Corumbá

Lat: -19.009822917013000, Long: -57.654745067187000

Corumbá

Mato Grosso do Sul, Brasil

Enquadramento Histórico e Urbanismo

O Rio Paraguai estava consignado no Tratado de Madrid como o limite entre as coroas portuguesa e espanhola. No entanto, a sul do marco deixado na confluência do Rio Jauru, em 1754, nada mais existia que confirmasse a posse portuguesa da região. Depois da anulação do Tratado de Madrid, em 1761, a ocupação concreta da região passou a ser encarada como prioridade quer pelos governadores do Mato Grosso, quer pelos de São Paulo. Temendo eventuais invasões espanholas, em 1775, Luís de Albuquerque toma a iniciativa de mandar fortificar o dito fecho de morros, que redundaria na fundação do Forte de Coimbra. Facto especialmente importante é que esta fundação se fez na margem ocidental do Rio Paraguai, em terreno que, segundo o Tratado de Madrid, pertencia à coroa espanhola. A intenção, deliberada, desta fundação na margem oposta era, aproveitando o período de não vigência do tratado, reivindicar para a coroa de Portugal a navegação privativa do rio e não apenas a margem oriental, tendo o rio como fronteira. A fortificação isolada não poderia garantir este intento. Determinou‐se a instalação de uma vila, também na margem ocidental do rio. A cerimónia solene do auto de posse da vila de Albuquerque foi realizada a 21 de setembro de 1778, pelo sargento‐mor Marcelino Rodrigues Camponês, que coordenou os trabalhos de instalação. A vila nascente definia‐se por uma única rua, de 30 palmos de largura, na qual se deixavam demarcados 14 lotes, sete de cada lado da rua, que abrigariam casas de dois cómodos e um corredor cada uma. Depois de aberta a rua, quando os moradores foram convidados a cortar as madeiras para começarem a construção das suas asas, ocorreu uma deserção generalizada dos povoadores, que temiam os ataques indígenas. Em 1783, Luís de Albuquerque decidiu enviar o sargento‐mor José António Pinto de Figueiredo para assumir o comando da vila. Levava consigo novos povoadores e instruções para reedificar aquela "importante povoação". O conjunto das instruções passadas ao novo comandante da povoação era praticamente decalcado das recomendações do diretório (Vilas Pombalinas na Amazónia). Como especial advertência lembrava‐se que era "sem questão de dúvida" que o estabelecimento deveria ser bem regulado, com ruas direitas e largas e uma espaçosa praça no meio. Uma planta realizada em 1784 apresenta a vila, formada por uma grande praça retangular com cerca de 160 x 270 palmos, cercada por casas contíguas com cerca de 20 x 20 palmos cada. No eixo central dos lados menores do retângulo encontram‐se, numa face, a igreja, e na outra, a entrada para o "pátio", tal como é identificada a praça. No interior da praça/pátio colocou‐se um plinto com a Santa Cruz. A forma urbis apresenta‐se com a constituição similar à de uma estacada, ou seja, um retângulo fechado, com poucas aberturas, as quais não se definem como ruas, mas como "entradas" ou "vigias" da praça. Em 1786, a povoação de Albuquerque foi visitada pela expedição de reconhecimento do Rio Paraguai, realizada pelos engenheiros Ricardo Franco de Almeida Serra, Francisco José de Lacerda e Almeida e António Pires da Silva Pontes, que dá conta do progresso da vila. Uma planta realizada em 1789 deixa ver, para além do grande pátio regular, duas outras fileiras de edificações, dispostas por trás dos lados maiores do retângulo inicial. Tratavam‐se das cozinhas das habitações dos moradores, às quais se juntavam alguns terrenos de cultivo. Mas, apesar dos progressos, o aspecto geral da povoação de Albuquerque era, no entanto, bastante frágil. Em 1800, um incêndio destruiu praticamente toda a povoação, resistindo apenas a igreja por ser o único edifício coberto de telha. Paulatinamente, os moradores começaram a abandonar o povoado. Em 1819, fundou‐se, nas suas imediações, nas proximidades da foz do Rio Miranda, uma missão que se designou Missão da Misericórdia de Albuquerque, para onde chegaram a se mudar alguns dos moradores de Albuquerque. O mesmo topónimo dado às duas instalações gerou uma série de confusões ao longo do século XIX, por se perder a referência exacta à povoção fundada por Luís de Albuquerque. Tal facto teve inclusive con‐ sequências no processo de criação dos municípios, tendo a Missão de Albuquerque sido elevada a freguesia antes da primitiva povoação. A partir de meados do século XIX, um novo topónimo foi sendo progressivamente adotado para aquela povoação, que passou a ser identificada por Corumbá. Em 1862, Corumbá foi oficialmente elevada a vila com esta designação. Três anos depois, a vila caiu em poder dos paraguaios, que a tomaram após ter sido abandonada pelos seus moradores, sem qualquer resistência, na sequência da perda do Forte de Coimbra. Finda a Guerra do Paraguai, em 1869, a vila foi devolvida ao Brasil e reconstruída. Foi rápido o seu crescimento, em boa parte devido ao intenso comércio que então se fazia no Rio Paraguai, escoando a produção da borracha e de outras mercadorias, e também pelo incremento da pecuária naquela região. Em 1878, Corumbá foi elevada a cidade. O desenho urbano era então uma malha reticulada, com quarteirões sensivelmente quadrados. No local onde se localizara o "pátio" que inicialmente definira a povoação estava uma praça, onde se construiu, em 1872, a matriz da vila, sob o orago de Nossa Senhora da Candelária.

Renata Malcher de Araujo

Arquitetura militar

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