Tiradentes

Lat: -21.110011111111000, Long: -44.177780555556000

Tiradentes

Minas Gerais, Brasil

Enquadramento Histórico e Urbanismo

O arraial que deu origem à atual cidade de Tiradentes surgiu por volta de 1702‐1704, quando bandeirantes originários da Vila de Taubaté (São Paulo) descobriram ouro junto a um ribeiro, por eles batizado Santo António - nome que também serviu de invocação à modesta capela construída junto às lavras. A descoberta de outros depósitos nas redondezas ensejou a criação de um novo arraial, chamado Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes (atual São João del‐Rei), e o arraial de Santo António ficou sendo designado, durante algum tempo, por "Arraial Velho". Em janeiro de 1718, D. Pedro de Almeida, governador da capitania de São Paulo e Minas, levando em consideração "que no distrito da freguesia de Santo António" e no "Arraial Velho do Rio das Mortes havia capacidade para se levantar uma nova vila", e que a medida convinha "ao serviço de Sua Magestade e ao bom governo e conservação dos povos do dito distrito", decidiu passar as ordens necessárias para que tal criação tivesse efeito. A necessidade de melhor organizar a administração da justiça foi um dos motivos que levou o conde de Assumar a instituir uma nova Câmara na região, a poucas léguas da cabeça da comarca: muitos colonos que viviam na freguesia de Santo António encontravam‐se a grandes distâncias da vila de São João del‐Rei, e para ali chegar era preciso atravessar o Rio das Mortes, o que por vezes lhes causava grande "embaraço"; estes moradores teriam, portanto, mais facilidades para "recorrer às justiças" da nova vila, que ficou sendo chamada São José del‐Rei. Em dezembro de 1718, D. João V decidiu acatar o parecer do Conselho Ultramarino, confirmando a fundação, mas deixou bem claro que a iniciativa de Assumar não havia sido apreciada: a prerrogativa de criar vilas pertencia à coroa, e havia sido concedida aos dois primeiros governadores apenas porque era o tempo "em que as minas começavam". Durante o século XVIII, a vila desenvolveu‐se bastante do ponto de vista económico e sócio‐cultural. É o que se percebe através de diversas fontes de natureza fiscal, mas também pelo número elevado de irmandades (doze) e de igrejas e capelas (sete) ali construídas, sobretudo na segunda metade do século. Do ponto de vista da morfologia urbana, nota‐se que Tiradentes possui um traçado "concentrado e diminuto como um trecho escolhido da história. Não se estende como as demais povoações mineiras: enrodilha‐se", no dizer poético de Sylvio de Vasconcellos. O espaço urbano é marcado por uma sucessão de largos (do Chafariz, das Mercês, das Forras, do Sol), onde se localizam diversos monumentos civis e religiosos. No que diz respeito à história territorial, é importante lembrar que, a partir de meados do século, intensificou‐se o processo de dispersão da população em direção às áreas periféricas de Minas Gerais, que teve início por volta de 1730. Os novos arraiais e zonas agrícolas foram rapidamente incorporados aos concelhos existentes, pois as câmaras tinham interesse em aumentar seu poder político e económico. Tais anexações nem sempre foram pacíficas: diversos conflitos territoriais mobilizaram as vilas mineiras, nomeadamente entre 1750 e 1780. A câmara de São José mostrou-se particularmente ativa, envolvendo‐se em várias disputas com Mariana, Vila Rica, São João del‐Rei e Pitangui, e chegando a tomar posse de um grande número de arraiais - graças, em grande parte, ao apoio das forças milicianas comandadas pelo poderoso mestre‐de‐campo Inácio Correia Pamplona. Este e vários outros moradores do termo de vila de São José del‐Rei estiveram implicados - direta ou indiretamente - no movimento conhecido como Inconfidência Mineira. Entre 1789 e 1791, São José perdeu grande parte do seu termo, devido à cria‐ ção de três novas vilas na capitania de Minas (São Bento do Tamanduá, Queluz e Barbacena). Mesmo assim, a povoação parece ter‐se mantido próspera: nas primei‐ ras décadas do século XIX, o peso demográfico do concelho era comparável ao de São João del‐Rei (a cabeça da comarca), e a vila reunia um grande número de oficiais mecânicos (artesãos) e comerciantes. A partir de 1832, devido às emancipações sucessivas de importantes arraiais do seu termo (Oliveira, Passatempo, etc.), São José del‐Rei entra em declínio, chegando mesmo a perder os foros de vila em 1848, quando seu território foi anexado pela vila de São João del‐Rei. Tratava‐se, sem dúvida, de uma luta política: no ano seguinte o concelho foi restaurado, e em 1860 a povoação foi elevada à categoria de cidade. Em 1880‐1881, foi inaugurada a Estação Ferroviária, que, ao contrário da maior parte de suas congéneres mineiras, nunca deixou de funcionar - ainda hoje acolhe os turistas que fazem o trajeto Tiradentes‐São João del‐Rei em locomotivas a vapor que datam do início do século XX. Em dezembro de 1889, logo depois da proclamação da República, um decreto determinou que a cidade e o município de São José del‐Rei passariam a ter "a denominação de cidade e município de Tiradentes" em homenagem ao mártir da Inconfidência Mineira, que nascera nas cercanias da cidade e se transformara em herói nacional. Da mesma maneira que vários outros "pares" de povoações coloniais mineiras, criadas a pouca distância umas das outras (Ouro Preto e Mariana, Sabará e Caeté, Serro e Diamantina), na primeira metade do século XX, Tiradentes acabou perdendo para São João del‐Rei a corrida do desenvolvimento comercial e industrial, estagnando ao ponto de se tornar um cenário de ruínas. A partir de 1938, a classificação do seu acervo arquitetónico e urbanístico e a restauração dos principais monumen‐ tos marcaram o início de uma nova fase de sua história. A exploração e o artesanato da prata também deram um novo alento à economia local, mas o surgimento de imitações baratas prejudicou a atividade, e grande parte do casario continuou no abandono. Foi no final da década de 1960 que Tiradentes começou realmente a renascer de suas cinzas, após ter sido "descoberta" pelas elites cariocas - graças, em grande parte, ao mecenato exercido por Maria do Carmo Nabuco, pertencente à família de Rodrigo Mello Franco de Andrade (o fundador do IPHAN). Os casarões coloniais foram sendo progressivamente adquiridos e reformados, não somente para se tornarem casas de fim‐de‐semana, mas também pousadas, restaurantes e lojas. Paradoxalmente, o abandono e a decadência experimentados até então acabaram se mostrando benéficos a Tiradentes, pois, ao contrário de sua vizinha São João del‐Rei, ela foi preservada das transformações ligadas ao "progresso", e atrai hoje em dia um número bem maior de turistas. Lamentavelmente, a cidade começa a se tornar vítima do seu próprio sucesso: por um lado, a expansão urbana, com a multiplicação dos novos loteamentos que desfiguram a paisagem; por outro, a elitização do centro histórico, com equipamentos turísticos e eventos culturais cada vez mais caros.

Cláudia Damasceno Fonseca

Arquitetura religiosa

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