Índia Meridional | Sri Lanka

Este texto foi originalmente escrito, pelo coordenador do respetivo volume, para a edição impressa como introdução à área geográfica em questão, sendo que foi deixado ao critério de cada um a possibilidade de o ir atualizando. Deverá ser interpretado em articulação com o texto de introdução geral do respetivo volume.

A área coberta nesta parte do volume compreende 23 locais dispersos pelas costas do Malabar (ou, mais moderno, Kerala), Coromandel (tramos sul das costas ocidental e oriental do Hindustão, respectivamente) e Sri Lanka. Apesar da diversidade dos processos históricos, à escala da Ásia constituem uma área confinada e coerente, porém com uma diversidade que deu origem a que, por exemplo, possamos observar os principais tipos de ocupação que os portugueses desenvolveram na Ásia. Tudo isso porque, obviamente, olhamos a partir do mar. Se nos posicionássemos no interior do subcontinente indiano, rapidamente nos aperceberíamos da força aglutinadora então exercida pelo império hindu de Vijayanagar (Bisnaga ou Narsinga para os portugueses), que então estendia a sua influência de todo o sul do Hindustão ao norte do Ceilão. Do pouco que acabo de referir pode‐se, desde logo, fazer uma ideia do quão complexos são a história e os contextos da presença, por cerca de século e meio, dos portugueses na área. Complexidade acrescida pela intensidade do investimento feito, designadamente no Ceilão. Não fora o facto de nunca se ter consolidado e dominado durante algum tempo um espaço territorial, e poderíamos considerar esta área a Província do Sul do Estado da Índia.

Cada uma dessas três regiões detém postos com peculiar simbolismo no processo da expansão: tal como o apóstolo São Tomé terá desembarcado pela primeira vez na Índia no Malabar – mais precisamente cerca do ano 50, em Cranganor – o Malabar foi a zona de chegada e primeira instalação portuguesa na Ásia; o Ceilão constituiu um dos maiores esforços para o controle soberano absoluto de um território‐ilha, o que poderia ter mudado consideravelmente a fortuna do Império Português na Ásia, pois houve quem defendesse mudar para ali a sede do Estado da Índia; o Coromandel, com o mítico legado do apóstolo São Tomé em Meliapor, onde em 72 sofreu o martírio e foi sepultado. Esse legado, aliás, estende‐se também ao Malabar, onde a presença do apostolado de São Tomé e do posterior cristianismo nestoriano não deixou de funcionar como atractivo nos primeiros momentos da presença portuguesa na região. Claro que para todos eles também há versos de medalha...

Por razões óbvias de ordem geográfica – a divisão entre o Malabar e o Coromandel é o Cabo Comorim (Kanyakumari) e o Ceilão uma espécie de extensão do Hindustão –, esta zona é a porta marítima para a metade oriental do Índico, a que conduz ao Extremo Oriente, às riquezas da China, Japão, Molucas, etc. (que se concentravam em Malaca antes de rumarem para a Índia), mas também ao Golfo de Bengala, ao Pegú, ao Sião. Contudo, na região produzem‐se especiarias como a pimenta e a canela, bens quase preciosos na Europa de então. Preciosas são também e ainda hoje as gemas do Ceilão e as pérolas do Mar do Ceilão, o canal que o separa do Hindustão. Descrições anteriores à chegada portuguesa por mar dão esta zona como um efetivo rincão, sendo também mítica a Taprobana – a ilha situada a meio do Índico, primeiro descrita por Megástenes (350‐290) e depois celebrizada por Ptolomeu (90‐168) – identificada pelos portugueses como sendo o Ceilão.

Não por acaso, no Malabar, cuja principal matriz confessional nunca foi islâmica, estavam estabelecidos muitos e abastados mercadores muçulmanos – a maioria da comunidade mapila –, que dali faziam rumar as suas mercadorias para as rotas terrestres que partiam essencialmente do Golfo Pérsico, mas também do Mar Vermelho. Em alguns reinos da costa malabar houve, aliás, períodos de dominação por alguns deles. Por razões óbvias, foram os principais inimigos da presença portuguesa. Em suma, é vasto o conjunto de argumentos que demonstram o grande valor estratégico desta área geográfica, rótula marítima da Ásia, o que só por si explica como os interesses portugueses inicialmente se concentraram ali. Só uma percepção mais detalhada e integrada da realidade dos fluxos de comércio asiáticos e de quanto a ação interna poderia ser rentável, e não apenas o trato para a Europa, conduziu a outras opções, nas quais, contudo, esta área continuou a deter centralidade.

Os holandeses – que, como se sabe, desenvolveram então uma presença com quase exclusivos intentos comerciais – insistiram e lograram controlar estas regiões, articulando essa ação com a de domínio das Molucas e assim se constituindo como o principal fator do declínio e desaparecimento da presença oficial portuguesa ao longo do segundo terço do século XVII. Como fiz notar no texto inicial, a coroa deu especial ênfase ao controlo das áreas nas quais tinha domínios territoriais estáveis e expressivos: Goa e a Província do Norte. Ficaram o Padroado e alguns portugueses como residentes integrados, não como colonos. É significativo e surpreendente, em especial no Ceilão, o registo que a presença portuguesa ainda tem nos apelidos de inúmeras famílias, muitas das quais sem terem consciência disso. Só uma pequena parte serão descendentes de portugueses, uma vez que estes nomes lhes eram dados no momento da conversão ao catolicismo, ou seja, no batismo. Mas ser católico era então ser português, e na realidade são portuguesas as designações de um número infinito de placas que identificam negócios e empresas nas mais populosas cidades cingalesas.

Capitaneados por Vasco da Gama, os navegadores portugueses pisaram pela primeira vez solo asiático no Malabar a 20 de maio de 1498, numa praia a norte de Calecute, na qual hoje encontramos com dificuldade um insignificante marco evocativo. O processo histórico que se seguiu está bem estabelecido e divulgado, tendo o essencial também sido sumariado no texto inicial. Contudo, importa‐nos aqui recordar como logo em 1503 se estabeleceu em Cochim a primeira base portuguesa durável na Ásia, uma feitoria que três décadas depois, já desenvolvida em cidade, cederia esse estatuto central a Goa. Mas não perdeu centralidade. As rotas comerciais, inclusive a Carreira da Índia, continuaram a passar por Cochim, que os portugueses lograram fazer suplantar os demais portos da zona. Alguns desses portos foram também objeto de ações de domínio portuguesas. A costa do Malabar ficou piquetada por feitorias e fortes portugueses, alguns deles de ocupação muito precária, o que se ficou a dever não apenas à reação desencadeada pelos comerciantes muçulmanos mas também à desadequação e desatualização dos sistemas edificados, assunto a que voltarei um pouco mais adiante.

Quase imediatamente após a instalação em Cochim e noutros portos do Malabar, como Cananor, Cranganor e Coulão, os portugueses começaram a visitar o Ceilão, mas o estabelecimento em Colombo – o porto de escoamento da canela, próximo da capital Kotte que, aliás, acabaria por substituir e absorver – ocorreria apenas em 1518 e, nesta primeira fase, duraria apenas até 1524. Estabilizada a situação em toda a área, em 1551 deu‐se o restabelecimento, que levaria ao florescimento de Colombo como cidade‐porto portuguesa e, inclusive, ao reconhecimento pelo rei de Kotte da soberania portuguesa. Só que então a ilha estava dividida em mais dois reinos, os quais foram sempre ferozes opositores – e ferozmente apoiados do exterior – de uma hegemonia portuguesa. De facto, o intento do controlo da ilha foi muito lento e gradual, sendo apenas claro, assumido e parcialmente bem sucedido com a intensa e violenta campanha desenvolvida a partir da década de 1590. Mas nunca se chegou a dominar sequer metade da ilha, que correspondia a um território com uma área de cerca de dois terços da de Portugal.

A instalação portuguesa na Costa do Coromandel foi iniciada por particulares, “lançados”, muitos até renegados. Com efeito, quando em 1521 foi criado o cargo de capitão e feitor da Costa do Coromandel, um dos propósitos para tal declarados era o de assegurar o controlo dos muitos desertores da guarnição de Malaca e outras pessoas fugidas à justiça portuguesa. Em Negapatão, pesem embora algumas tentativas da coroa a que se opuseram os casados, só em 1642 foi processada a sua integração no Estado da Índia. Tal ficou a dever‐se ao facto de a ameaça holandesa se ter concretizado. Apesar de se ter fortificado, a cidade rendeu‐se em 1658. No mesmo ano os holandeses ocuparam Tuticurim, núcleo urbano cuja atividade principal era a recolha e comércio de pérolas. Nunca teve qualquer vínculo à coroa portuguesa, mas os jesuítas desenvolveram ali uma ação relevante.

São Tomé de Meliapor, hoje integrada na metrópole de Chennai/Madrasta, foi o principal estabelecimento português no Coromandel e, do ponto de vista dos fluxos comerciais, já do Golfo de Bengala, o qual teve origem na redescoberta para o Ocidente do hipotético túmulo daquele apóstolo em 1521 e consequente renovação do correspondente parque edificado. A cidade desenvolvia‐se então a um ritmo considerável, substituindo gradualmente o anterior local de implantação portuguesa na zona: Paleacate (Pulicat), com instalação de casados desde 1518 e situada a cerca de quarenta quilómetros a norte. Tinha, sem qualquer dúvida, melhores condições portuárias, mas o íman religioso de Meliapor era inultrapassável. Da presença portuguesa em Paleacate não restam vestígios, para o que terá contribuído a precoce conquista holandesa em 1609. Por outro lado, Paleacate e Meliapor foram dos locais com relevante presença e influência portuguesa que nunca se viram plenamente integrados no sistema administrativo do Estado da Índia – o mesmo é dizer no sistema colonial português – ainda que a última tenha inevitavelmente passado a ser um pólo relevante na geografia do Padroado.

Situada fora das rotas para o Extremo Oriente, mas integrada na logística do Golfo de Bengala, de facto São Tomé de Meliapor teve um percurso diverso dos demais casos desta área. A criação, em 1607, da diocese e da câmara conferiu‐lhe finalmente a orgânica e estatuto mínimos para que pudesse considerar‐se integrada no Estado da Índia. Cinco anos depois, a comunidade fortificou‐se. Previa‐se assim o conjunto de ataques de soberanos locais iniciados em 1646, não sem que antes (1639) os ingleses se tivessem instalado escassos quilómetros a norte, em Madrasta. Em 1662 foi o rei de Golconda quem tomou a cidade e em 1672 foi a vez dos franceses atacarem com sucesso São Tomé de Meliapor, mas acabaram por se render aos holandeses dois anos depois, que de imediato a devolveram a Golconda. Em 1687, uma débil administração portuguesa foi restabelecida. Tudo terminaria em 1749, com a conquista pelos “aliados” ingleses. Entretanto os franceses haviam‐se instalado com sucesso uns cento e vinte quilómetros a sul, em Pondicherry.

O assédio holandês foi quase sempre articulado com soberanos locais. No fundo, os holandeses queriam apenas instalar feitorias fortificadas (o que nem sequer fizeram em Meliapor), ao invés dos portugueses que se nem sempre pretenderam dominar território, queriam catequizar os credos. Como se vê na entrada própria, o processo de ocupação e adaptação de Cochim pelos holandeses é uma boa ilustração dessa diferença. A ação sistemática holandesa sobre o Ceilão, iniciada em 1538 com a conquista de Baticaloa, levou à sua perda definitiva pelos portugueses em 1658, com a conquista de Jafna (como vimos, o mesmo ano em que caem Negapatão e Tuticurim, do outro lado do Mar do Ceilão). Já em 1633 Cochim havia capitulado, e Malaca (a centralidade portuguesa no Extremo Oriente) em 1644. A queda daquele último reduto no Ceilão foi também o fim, já então simbólico, do domínio português no sul do Hindustão e das carreiras comerciais do Extremo Oriente.

No essencial, esta obra destina‐se a listar e caracterizar a arquitetura e o urbanismo de origem portuguesa no mundo, invocados pelo que restou. Na área em questão os vestígios de arquitetura são ainda significativos, não tanto os do urbanismo. A ruína, a transformação profunda e a destruição permanente imperam. Mas o que talvez seja mais relevante é o que, já não de origem, mas de influência portuguesa por ali se continuou a produzir. São dois conceitos – origem e influência, já abordados no texto inicial – relativamente fáceis de distinguir, mas não fáceis de usar como rótulos perante os objetos reais, em especial quando não se identifica uma situação verdadeiramente colonial. Onde a ação do Padroado foi grande e prolongada, como é o caso, parece‐me óbvio que é mais correta a utilização de influência, ainda que isso nos coloque sobre ou para além das fronteiras estabelecidas para esta obra.

No Malabar/Kerala, mais do que a fortificação é de facto a arquitetura religiosa o que mais interesse tem para nós. Tem sido estudada de forma sistemática, o que nos permite ter, pela mão do seu principal especialista, Helder Carita, a leitura mais atualizada do conjunto que, aliás, se estendeu ao Ceilão e à Costa do Coromandel. É uma arquitetura com uma imagem e identidade fortes, resultante de um conjunto complexo de influências, até porque já antes da chegada dos portugueses havia arquitetura cristã na área. De qualquer das formas, estão ainda por identificar e estudar outros edifícios, designadamente no norte do Ceilão, pois o facto de aquela zona estar há várias décadas em guerra civil tem impedido o trabalho de campo dos especialistas, já árduo em circunstâncias normais. Sabemos, contudo, que nos núcleos urbanos portugueses se chegaram a erguer igrejas segundo os modelos do apogeu medievo‐renascentista português, dito manuelino. O pouco que ficou de tudo isso, conjugado com as descrições e gravuras – em especial as de Philippus Baldeus – permite‐nos ter uma ideia de como eram e do grande investimento que nelas foi feito. Curiosamente, é no interior das igrejas que mais claro é o registo português, designadamente nos púlpitos e retábulos, que, ao invés da arquitetura, imediatamente remetem para o que se vê em Goa e na Província do Norte.

Na fortificação e ao contrário do que aconteceu, por exemplo, na Província do Norte – onde a arquitetura militar portuguesa teve oportunidade de se desenvolver até mais tarde, tornando‐se possante e, assim, suscetível de reciclagem pelos ocupantes posteriores – as estruturas defensivas abaluartadas erguidas pelos portugueses nesta área eram singelas, por vezes construídas com materiais precários ou de má qualidade. Muitas, apesar de modernas, eram ainda do período experimental, várias até de feição arcaica, o que nos surge em alguma iconografia. De tudo isso pouco ou nada restou e o que ficou, com muito raras exceções, é fragmentado ou está integrado de forma dificilmente legível em estruturas posteriores, sendo até inútil fotografar. Claro que, como se refere na entrada sobre a Arquitetura Militar no Ceilão/Sri Lanka, há ainda muitas estruturas por localizar e estudar, designadamente no interior, em boa medida pela razão já apontada no parágrafo anterior.

A esse propósito e pela sua excepcionalidade impõe‐se‐me invocar os quatro relatórios (dois e duas cópias) elaborados em 1624 e 1638 por Constantino de Sá de Noronha e Constantino de Sá de Miranda sobre a fortificação do Ceilão, ultimamente estudados em Os Olhos do Rei, por Jorge Flores. Retratam também outros aspectos da ilha, embora tenham sido expressamente encomendados pelo rei para se avaliar a força portuguesa, bem na linha do relatório de António Bocarro e Pedro Barreto Resende (e similares) para o todo asiático. Note‐se, aliás, como este último e os demais da sua genealogia parecem evitar dar conta das posições portuguesas fortificadas no Ceilão, que foi objeto de encomendas específicas. Para além do interesse disciplinar, tal facto dá‐nos uma ideia do esforço e megalomania do investimento português para dominar o Ceilão, ainda que nesse mesmo período, na Província do Norte e em Goa, se investisse em construção efetiva de grandes estruturas defensivas como as que para ali se desejavam.

Esse empenho tem réplica na produção historiográfica e no desempenho editorial cingalês em torno da presença portuguesa naquelas paragens, o qual nas últimas décadas tem sido acompanhado pelos historiadores portugueses. Porém, a investigação especializada sobre a arquitetura e o urbanismo é ainda quase inexistente. Relevante, mas de menor dimensão, é a produção disponível sobre a presença no Malabar, a qual permanece muito focada sobre Cochim. Mais do que pela escassez de persistências, talvez a presença não‐formal portuguesa no Coromandel explique um bem menor investimento na produção de conhecimento sobre essa região, designadamente nas temáticas que aqui são específicas. Contudo e na globalidade geográfica e das temáticas, a listagem bibliográfica que se segue – conforme as normas definidas para toda a obra, alijada de títulos já referenciados no fim do meu texto de abertura do volume – não dá mais que uma pálida ideia do que sobre a área já se encontra disponível.

Walter Rossa

 
Arquitetura Militar (Ceilão/Sri Lanka)

A Ilha de Ceilão (atual Sri Lanka) foi frequentada pelos portugueses desde 1506, com particular incidência nos territórios do sudoeste e do noroeste. A presença oficial estendeu‐se em Colombo de 1518 a 1524 e, novamente, de 1551 a 1656. Uma segunda fortaleza existiu em Mannar desde 1560. Porém, só em meados da década de 1590 se iniciaram campanhas para a conquista de territórios mais vastos na faixa litoral ocidental da ilha, os quais foram depois perdidos para os holandeses, principalmente durante a década de 1640‐1650. A primeira fortaleza portuguesa a ser tomada pelos holandeses foi Batticaloa (1638), e a última Jaffna (1658).

Este volume inclui entradas separadas para as fortalezas de Batticaloa, Colombo, Galle, Kayts, Mannar, Negombo e Trincomalee. Existiram porém, em espaços contíguos, outros fortes e tranqueiras portugueses, erguidos na sua maioria entre 1597 e 1612 e, nalguns casos, na década de 20 do século XVII. Embora a maioria destas estruturas esteja perdida, alguns res‐ tos de algumas sobreviveram, sendo que durante o século XX vários autores se lhes referiram ainda. É um trabalho de pesquisa por fazer.

São de mencionar as seguintes localidades onde poderão ainda existir vestígios de estruturas fortificadas portuguesas, seguindo Abeyasinghe: Alawwa, Attapitiya, Batugedara, Chilaw, Damunugashima, Deewala, Diyasunnata, Etgaletota, Ganetenna, Gurubewila, Holombuwa (Menikkadawara), Kaduwela, Katugampola, Kuruwita/Delgamuwa, Malwana, 

Matara, Mottappuliya, Pentenigoda, Ruwanwella, Sitawaka e Uduwara (segundo Abeyasinghe). Estes fortes e tranqueiras foram construídos durante as guerras de 1597‐1612 para assegurar o controlo de extensos territórios no sudoeste de Ceilão e bloquear os acessos ao reino de Kandy, situado nas montanhas centrais.

Continuando a seguir informações do mesmo investigador, em 1608 saíram do reino ordens para o melhoramento ou criação de fortificações em Alutgama, Chilaw, Colombo, Galle, Kalutara, Matara, Panadura, Puttalam e Weligama. Estas ordens só tiveram efeito em Colombo, Galle, Kalutara e Panadura. Deu‐se depois, já na década de 1620, um surto de fortificações que englobou os litorais oeste e leste de Ceilão numa tentativa de isolar o reino de Kandy e obstar à entrada de concorrentes europeus. São assim de referir, para os anos 1620‐1630, as fortalezas hoje desaparecidas de Jaffna (totalmente transformada no período holandês), Kalutara (Calaturé), Menikkadawara (fortaleza quadrangular e tranqueira de Manicrauaré), Panadura (Panaturé) e Sabaragamuwa (fortaleza triangular de Sofragão).

Na maioria dos casos que não foram listados separadamente na presente obra, tratar‐se‐ia de estruturas erguidas em terra compactada e madeira, com um emprego limitado de pedra e cal, com exceção para as fortalezas de Jaffna, Kalutara, Malwana, Menikkadawara, Sabaragamuwa e Sitawaka. Normalmente as estruturas de terra tenderiam a desaparecer rapidamente em ambientes tropicais, como é o caso da zona húmida do sudoeste do Sri Lanka. No entanto, muito dependia das microcondições geológicas locais. Por exemplo, alguns restos dos fortes cingaleses que protegiam no século XVII o desfiladeiro de Balana, perto de Kandy, sobreviviam ainda em meados do século XX. No tocante à fortaleza de Menikkadawara, as fontes portuguesas referem que a qualidade do solo preservava a estrutura de alagamentos durante as monções. Impõe‐se assim um trabalho sistemático de prospecção arqueológica, apoiado em fontes escritas portuguesas e holandesas e bibliografia arqueológica local.

Zoltán Biedermann

 
Arquitetura Religiosa (Malabar/Kerala)

As igrejas do sul da Índia constituem uma produção particularmente importante no quadro da arquitetura religiosa produzida por influência portuguesa no Oriente, dada a sua grande originalidade na adaptação aos valores espaciais da arquitetura indiana e ao clima particularmente quente e húmido da região. Este facto liga‐se, sobretudo, com a influência da comunidade de cristãos de São Tomé, cujas tradições milenares entroncavam num fundo espiritual e cultura profundamente indianos. Tratando‐se de uma arquitetura cristã presente no território do sul da Índia havia muitos séculos, as suas igrejas funcionaram como ponte entre os modelos que se importavam da Europa e os valores tradicionais da arquitetura indiana, sendo um elemento fundamental no desenvolvimento da arquitetura indo‐portuguesa.

No seu conjunto, esta produção distribui‐se pelas aldeias da costa do Malabar até ao Cabo de Camorim e estende‐se pelo interior do atual estado do Kerala, testemunhando uma intensa atividade, não só evangélica, como construtiva, operada por influência portuguesa. Facto particularmente interessante é que, após a ocupação holandesa e consequente afastamento das autoridades portuguesas, estas igrejas vão permanecer até ao século XIX, com a mesma tipologia de linhas maneiristas que, formulada nesta região, nos séculos XVI e XVII, se vai repetindo, com pequenas alterações, como modelo de igreja católica.

Cabe salientar que esta produção arquitetónica se divide centrada em duas grandes comunidades de estrato social, representativo e económico muito diferente. Uma primeira, distribuindo‐se fundamentalmente pelas aldeias da costa do Malabar, corresponde à comunidade de pescadores macuas, incluídos num grupo social muito baixo da sociedade indiana. A sua aproximação ao catolicismo inicia‐se logo no período de D. João III, na sequência da conversão do seu chefe supremo, João da Cruz. A outra comunidade era constituida pelos cristãos de São Tomé, denominados pelos portugueses “cristãos da serra”, devido à sua distribuição no interior do território. Mercadores e grandes proprietários agrários, este grupo ocupava um alto nível social, equiparando‐se ao estatuto de brâmanes.

Na sua estrutura de implantação, as igrejas indo‐portuguesas do Kerala manifestam uma peculiar tendência, ao localizar‐se no centro de um terreiro cercado por muros e afastado dos núcleos centrais das aldeias, facto que representa um claro desvio às tradições de localização das igrejas portuguesas e europeias. As suas estruturas arquitetónicas tendem a assumir uma ação de sacralização do território, funcionando sobretudo como elemento estruturante de toda uma paisagem envolvente, em sintonia com o que acontece com os templos hindus. Dentro do terreiro recortam‐se ainda capelas e outros edifícios com funções de apoio à vida religiosa, caso da casa paroquial e da escola, mantendo‐se o terreiro com um carácter estritamente religioso e sagrado, vocacionado à realização de rituais processionais à volta da igreja.

Na valorização dessa ritualidade processional, o terreiro é ainda marcado pela presença de um grande cruzeiro, formado por uma alta cruz assente sobre uma base em alvenaria com molduras clássicas e pequenas colunas adossadas ao corpo central. Na sua forma e significado, estes cruzeiros entroncam numa tradição da arquitetura dos cristãos sírios do Malabar, onde já se observava a existência de grandes cruzeiros em granito com baixos‐relevos afetos a uma estética hindu anterior à chegada dos portugueses.

Quanto à morfologia e programa arquitetónico, estas igrejas caracterizam‐se numa primeira fase por um modelo de referência maneirista, com a fachada dividida em três tramos verticais e horizontalmente em vários andares, marcados por fortes molduras. Como variante tipológica, encontramos exemplos de fachada com uma torre lateral, acusando a permanência de um modelo antigo, tardo‐manuelino, que terá desaparecido com a divulgação das estéticas de tendência classizante e maneirista.

Neste modelo, o interior apresenta uma estrutura espacial de nave única, retangular e com arco de volta perfeita abrindo‐se para a capela‐mor. Junto à fachada principal forma‐se um coro de estrutura de madeira, suportado em alguns casos por duas colunas.

Acusando uma certa autonomia face à produção de arquitetura religiosa de outras zonas da Índia, as fachadas destas igrejas recebem uma forte acentuação plástica com a introdução de pilastras, colunas, frontões, frisos, pináculos, observando‐se sobretudo o uso sistemático de colunas coríntias geminadas, que não encontramos noutras zonas da Índia. Esta acentuação decorativa revela‐se sobretudo nas igrejas dos cristãos de São Tomé, onde as fachadas se cobrem de baixos‐relevos, numa lógica iconográfica onde a cosmologia cristã se alia a um fundo cultural indiano. Neste caso, encontram‐se as aletas laterais das fachadas, com exóticos dragões, numa clara referência ao mito de Vritra e ao poder regenerador das águas primordiais.

Quanto à comunidade dos cristãos de São Tomé, este modelo manifesta ainda uma significativa variante quanto à estrutura da capela‐mor. Enquanto a capela‐mor nas igrejas macuas recebe uma cobertura em madeira mais baixa que a nave, de acordo com as tradições portuguesas, as igrejas dos cristãos de São Tomé são marcadas por um alto corpo torreado salientando a capela‐mor, com fortes afinidades às estruturas do templo indiano e à dignificação do sancto sanctorum.

Nos finais do século XVI, este modelo começa a evoluir para uma tipologia profundamente original. De três tramos, a fachada alarga‐se para cinco, assumindo o frontispício da igreja um forte sentido triangular. Este alargamento articula‐se com a formação de galerias correndo ao longo das fachadas laterais e que topejam a fachada principal nos seus dois tramos laterais. O seu desenvolvimento em dois andares, com galeria ao nível térreo e varanda no primeiro andar, abre as fachadas laterais das igrejas ao terreiro envolvente, permitindo uma nova vivência ao conjunto e multiplicando percursos processionais à volta do edifício, à maneira dos valores do espaço sagrado indiano.

Num outro registo, estas galerias, ao criarem uma caixa‐de‐ar protetora do interior da igreja, revelam uma clara adaptação ao clima quente e húmido, conferindo a este modelo de igreja claras características tropicais.

A originalidade plástica desta solução, onde a fachada e planta se articulam com as galerias num todo coerente, a par da sua sofisticada adaptação aos valores da arquitetura e da espiritualidade indianas, confere a este modelo de igreja um significado particular na história da arquitetura indo‐portuguesa e no contexto das arquiteturas ditas coloniais.

Helder Carita

 
Ceilão/Sri Lanka

A Ilha do Ceilão é hoje marcada pela presença de um vasto número de igrejas, espa‐ lhadas sobretudo por toda a orla marítima, que atestam a intensa atividade evangélica levada a cabo pelos portugueses nesta ilha durante os séculos XVI e XVII. Se a grande maioria destas igrejas sofreu ao longo dos séculos seguintes profundas reformas, perdendo as suas caracte‐ rísticas originais, uma observação mais atenta vai detectando elementos e estruturas arqui‐ tetónicas que confirmam uma clara influência portuguesa, subjacente a um novo léxico formal e decorativo introduzido a partir do século XIX.

Com exceção da Ilha de Mannar, onde os jesuítas iniciam uma missão a partir de 1560, junto da comunidade de pescadores (parava), a evangelização da Ilha do Ceilão durante o século XV foi da exclusiva responsabilidade dos franciscanos.

Se ainda em 1552 o frade franciscano João Noé escrevia a D. João III a informar da construção de apenas cinco igrejas, este processo ganhou um outro fôlego pelos finais do século, num quadro geopolítico de grande predominância portuguesa. É assim que o comissário‐geral dos franciscanos no Ceilão, Frei Francisco Negrão, enviava em 1610 para Roma um relatório referindo a existência de trinta e uma igrejas afetas aos franciscanos.

Por iniciativa de Jerónimo de Azevedo, a partir dos inícios do século XVII a ilha foi aberta a outras ordens, não só aos jesuítas como aos dominicanos e agostinhos. Para esta abertura muito contribuiu a forte simpatia de Jerónimo de Azevedo pelos jesuítas, que o leva a adquirir, em 1604, terrenos na cidade de Colombo para a construção de um colégio para esta ordem. Ainda na sequência desta abertura, no ano seguinte chegam ao Ceilão os dominicanos e, logo no outro ano, os agostinhos. Aos primeiros foram atribuídos os territórios de Sabaragamuwa e Dois Korales, e aos agostinhos o território de Quatro Korales. Quanto aos franciscanos e jesuítas, os primeiros distribuíam‐se sobretudo na orla marítima, estendendo‐se a partir do sul de Colombo até Galle, instalando‐se as comunidades jesuítas a partir de Colombo para norte, até Jaffna.

Se o processo de formação desta verdadeira rede de igrejas foi estudado por Félix Lopes e mais recentemente por Vito Perniola, escritores antigos, como Paulo da Trindade e Fernão de Queiroz, fornecem‐nos nos seus textos preciosos elementos sobre a construção destas igrejas, ao longo da primeira metade do século XVII.

A 11 de maio de 1656, António de Sousa Coutinho assinava a carta de rendição da cidade de Colombo e, dois anos depois, as tropas holandesas invadiram Mannar e conquistaram a fortaleza de Jaffna, colocando um ponto final na presença política portuguesa na região.

A ocupação holandesa do Ceilão constituiu um pesado agente de destruição do património religioso construído pelos portugueses em toda a ilha. As igrejas são fechadas e os altares, retábulos e imagens retirados do seu interior, iniciando‐se uma campanha de tentativa de conversão da população ao protestantismo, que no entanto não obteve grande sucesso. As comunidades cristãs autóctones permanecem arreigadas ao catolicismo. Para isso será particularmente importante a ação das missões de padres oratorianos, vindas de Goa nos finais do século XVII, que, de forma mais ou menos clandestina, asseguram a assistência religiosa a estas comunidades e a permanência no Ceilão de tradições arquitetónicas e construtivas desenvolvidas pelos portugueses no Oriente.

Se o estudo histórico e documental da formação das igrejas do Ceilão nos permite verificar que a generalidade das atuais igrejas do século XIX corresponde a fundações portuguesas, o estudo da arquitetura destas igrejas faz realçar a permanência de influências indo‐portuguesas. No quadro destas influências ressalta um elemento que se prende com a sua organização espacial, caracterizada pela constituição de um terreiro murado onde a igreja se recorta ao centro. Em estreita relação com a igreja desenha‐se, no conjunto do terreiro, a casa paroquial e, de forma menos sistemática, um edifício de escola.

Com um carácter estritamente religioso e sagrado, esse terreiro, vocacionado para a realização de rituais processionais à volta da igreja, autonomiza‐se dos agregados urbanos. De particular significado, estas estruturas espaciais apresentam claras afinidades com as estruturas das igrejas do sul da Índia. Através da obra de Philippus Baldeus podemos comprovar com toda a segurança que estes espaços se encontravam definidos nas igrejas construídas no período de influência portuguesa. Além de um levantamento exaustivo das igrejas do reino de Jaffna, Baldeus fornece diversas notas e observações sobre as casas paroquiais e escolas que se constituíam como elementos fundamentais dos recintos destas igrejas.

Outro elemento arquitetónico de influência portuguesa revela‐se na sistemática tendência para a formação de galerias correndo ao longo das fachadas laterais das igrejas, que encontramos igualmente nas igrejas indo‐portuguesas do Mabalar. Numa articulação coerente entre planta e alçado, estas galerias refletem‐se no desenho e composição da fachada, sendo esta marcada por uma sequência de cinco portais onde os três centrais correspondem à nave da igreja e os laterais às referidas galerias. Esta tipologia de igreja, com fachada dividida em cinco tramos e galerias laterais, parece assim corresponder, em paralelo com as estruturas dos terreiros, à continuidade de uma tipologia ensaiada pelos portugueses tanto no sul da Índia no como no Ceilão.

Quanto ao seu programa arquitetónico, as igrejas do Ceilão apresentam no seu interior um coro alto situado junto à fachada principal, formando um piso em madeira suportado por duas colunas. Correspondendo a uma reforma litúrgica operada em Portugal a partir dos inícios do século XVI, o coro alto, nas suas implicações com a organização do espaço arquitetónico, dota as igrejas portuguesas de características específicas que as afastam tanto das igrejas italianas como das espanholas do mesmo período, características essas que vimos encontrar no Ceilão nos programas tardios de igrejas do século XIX. Cabe ainda salientar que, formando um piso interior, o coro alto vai ter tendência para a formação de um desenho de fachada muito peculiar. Ao ser iluminado por três janelas ou três óculos, o coro alto reflete‐se na composição da fachada pela formação de um piso salientado por largas molduras e arquitraves, que caracteriza a arquitetura da grande maioria das igrejas do Ceilão do século XIX.

Além destes elementos de carácter tipológico e programático, uma análise mais detalhada deste património revela ainda a permanência, embora pontual, de igrejas com estruturas arquitetónicas remontáveis ao período português. Neste caso encontra‐se um pequeno número de igrejas localizadas na zona de Jaffna e Mannar, cuja situação periférica face aos grandes centros urbanos, como Colombo, determinou uma maior preservação das suas estru‐ turas arquitetónicas. Neste conjunto ressalta a Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Batecota, com um amplo interior com cobertura de madeira, dividido em três naves separadas por grossas colunas toscanas suportando grandes arcos de volta perfeita. No topo da nave central rasga‐se o típico arco cruzeiro de ligação à capela‐mor.

Esta estrutura em três naves repete‐se nas ruínas da Igreja da Santíssima Trindade de Changame, situada nos arredores de Jaffna. Se a fachada ruiu na sua totalidade, o corpo da igreja mantém um programa arquitetónico de três naves, com a nave central marcada pelas bases de colunas reconhecíveis no chão da igreja. A capela‐mor é marcada por típico arco triunfal na tradição das igrejas portuguesas da época.

Dois outros casos, a Igreja de São Caetano de Marisankoodal, em Jaffna, e a Igreja do Santo Cristo de Olaithodurai, em Mannar, indiciam nos seus programas espaciais a divulgação desta tipologia de igreja com três naves no norte do Ceilão. Em ambas, a nave central separa‐se das laterais por uma série de colunas em madeira, formando ao nível do teto uma estrutura de traves de ligação de todo o conjunto.

Ainda na Igreja de São Caetano de Marisankoodal, as fachadas laterais abrem‐se sobre o exterior por largas galerias. A confirmar a antiguidade destas galerias, nas paredes interiores desta igreja encontramos uma estrutura de pedra, visível na face interna da fachada a que, mais tarde, no século XIX, é aposta uma nova decoração. Outro caso de estrutura arquitetónica antiga é a Igreja de São Tomé, na Ilha de Kayts, onde as fachadas apresentam no seu interior uma estrutura que podemos remontar ao século XVII, verificando‐se no exterior a presença de galerias laterais com colunas toscanas. Realçando a antiguidade destas galerias, observamos que, se a decoração da fachada principal apresenta colunas e pilastras coríntias integradas num desenho clássico iltalianizante, as colunas das galerias permanecem de ordem toscana, indiciando uma referência estética mais antiga, filiada nas igrejas de influência portuguesa do século XVII. Por fim, já na região de Colombo, podemos referir a pequena Igreja de Sant’Ana de Nawagamuwa, que apresenta um interessante nártex em três arcos de volta perfeita, de tradição franciscana, com galerias laterais correndo ao longo das fachadas laterais.

Em conclusão, as igrejas católicas do Ceilão revelam, no seu conjunto, uma permanência de tipologias e elementos arquitetónicos de tradição portuguesa, que se mantêm subjacentes às intensas reformas operadas ao longo do século XIX e XX.

Helder Carita

 
Habitação (Malabar/Kerala)

Os hábitos portugueses de construção, em argamassas de pedra e cal e cobertura de telha, vão ter um forte impacto na construção e na estrutura da casa tradicional do Kerala.

Até à chegada dos portugueses, a casa tradicional no Kerala caracterizava‐se por uma estrutura totalmente em madeira com cobertura vegetal, só sendo construídos em materiais mais perenes os edifícios religiosos. Embora em madeira, esta arquitetura apresentava uma sofisticada tradição de marcenaria, ligada à abundância de madeiras de grande dureza e durabilidade. Com apenas um piso, a estrutura da casa assentava sobre um largo soco que lhe servia de fundação. A casa popular, apenas com um corpo retangular, separava‐se da casa das classes privilegiadas, que apresentava um programa mais complexo, em que se desenvolviam vários corpos envolvendo um pátio central.

A influência portuguesa irá manifestar‐se progressivamente pela construção em argamassas de pedra e cal, mais económicas e com maior resistência ao clima húmido, de inten‐ sas chuvas no período da monção. Se nesta alteração de materiais construtivos a casa de carácter rural se mantém com apenas um piso, nas zonas urbanas verificamos a progressiva adoção de um edifício de tradição europeia com dois andares, tendo os serviços ao nível do piso térreo e habitação no primeiro andar.

Em referência ao modelo de edifício urbano, as casas mais antigas do núcleo histórico de Cochim manifestam uma interessante variante à tipologia de edifício com dois pisos, com vãos simples de janelas de peito, organizando‐se o seu programa distributivo em função das traseiras, afastando‐se do modelo original português. Numa quase oposição à fachada principal, as traseiras abrem‐se para um pátio‐jardim através de amplas varandas com prumos e guardas em estrutura de madeira. Tornando‐se a zona privilegiada de estar, esta varanda estabelece‐se como elemento estruturante do programa distributivo, funcionando como charneira de ligação a vários compartimentos interiores. Com a nova situação de relação que a varanda estabelece com todo o seu programa interior, estas casas constituem‐se como uma nova tipologia, por assimilação de condicionantes climatéricas e dados culturais autóctones.

Na sua origem e formação, esta tipologia recua ao século XVII, como nos confirma o texto de Gautier Schouten, que na descrição da cidade de Cochim refere que a maioria das casas construídas pelos portuguesas se caracterizavam pelas suas agradáveis varandas construídas nas traseiras, sobre os jardins.

É, porém, nas zonas rurais da periferia de Cochim e do interior do Kerala que encontramos uma tipologia com características de maior originalidade e revelando uma mais profunda interinfluência cultural. Evoluindo por progressivas etapas, este modelo acaba por adquirir uma estrutura estável, caracterizada por um corpo de forma retangular com dois pisos e um grande telhado de quatro águas cobrindo toda a sua superfície. A toda a largura da fachada principal rasga‐se, ao nível do primeiro andar, uma vasta varanda assente numa galeria, em arcos ou colunas, situada ao nível do piso térreo.

A originalidade desta tipologia revela‐se no seu programa interior, ao afastar‐se de qualquer modelo europeu. A estrutura deste edifício conforma‐se em dois retângulos concêntricos: um de maiores proporções, correspondendo às varandas e galerias exteriores, e um segundo retângulo interior, mais pequeno, correspondendo à habitação propriamente dita. Todas as circulações se realizam na periferia, varandas e galeria, funcionando estas como caixa‐de‐ar de arejamento e proteção solar. Ao nível do primeiro andar, a varanda de colunas, pela sua forma larga e comprida, desenha‐se como grande espaço de estar.

Na sua relação com a arquitetura tradicional, esta estrutura entronca na matriz da casa dos grupos mais pobres de sudras, com um núcleo interior de habitação envolvido por galeria de proteção solar. As alterações introduzidas neste modelo são essencialmente a passa‐ gem de casa térrea para dois andares e o facto de o espaço de varanda adquirir uma vivên‐ cia de quotidiano voltado sobre o exterior, distanciando‐se das tradições de privacidade doméstica indianas.

Acusando a formulação antiga desta tipologia, as escadas de ligação ao primeiro piso permanecem exteriores, afastando‐se radicalmente dos modelos de grandes casas goesas do século XVIII, com escadas integradas no programa de distribuição espacial interna.

Em termos de património construído, este modelo de casa encontra‐se representado numa vasta produção de casas paroquiais que, de uma forma diferente de Goa, adotaram um modelo de casa senhorial. Esta opção parece ligar‐se ao alto estatuto conferido aos sacerdotes, que, sobretudo nas comunidades dos cristãos de São Tomé, assumiam funções jurídicas e administrativas como grandes senhores. 

A existência de abundante documentação sobre a construção das casas paroquiais, contendo mesmo em alguns casos a descrição da sua estrutura interior, permitiu comprovar a formação deste modelo entre os finais do século XVI e os inícios do século XVII.

Neste caso encontra‐se o processo de construção da casa paroquial da Missão de Arthunkal, que nos fornece uma notável descrição desta tipologia de casa ao referir uma casa com dois aposentos e uma varanda a modo de sala muito boa. Nos seus traços essenciais encontramos aqui formulada, nos inícios do século XVII, a característica fundamental deste modelo de casa colonial. Como elemento principal e estruturante do seu programa interior, a “sala” cede lugar à “varanda”, que passa a funcionar como grande espaço de articulação de todo o programa espacial, assumindo‐se como o lugar privilegiado de estar e de representação.

A autonomia deste modelo tropical de casa com varandas, face à arquitetura civil goesa, onde a sua formação aparece como um fenómeno mais tardio, coloca a possibilidade de que os modelos precoces do sul da Índia tenham influenciado a evolução da arquitetura civil goesa.

Helder Carita

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