Diamantina

Lat: -18.238072991556000, Long: -43.611012993784000

Diamantina

Minas Gerais, Brasil

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Em 1713, uma bandeira liderada pelo baiano Jerónimo Gouveia descobriu ouro no vale do Córrego do Tejuco (ou Tijuco, palavra de origem tupi que significa "barro escuro", ou "pântano"), na bacia do Rio Jequitinhonha. Uma capelinha dedicada a Santo António foi erguida nas encostas da Serra da Lapa, e em torno dela surgiu o povoado. Este, a princípio, concentrou‐se na margem direita do córrego, que era a mais rica em ouro, formando o bairro ainda hoje chamado de "Burgalhau" ("monte de cascalho"). Em seguida, outros pequenos acampamentos de mineradores foram surgindo nas proximidades, dando origem ao traçado urbano compacto que vemos hoje. Cabe notar, no entanto, que, embora houvesse muito ouro nas cercanias do arraial, foi graças principalmente à exploração dos diamantes que o Tejuco se desenvolveu. Consta que as primeiras pedras brilhantes foram encontradas logo no início do povoamento; mais tarde, em 1721, o português Bernardo da Fonseca Lobo também descobriu uma grande jazida junto às suas lavras de ouro. Porém, os mineiros e as autoridades locais - inclusive o governador - guardaram o segredo durante muitos anos, fingindo não acreditar que se tratava de diamantes verdadeiros. Em 1729, percebendo que a verdade estava prestes à vir à tona, Bernardo Fonseca Lobo embarcou para Portugal levando belas amostras do tesouro, e acabou recebendo o título de descobridor, além de várias mercês da coroa. Esta tratou, então, de organizar a explo‐ ração das jazidas, através de contratos feitos com particulares, e a cobrança dos respectivos impostos, o que se fez, inicialmente, através do sistema da capitação (valor cobrado por cada negro empregado nas lavras de diamantes). Era grande a atração exercida pelas pedras: nos primeiros anos da exploração, o arraial cresceu num ritmo acelerado, devido à chegada de centenas de mineradores, escravos e comerciantes - o que chegou a provocar o temor de que vilas como Sabará se desertificassem, ou que houvesse uma crise de abastecimento na área central da capitania. Em 1737, foi delimitada uma área imensa, chamada "Demarcação Diamantina", com sede no Tejuco, e na qual o intendente dos Diamantes deveria fazer respeitar uma legislação rigorosa. A partir de 1771, foi estabelecida a Real Extração, que funcionava dentro de um sistema de contratos estabelecidos entre a coroa e homens de posses. Foi então editado o "Regimento Diamantino", mais conhecido como o "livro da capa verde" - que compilava e ampliava a legislação anterior, a fim de melhor combater o contrabando das pedras, nomeadamente através de um controle estrito do comércio. Mas essas leis nem sempre foram respeitadas: fases de grande repressão alternaram‐se com períodos de controle menos intenso. O arraial do Tejuco desenvolveu‐se principalmente durante a época dos contratadores Felisberto Brant (1748‐1751) e João Fernandes de Oliveira (1759‐1771), que foram menos rígidos na aplicação desta legislação. Este último constitui uma das figuras mais conhecidas da história de Diamantina, só perdendo em popularidade para sua concubina, Chica da Silva. Lendas à parte, o que importa saber sobre a trajetória desta célebre mulata é o facto de que, apesar da sua cor, e da sua condição de ex‐escrava, ela conseguiu ocupar um lugar de destaque na sociedade do Tejuco, participando de diversas irmandades (inclusive de algumas que eram reservadas aos brancos) e sendo senhora de imóveis e de numerosa escravaria. Tal situação, que escandalizou os altos funcionários portugueses que passaram pelo Tejuco, não era, todavia, um caso isolado. Neste arraial, como na maior parte das povoações mineiras, os brancos eram minoria, sendo a maior parte da população constituída pelos escravos e pelos forros (negros e mulatos alforriados). Entre estes últimos, predominavam as mulheres, a maioria vivendo sem trabalhar, graças à proteção de um amante branco, ou aos ganhos obtidos com seus escravos adquiridos após a manumissão. Entre 1750 e 1775, havia no povoado 884 moradores livres, distribuídos em cerca de 500 casas (muitas delas assobradadas) erguidas em 19 ruas e sete becos. No início do século XIX, já eram 800 fogos, e 6.000 almas: o arraial do Tejuco não só era maior que a cabeça da comarca (Vila do Príncipe, atual Serro), mas rivalizava com Vila Rica, a capital de Minas Gerais. O viajante SaintHilaire, que o visitou em 1816, ficou bem impressionado: as ruas eram largas e limpas, as casas, bem caiadas; as muitas igrejas eram pequenas, porém ornadas com gosto; nas lojas bem guarnecidas não faltavam artigos luxuosos. Além disso, os "membros das primeiras classes da sociedade" eram instruídos e possuíam uma "polidez sem afetação". Apesar dessas qualidades, e dos vários pedidos encaminhados a Lisboa, o arraial não alcançou o título de vila antes da independência do Brasil; a coroa nem mesmo quis promover o Tejuco a sede de paróquia, "a fim de evitar que o clero adquirisse demasiada importância dentro do Distrito Diamantino", como notou o arguto cientista francês. Somente em 1819 foi instituída a freguesia de Santo António, e o sonho da autonomia municipal só se veio a realizar em 1831, quando seu nome foi mudado para Vila Diamantina; em 1838, foi elevada à categoria de cidade. Apesar do desenvolvimento verificado durante o século XIX, Diamantina conservou a maior parte de seu legado arquitetónico colonial. Houve, no entanto, uma perda lamentável: a antiga Matriz de Santo António foi substituída por um edifício eclético com elementos neo‐coloniais na década de 1930 - pouco antes da classificação do conjunto arquitetónico, urbanístico e paisagístico (Serra dos Cristais), realizada pelo IPHAN em 1938. Em 1997, a cidade foi declarada Património da Humanidade pela UNESCO.

Cláudia Damasceno Fonseca

Arquitetura religiosa

Equipamentos e infraestruturas

Habitação

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