Mindelo [Porto Grande]

Lat: 16.885383333333000, Long: -24.987886111111000

Mindelo [Porto Grande]

Ilha de São Vicente, Cabo Verde

Enquadramento Histórico e Urbanismo

O povoamento da Ilha de São Vicente foi muito tardio, devido à extrema aridez da ilha. Com o desenvolvimento da navegação a vapor, a baía do Porto Grande foi considerada adequada à edificação de uma estrutura portuária moderna. Em 1724 construiu‐se o Forte Velho sobre a enseada. Em 1734 e 1788 houve tentativas de ocupação. Depois da aldeia de Nossa Senhora da Luz (1794‐1795), da povoação de D. Rodrigo (1795‐1798, por iniciativa do capitão‐mor João Carlos da Fonseca Rosado, com duzentos habitantes), que deve corresponder à pequena praça com a igreja, no centro, e da vila D. Leopoldina (1819‐1820, pelo governador António Pussich, com trezentos e cinquenta a quatrocentos habitantes em 1840), a vila foi definitivamente instituída em 1838 com a designação do Mindelo (em homenagem ao desembarque dos "libertadores" do Liberalismo na homónima praia do Minho).
A urbe desenvolveu‐se lentamente na baía do Porto Grande, na costa poente de São Vicente, no local dos iniciais povoados atrás referidos. Apresenta expressão embrionária na planta esquemática de 1798 (pelo governador Marcelino António Bastos, AHU), e na de Vidal e Mudge, de 1820, pois tinha, nomeadamente nesta última, apenas a igreja e casa do governador, a primeira alfândega e uma fortificação - além do raro casario. O grandioso plano de Sá da Bandeira para o Mindelo, de 1838, indicou uma clara vontade de modernização, com a sua retícula rigorosa e ideal, mas a sua aplicação concreta não se efetuou. Plano utópico, quer pela grandiosidade excessiva quer pelo difícil momento histórico em que surge, deu lugar à realidade de uma pequena cidade portuária, com retícula mais adaptada e irregular envolvendo a baía, como se desenha na planta de Sena Barcelos de 1858. Nesta planta constata‐se o aparecimento dos cais‐pontes de abastecimento de carvão, com os respectivos depósitos (com os nomes dos seus promotores ingleses) para apoio à navegação a vapor, então em plena expansão. Estes depósitos asseguraram o notório desenvolvimento da nova vila (instituída por decreto de 29.04.1858). Iniciou‐se nesse mesmo ano a construção da alfândega definitiva (1858‐1861). Os cais estavam situados a norte da baía, ao sul da qual se estruturava já uma retícula elementar. Na planta do Almirantado, de 1874, está a pequena malha urbana já desenvolvida. Cidade em 14.04.1879 (alvará de 30.09.1879), o Mindelo surge nas décadas imediatas representado em planta (de 1888, pela Secretaria de Obras Públicas de Cabo Verde, numa retícula com indicação do largo da igreja, da câmara e da alfândega, tendo então 5.377 habitantes, existente na Sociedade de Geografia de Lisboa), e em diversas gravuras, como significativo porto carvoeiro do meio Atlântico: em 1891, na revista Ocidente, em vista por certo tirada do Fortim D’el‐Rei, sobre a baía; e, do interior para o mar, em 1887, com o casario humilde em primeiro plano, e o Monte Cara ao fundo.
Os espaços públicos mais importantes do núcleo oitocentista eram o pequeno Largo da Câmara, depois da República (atual Praça Pidjiguiti), de localização central, que deve ter sido o sítio genético da povoação; a Rua Tenente Valadim (depois da Praia) com a Praça D. Luís, no eixo portuário, ao longo da baía; e a Rua D. Carlos I, depois de Lisboa (hoje dos Libertadores da África), perpendicular à costa, e eixo comercial e administrativo. O Largo do Madeiral assinalava a saída do núcleo a nascente, e o terreiro da atual Praça Estrela a saída a sul. A Praça Nova, depois Serpa Pinto (atual Amílcar Cabral), situa‐se a norte.
A imagem arquitetónica do Mindelo é basicamente tardo‐oitocentista. Desta época há que destacar numerosas construções, nomeadamente nas duas praças marcantes: a fundacional Praça da República (atual Pidjiguiti), e a Praça Nova (atual Amílcar Cabral). Também nos arruamentos envolventes do centro histórico, e pelas datas do edificado, pode constatar‐se o principal surto construtivo das últimas décadas do século XIX, bem como um novo surto dos finais dos anos 1920, já com o Estado Novo. Depois de meados de Novecentos, o Mindelo pouco crescimento apresentou, dada a perda de importância da cidade como ponto de passagem obrigatório da navegação a vapor para abastecimento carvoeiro, perda que o advento dos combustíveis líquidos veio a confirmar.
Anteriormente verificaram‐se as significativas modernizações e a infraestruturação urbana da década de 1930, por iniciativa da primeira Repartição Técnica da Câmara Municipal do Mindelo (organizada em 1927), com ações como as obras da Biblioteca Municipal, na Rua de São João (1931), o novo piso do Mercado Municipal, na Rua de Lisboa (1933), o Matadouro da Rua da Praia (1938‐1939) e a construção do Estádio Municipal na Fontinha (1930). Na mesma fase, assiste‐se a algum crescimento na área a norte da cidade, com processo de urbanização à volta da chamada Praça Nova, iniciativa protagonizada igualmente pela Repartição Técnica. Procede‐se então à abertura da Rua Guedes Vaz (atual Rua de Angola) e pavimentação da Avenida Fontoura da Costa (atual Rua de Che Guevara), ambas em 1930 - com remodelação da própria Praça Nova, que recebe novo quiosque em 1932. Depois da fase de decadência dos anos 1950, houve alguma renovação de infraestruturas (o novo cais acostável e o Aeroporto de São Pedro, nos anos de 1960; a Escola Técnica e o novo Liceu Gil Eanes, de 1956 e de 1968, respectivamente; o novo edifício do Comando Naval na Avenida Marginal, de 1967; a estação de dessalinização da água do mar, de 1969‐1971), e algum investimento no planeamento (plano da cidade pelo arquiteto João Aguiar, de 1957‐1960; plano diretor pelo arquiteto Amorim, de 1960; planos parciais pelos arquitetos Caria e Branco Ló, nos anos 1960‐1970). O relativo surto de progresso económico dos anos de 1920 e 1930 exprimiu‐se em algumas obras urbanas, ligadas, por exemplo, ao comércio: o lettering da Loja Luso‐Africana, no seu desenho art déco, é disso exemplo. Na área portuária e industrial, na Praia da Matiota, evidencia‐se o edifício dos armazéns da Sociedade Frigorífica Exportadora de Cabo Verde, uma obra de característico torreão de quatro águas, no gosto "português suave" (depois coberto com chapa ondulada em vez de telhas), possivelmente da década de 1960 - quando se tentou localmente um relançamento das atividades fabris, depois da fase decadente dos anos de 1950. O Centro de Estudos de Cabo Verde, anterior a 1966, é um exemplo de edifício de desenho moderno no arquipélago.
Os Planos Diretores para a cidade do Mindelo (feitos a par dos da Praia) foram elaborados em duas fases distintas, no início e no fim da década de 1960. Na primeira fase (por José Luís Amorim, em 1960), foi profundamente influenciado pelo Movimento Moderno, na forma urbana que propunha e no procedimento que integrava o desenho transversalmente às escalas de desenvolvimento. O Plano Diretor da cidade, desenvolvido a partir de 1969, foi elaborado simultaneamente com os Planos Parciais de Urbanização e passou a assumir um faseamento hierarquizado das propostas, cujo conteúdo consistia em orientações estratégicas e estruturais para o posterior desenvolvimento de estudos parciais mais detalhados. Porém, as dificuldades de aplicação do plano de Amorim determinaram que se recorresse a extensos trabalhos de análise e a missões de trabalho mais frequentes, procurando uma melhor adequação das propostas ao contexto muito particular do Mindelo. As imagens aqui apresentadas foram obtidas em 1993.

José Manuel Fernandes

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