do Governo. Numa situação mais periférica, mas ainda dentro da zona central, localizavam‐se o Estádio, o Hospital, com o Cemitério próximo, a Escola Secundária, o Mercado e o Matadouro. Em torno da zona central situavam‐se o bairro comercial, o bairro de casas económicas e vários bairros residenciais, cada um deles estruturado segundo uma malha ortogonal, cuja dimensão variava de bairro para bairro. Nestes bairros localizavam‐se outros equipamentos, como a Cadeia e o Asilo, mas também o Paço Episcopal e a Residência do Governador. Na periferia do plano, separados por uma ampla avenida arborizada, situavam‐se a Granja Agrícola Experimental, a Granja Pecuária Experimental, o Parque Florestal e o Bairro Indígena de Santa Luzia, junto ao pântano de Antula. No conjunto, Bissau retomava - embora a uma escala consideravelmente maior - a forma triangular original. Fora destes limites, situavam‐se os subúrbios, onde depois se vieram a desenvolver os muitos bairros informais de Bissau.
Cada um dos bairros que compõem Bissau tem características arquitetónicas distintas, encontrando‐se neles muitos bons exemplos da arquitetura residencial portuguesa de meados do século XX. No entanto, a cidade está hoje bastante degradada. As ruas estão cheias de buracos, os passeios partidos. Com raras exceções, as casas há muito que não são mantidas. Apesar disso, tendo em conta que quase nada é mantido há décadas, a cidade tem resistido razoavelmente à degradação. Os símbolos portugueses perderam a relevância, mas não desapareceram. O monumento ao "Esforço da Raça", no cimo da grande Avenida Amílcar Cabral continua no seu lugar, com as inscrições portuguesas apagadas, mas com uma estrela no topo. Por detrás, o Palácio da Presidência, antigo Palácio do Governador, está arruinado, depois de ter sido incendiado e saqueado; restam os candeeiros originais. Noutra praça, permanece de pé o pedestal do monumento a Honório Barreto; a estátua foi desterrada para Cacheu, mas manteve‐se o nome; por cima dele, colocou‐se um medalhão com a efígie de Che Guevara. O Hotel 24 de Setembro, antiga messe dos oficiais em Bissau, já viu melhores dias, mas os quartos e mobílias são os dos antigos oficiais; permanece o ar português dos anos 1960. Uma das grandes marcas da cultura portuguesa em Bissau, no que se refere ao património construído, é a própria cidade. Uma cidade surpreendentemente grande, alinhada, bem estruturada e hierarquizada, sendo a parte central constituída por uma malha ortogonal de grandes avenidas e ruas largas e alinhadas. A esta zona juntam‐se bairros residenciais, cada um deles constituído por malhas ortogonais que se vão articulando. A maior parte da cidade foi construída nos anos 1940 a 1960. Todos os elementos estão presentes, nos sítios certos. A Avenida Amílcar Cabral está implantada numa linha de vale e está direcionada, de um lado, ao antigo Palácio do Governador, implantado num ponto topograficamente dominante, e do outro, ao porto. É ainda hoje a avenida das instituições importantes, da Pensão da D. Berta e da igreja que corresponde à Sé Catedral. De um lado e outro do vale, onde se implanta a avenida, as ruas vão subindo. Do lado poente, numa avenida secundária, paralela à principal e localizada a uma cota um pouco mais elevada, estão o Mercado de Rua, o Estádio, a Casa do Benfica, e, adjacente, o antigo Liceu Honório Barreto, criado em 1958. Do lado nascente da avenida principal, na linha de cumeada, implanta‐se outra avenida, paralela às primeiras. Começa na fortaleza, e sai da cidade pela estrada que conduz também ao Hotel 24 de Setembro. Aí se localiza o Hospital, e se situava o Grande Hotel, destruído há pouco tempo. Em torno da praça cuja referência principal é o Palácio do Governo situam‐se outras instituições importantes. De um lado, a sede do PAIGC, antigo edifício da Associação Comercial; do outro, o antigo Museu Etnográfico. Desta praça sai outra grande avenida estruturante de Bissau, orientada a poente, que conduz ao Palácio Colinas de Boé - Assembleia Nacional Popular, implantado noutra elevação proeminente. Edificado com financiamento chinês, é um dos poucos edifícios novos construídos nas últimas décadas, a par de alguns hotéis. Para além da Assembleia Nacional Popular está o grande Mercado de Bandim, que se estende ao longo da estrada que conduz ao Aeroporto de Bissalanca. Em 15.02.2008 foi lançada a primeira pedra do Monumento ao Soldado Desconhecido e da Casa da Amizade, em homenagem aos combatentes guineenses e portugueses que lutaram na guerra colonial de 1961 a 1974. O conjunto equipamental da cidade, que é em grande parte dos anos de 1940‐1950, demonstra o elevado investimento do Estado Novo na urbanização, modernização e dotação de estruturas edificadas na cidade, na sequência da sua elevação a capital da colónia em 1941.

Manuel Teixeira

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